A chantagem do “polvo”

A probabilidade do programa do governo regional da Madeira, recém-empossado, não ser esta semana viabilizado na Assembleia Legislativa, tem desencadeado uma onda de pressões oriundas de diferentes sectores dirigidas aos partidos representados no Parlamento madeirense, no sentido de assegurar que tal não ocorra e que, por conseguinte, o referido programa acabe por ser aprovado.

Associações patronais e sindicais, clubes desportivos, casas de saúde, bombeiros, casas do povo, jornais e até o bispo da diocese, juntaram-se em uníssono, dramatizando com as alegadas consequências que derivariam da referida não aprovação, mas sobretudo da Região poder vir a não dispor, no corrente ano, de um orçamento.

Na sucessão de declarações produzidas pelas entidades representativas dos aludidos diferentes sectores sobressai uma preocupação: ter acesso ao pote financeiro, leia-se orçamento regional. Pouco importando saber se a argumentação utilizada é verdadeira ou falsa, uma vez que a imprensa não só não faz o escrutínio devido, como se limita a reproduzir tudo o que é dito, mesmo o mais hilariante.

Trata-se de uma dramatização intolerável, inaceitável, na medida em que procura condicionar a legitimidade dos diferentes partidos em votar de acordo com as suas convicções ou opções políticas. Tanto mais porque, em Fevereiro passado, ninguém viu este coro de carpideiras, prenunciando uma catástrofe económica e social se não houver orçamento, pressionar o partido maioritário regional e o seu parceiro de coligação, o CDS, a aprovarem esse orçamento, existindo, como se sabia, condições parlamentares para o efeito. Ou seja, a grande preocupação – o indispensável orçamento – de toda esta gentinha que agora se juntou para procurar garantir a sobrevivência política de Miguel Albuquerque, poderia ter sido assegurada, logo no início do ano. E isso só não aconteceu porque quem invoca tanto o interesse da Madeira, o partido há 48 anos no poder, com a cumplicidade do CDS, achou que dessa forma pressionaria o presidente da República a não dissolver a Assembleia Regional.

Governar em duodécimos, governar com base no orçamento de 2023 não é nenhum drama. Se assim fosse haveria países que já não existiam. Por mais profecias que as tais aves agoirentas possam lançar não vem aí o fim do mundo. Tanto mais que há um partido que diz que tudo se resolve com a substituição do empossado presidente…

Voltando às pressões, melhor dizendo à chantagem, do aludido conjunto de entidades, por mais que alguns possam querer disfarçar, num meio pequeno como o nosso, todos sabemos donde vêm, quem são, que interesses defendem e protegem. Por mais independentes que se proclamem ou autoproclamem. Os tentáculos do “polvo” são inúmeros e enormes. A “máfia no bom sentido” tem raízes profundas. Só se ilude quem não quiser ver ou padeça da síndrome de Estocolmo.

Uma palavra final sobre a posição do bispo da diocese. Tal como sucede com os demais intervenientes, ela não surpreende. Não é nada inocente, muito pelo contrário. Podia ao menos poupar-nos a essa conversa do “cansaço” com eleições. Saudades do tempo onde eram uma farsa e a hierarquia da Igreja caucionava o poder político? Quanto ao resto, numa Região onde a Igreja entregou um jornal, o seu jornal, a um partido, pior ainda a um autoproclamado “único importante”, a promiscuidade com o poder político faz parte da sua natureza. Mas, não creio que Cristo abençoe este vergonhoso concubinato.

 

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.


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