Ex deputada do PS, Sílvia Sousa Silva, escreveu na sua página do facebook o seguinte texto:
“Tão grave como a ignição é a inação de quem devia proteger a população e o território.
Obviamente não podemos desculpar quem, por atos negligentes ou intencionais faz fogo em condições de risco de incêndio, mas também não podemos deixar de responsabilizar quem rejeitou as soluções, quem ignorou os alertas, quem desvalorizou os riscos, quem simplesmente descartou a prevenção, quem apostou tudo no combate e, mesmo assim, não o soube fazer e ainda rejeitou a ajuda enquanto era tempo.
O historial de catástrofes na Região devia dar-nos ferramentas para a prevenção e mitigação de novas ocorrências mas, infelizmente, na Madeira, não se aprende nem com os erros, nem com o passado.
Mas mais grave do que não ter a capacidade de aprender é rejeitar deliberadamente os ensinamentos resultantes dos eventos e do sofrimento das pessoas.
Muito a tempo de tentar prevenir a gravidade dos últimos incêndios, em 2020, o PS propôs, na Assembleia Legislativa da Madeira, o apoio do Observatório Técnico para os Incêndios, criado no rescaldo dos Incêndios de Pedrogão Grande, para uma avaliação independente das vulnerabilidades do nosso território e da nossa floresta, com o objetivo de identificar os pontos fracos, as ameaças à nossa segurança e corrigi-las.
O Observatório disponibilizou-se a fazê-lo, a maioria rejeitou-o.
Mais recentemente, já depois dos últimos incêndios de Outubro de 2023, insistimos e propusemos um estudo da dinâmica dos fogos no território, recorrendo novamente ao Observatório Técnico Independente para os Incêndios, para nos prepararmos para situações que sabíamos que iriam voltar a acontecer, mais cedo ou mais tarde.
A proposta foi chumbada pela maioria, foi rejeitada pelo Governo da Madeira e na semana passada, o fogo voltou, à semelhança de outros incêndios, a progredir rapidamente no território, fazendo, em alguns casos, o mesmo percurso que em incêndios anteriores pelo que a “surpresa” não é admissível.
Chegámos ao ponto de que muitos populares já conhecem melhor os “caminhos do fogo” do que os responsáveis pela nossa defesa.
Mais uma vez, o progresso do fogo entre os concelhos da Ribeira Brava e Câmara de Lobos fez-se pelo mesmo local “engolindo” os Aviceiros como em 2010, como em 2023 e provavelmente como em outros anos de que não tenho memória mas, mais uma vez, as autoridades foram surpreendidas em vez de acautelarem a chegada do fogo.
Supostamente, não foram mobilizados meios porque o incêndio demorou-se em zonas inacessíveis, mas o que foi feito no limite dessas zonas para que o fogo não chegasse mais perto? Nesse tempo, não se poderia realizar o trabalho sapador, abrindo aceiros e zonas tampão com recursos a máquinas e equipamentos para deter o fogo, como os que mais tarde vieram a ser realizados por sugestão e ação da força especial tardiamente aceite pelo Governo Regional?
As condições meteorológicas adversas são já recorrentes, estão identificadas enquanto ameaças e deveriam ser entendidas como um fator de risco a considerar e não uma desculpa para aliviar responsabilidades governativas.
A orografia é a que sempre tivemos e isso deveria dar-nos mais habilidades e competências para a contornar e não para desculpar a irresponsabilidade governativa.
Ouvem-se acusações dirigidas aos partidos políticos da oposição sobre aproveitamento político da situação, quando o que dominou durante todo este incêndio foi a arrogância politica de quem foi eleito ou nomeado para governar e não teve a competência desejada para o fazer, nesta situação.
Recusar a ajuda atempada disponibilizada pelo Governo da República foi uma opção política questionável. Utilizar apenas 10% do dispositivo de combate no ataque inicial ao incêndio (ao que sabemos existem bombeiros que ainda hoje não foram mobilizados), permitindo que o mesmo ganhasse a dimensão que tomou, foi uma decisão política questionável. Recuar na decisão de aceitar a ajuda, mentindo e tentando enganar a população que testemunhou os avanços e recuos da decisão foi uma escolha política que pode e deve ser questionada e denunciada.
A proibição do pastoreio na Madeira, o palco dado aos fazedores de opinião extremada contra o gado e a rejeição de um novo regime silvopastoril apresentado 2 vezes nos últimos 4 anos pelo PS na Assembleia da Madeira, que permitiria um pastoreio tecnicamente planeado e dirigido à prevenção de incêndios rurais foram más decisões políticas com consequências brutais na acumulação de carga combustível que tem alimentado os fogos na Madeira.
A desvalorização da pequena agricultura madeirense e a ideia de que apenas a agricultura empresarial intensiva que ocupa pouco território é de incentivar, provocando o despovoamento é uma má decisão política que agrava as vulnerabilidades do nosso território aos incêndios.
Uma política de conservação da natureza que afasta as comunidades locais em vez de as envolver, que rompe a ligação harmoniosa entre a atividade humana e o ambiente, que torna os madeirenses estranhos na sua própria terra, que ataca as atividades tradicionais em vez de as promover são escolhas políticas com reflexos na severidade dos incêndios e essa responsabilidade política deve ser apurada e atribuída.
Não falo desde o inicio dos incêndios por respeito às vítimas, aos que tiveram de deixar tudo para trás sem saber o que iriam encontrar no regresso a casa, aos que arriscaram a vida para corrigirem os erros dos governantes, aos que passaram pelo sofrimento e pela perda, aos meus que sofreram de perto o horror dos incêndios… mas calar é tornarmo-nos cúmplices da incompetência que tem sido o ordenamento do território deste Governo Regional, a principal causa da severidade dos incêndios na Madeira.
Vamos mesmo continuar a exigir mais meios de combate quando a questão está na sua gestão e sobretudo na prevenção?
Vamos voltar a validar falsos heróis e engolir a arrogância governativa como se fossemos nós os culpados?
Vamos mais uma vez sacudir os ombros como se tivéssemos destinados à submissão?
Vamos todos continuar a apelar à proibição quando a solução é responsabilização?
Na sua terra, na sua serra, aos madeirenses já não é permitido quase nada, mas os que tudo podem, deixam arder!
Um abraço de coragem aos que enfrentaram e enfrentam os fogos, no papel de vitimas e/ou de profissionais, o elo mais fraco num sistema disfuncional….”
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