Vou devagar para o sonho

Debato-me desde há algum tempo com falta de assunto para a crónica habitual que me familiariza com as palavras. Falta de assunto não será a forma mais certa de dizer o que na realidade me afecta. O que se passa é que os assuntos prescritos neste momento pela ordem do mundo, exigem-me uma trégua. Evocarei, sim, outros momentos que me tragam novas energias e possam reconciliar-me com a vida. Ou comigo mesma.

Tenho constatado que há palavras que se tornaram lugares comuns, sujeitas, por vezes, â crítica de alguns cépticos, ou, pelo menos, mais pragmáticos em relação a certos recursos de ordem moral, não no sentido religioso, mas no âmbito relacional com os vários apelos do nosso envolvimento. Uma delas é a palavra «sonho». Está então encontrado o assunto que preencherá esta crónica.

Depois de ter voltado à leitura dumas páginas do romance *«Angélica e a sua Espécie» datado de 1993, recuperei uma delas que me parece adequada ao meu propósito e cito-a :

«Angélica…lera algures que a Arte era a recta ordenação dos meios práticos em relação a um fim. Mas isso não lhe bastava para permitir-lhe identificar rigorosamente o que sentia. Estava mais de acordo com o que se referia a um palpite misterioso, um toque impronunciado que conduzia à fabricação de objectos específicos, portadores duma iluminação. Ficou impressionada quando mais tarde leu outra frase: A Arte,essa maravilhosa mentira. Descobrira assim que aquele nome curto não totalmente explícito estava carregado de prodigiosos significantes. Mentira ou verdade, mantinha-se uma verdade constante no paradoxo, sem outra tradução. Na abordagem dos valores que os objectos estéticos representavam, a verdade e a mentira continham uma reciprocidade que determinava o lugar e o significado do insólito na vida. Um excitante que provocava uma faculdade nova: A de conjugar a razão com as imagens incoerentes e destorcidas das alucinações. Através dessa dicotomia seria possível dominar e travar a vertigem, racionalizar o absurdo, corporizar a miragem, harmonizar o caos.

A Arte comportava em si a estratégia do devaneio que não se podia confundir com o sonho, estado crepuscular, escurecido que conduz à inércia e ao sono. Mas na linguagem vulgar, deturpado o sentido etimológico, a palavra sonho valia para designar as regiões auspiciosas onde se geravam estados de nascer, lugares onde se activavam espantosos acontecimentos. O sonho era o tempo a gerar o tempo. Prospectiva da raiva e da vontade. Utopia antecipadora da razão. Via mágica possibilitadora de verdades sem território definido. Permitia a dissecação do real, da teoria, da superstição e do mito.  O sonho, nesta qualidade inconfundível, tornava-se uma irrealidade coerente dentro do cérebro e construía uma nova consciência que, transportada ao real, através do objecto estético, facilitava a existência e a coexistência dos seres e das coisas na mais paradoxal harmonia, a dos contrastes e ambiguidades. O sonho era assim uma espécie de máquina gigante que reconvertia as peculiaridades do mundo a uma dimensão ampliada, à medida de proporções inconfessadas

De acordo com as teorias estéticas da amplificação do real, a personagem Angélica entendia que as representações artísticas poderiam conduzir à fruição da vida com ousadia, sem receio das contingências nem dos fracassos. O Mundo existia para uso dos sentidos, para proporcionar a alegria humana que era uma certa forma de paixão, para ser conhecido, possuído e partilhado na intimidade dos grandiosos afectos. Entre o visual e o mental era possível uma exemplar união, que favorecia a experiência da liberdade, incluindo a liberdade de amar.

Postas de parte as teorias estéticas do passado, o sonho, que continua ainda hoje a incentivar a procura da felicidade contém, necessariamente, as duas componentes: a ousadia e a paixão. Por isso falar de sonho na actualidade não é, nem indevido, nem extemporâneo. Gaston Bachelard diz-nos que o sonho pode conter em si a mesma força onírica da Natureza: «Uma uva bem composta é um belo sonho da vinha»-

 

*Irene L. Andrade, Angélica e a sua Espécie. Ed. Signo, Ponta Delgada, Açores, 1993.


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