A palavra da Amelinha

No Pelourinho e suas redondezas, era bem conhecida. Parecia andar sempre apressada. Passo curto e ligeiro. O cabelo tingido de louro e a baixa estatura permitiam distingui-la à distância. Alegre. Sorridente. Falava com todos os homens dali. Nunca revelava a sua idade. Mais de sessenta, com certeza.

Nas palavras de Camões, teria sido uma «dama de aluguer». Na Madeira, era uma mulher da rua, uma Amelinha. Não escondia a sua profissão, se é que assim se pode designar a actividade que exerceu, quando nova. Contava ter obtido licença e que ficara obrigada a inspecções pela autoridade sanitária. Fora uma «mulher matriculada» e com «livrete».

Estas mulheres estavam sujeitas a regulares e exigentes controlos, para prevenir a propagação de doenças venéreas e garantir a saúde e o bom nome dos seus clientes.

Quando foi proibida a prostituição em Portugal, quiseram apreender-lhe o «livrete». Com a sua arte, conseguiu ludibriar a autoridade policial. Guardava-o junto dos seus documentos. Não falava em «livrete». Orgulhosamente, era a sua caderneta, como se se tratasse de diploma de estudos.

O Decreto-Lei n.º 44 579, de 19 de Setembro de 1962, proibiu o exercício da prostituição a partir de 1 de Janeiro do ano seguinte.

Depois desta lei, continuou «na vida», como clandestina. Correu o risco de prisão, até deixar de ser solicitada. Gabava-se de ter contado com o amparo de bons clientes, inclusive uns agentes da PIDE-DGS e da Polícia. Nunca lhe foi aplicado o previsto na lei, que equiparou as prostitutas aos vadios.

Veio a liberdade em Abril. Mas já não havia homens para ela. A sua idade afastava-os. Algumas amigas mais novas também se queixavam dos poucos clientes. Atribuíam culpas aos filmes pornográficos, exibidos nos cinemas. Uma pouca-vergonha que não aceitava.

Vivia com dificuldades. Os biscates não rendiam o suficiente. Conseguiu uma pequena reforma, dos poucos anos em que bordou. Na casa, legalmente autorizada para a prostituição, onde trabalhou dos dezoito até quase aos vinte e cinco anos, não havia descontos para a Caixa.

Agora tinha de se valer dos conhecidos da zona. Pedia dinheiro emprestado, prometendo pagar em dia que ela própria aprazava.

Ninguém lhe recusava 20, 50 ou 100 escudos. A Amelinha era certa. Sempre pagava o que devia, no dia combinado.

Havia um certo respeito por esta mulher. Mais do que compaixão. Gostavam dela. Das piadas que contava. Da alegria que transmitia. Reconheciam ser mulher de palavra, na devolução do dinheiro emprestado e noutras circunstâncias.

Podia-se contar com a Amelinha para a limpeza de uma loja ou um recado. Não falhava. Esmerava-se no que fazia, sempre com aquele sorriso escancarado.

Morreu há alguns anos. Não escrevo o seu nome, por consideração pelos seus filhos. Não vai ficar na História do Funchal. Só na memória de uns tantos. Foi figura conhecida. Não figura pública. Diziam alguns ter sido «mulher pública».

E por que razão me lembrei da Amelinha nestes dias?

Simplesmente por honrar a sua palavra, apesar do percurso de vida. Com 12 anos veio para o Funchal para a casa duma família de renome. Quando a patroa descobriu o que o marido fazia com a criadinha, expulsou-a. Religiosa, como era, não podia ter aquele diabo dentro de casa. Foi a explicação dada. A roupa sobre o corpo era só o que tinha direito, quando a obrigaram a deixar o lugar onde fora iniciada.

Só e na rua, a sua vida seguiu o rumo de outras adolescentes que a miséria obrigou os seus pais a mandá-las para a cidade.

Não se queixava da vida. Sabia sorrir. Sabia viver. A alegria e o compromisso com a sua palavra sempre a acompanharam. Eram títulos da sua distinção.


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