Memórias: entrar em Miraflores com a etiqueta de uma mala

Rui Marote
Faz 27 anos que Alberto João Jardim visitou Venezuela, Curaçau, Aruba e Panamá a convite da comunidade portuguesa da Venezuela, nomeadamente o concelho das Comunidades.
Era então o último governo de Rafael Caldera, 1994-1999.
Tratava-se de uma comitiva que englobava empresários e órgãos de comunicação madeirenses. Teve um extenso programa em que Alberto João Jardim seria recebido  pelo oresidente da República Bolivariana da Venezuela no Palácio de Miraflores.
A comitiva madeirense estava hospedada no outro da cidade, no Hotel Tamanaco – Avenida Principal de las Mercedes. Já o Miraflores, sede da presidência, está localizado no centro oeste de Caracas, a poucos quarteirões do Palácio Legislativo Federal, na Avenida Urdaneta. No dia e hora programados, saímos do Tamanaco numa carrinha. Tínhamos sido avisados que à entrada havia medidas de segurança apertadas, não esquecendo a carteira profissional .
Porém, a meio do percurso dou por falta do meu documento, que tinha deixado no casaco. Era impossível voltar atrás. Já às portas de Miraflores foram recolhidas as carteiras profissionais a serem entregues nos serviços de entrada. Tive a brilhante ideia colocar o cartão plastificado da minha bolsa fotográfica, que era da agência de viagens no Funchal Wagons-Lits, localizada no ex-edifício Voga, entretanto demolido. Na época era a agência que tratava de todas as viagens do Governo Regional.
Assim foi feito e passado algum tempo o assessor de imprensa da presidência venezuelana informava que só estavam autorizados entrar no Gabinete de Caldera  os repórteres fotográficos e o operador de TV; os restantes jornalistas aguardavam no edifício anexo. Calado, recebi a minha credencial e fomos conduzidos pela segurança para o edifício presidencial. No corredor estacámos em frente à porta do gabinete de Caldera, que se abriu e entrámos para o meio da sala quando Alberto João Jardim deu entrada. Fomos surpreendidos por Caldera, que saiu de trás da meia porta segurando a maçaneta para a fechar. Tirámos meia dúzia de fotos e de imediato fomos convidados a sair.
Já cá fora com os “bonecos” feitos respirei de alívio: “Desta já me safei…”
Nos dias de hoje, com Maduro, seria impossível porque os serviços de segurança iriam ao pormenor de, depois de efectuarmos um disparo fotográfico, verificar a imagem que captámos no visor.
Conheço outra história, mas no Parlamento Europeu: quando Virgílio Pereira era eurodeputado, na primeira vez em que convidou jornalistas o Semanário Eco do Funchal fez -se representar pelo director e proprietário que não tinha carteira profissional. Mas apresentou o cartão de crédito Gold e passou!!!

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