Continuo a desfiar as minhas memórias de reportagem: a 6 de Setembro de 2002 uma equipa do Diário de Notícias da Madeira estava no Reino Unido com a missão de visitar uma série de “farms”, ou fazendas, em Manchester, onde trabalhavam dezenas de madeirenses.
De passagem por Londres, os nossos compatriotas alertaram-nos para o mau funcionamento do consulado geral na capital britânica, em que os madeirenses,
para tratar de documentos, chegavam a pernoitar à porta das instalações consulares.
Os jornalistas Ivo Caldeira e Rui Marote pelas 06 horas da madrugada visitaram o local, onde, ao frio e à chuva, os nossos compatriotas faziam parte de uma fila à volta do quarteirão, aguardando a abertura das instalações.
Recordo que era dada uma senha e que o atendimento não ultrapassava os 25. Entrámos no serviço de atendimento daquele consulado, quando este abriu ao público, para observar a forma como eram atendidos os nossos compatriotas a residir em Inglaterra. Mas fomos abordados por duas funcionárias que de forma desabrida nos disseram que não podíamos trabalhar ali e exigiam a entrega do rolo fotográfico. Perante a nossa recusa de fornecer o referido rolo fotográfico, chamaram a Polícia.
Quando esta chegou, uma das funcionárias chegou, incrivelmente, a pedir aos agentes para retirarem o rolo da câmara do repórter fotográfico. Enquanto falávamos com os agentes da policia explicando que apenas efectuávamos uma reportagem, surgiu um funcionário, que se identificou como sendo o Chanceler, o qual recusou dar qualquer explicação e ordenou a nossa expulsão das instalações consulares.
A policia fez cumprir a ordem de expulsão e convidou-nos a sair, mas recusou -se a apreender o rolo ao repórter fotográfico.
Ao chegarmos à rua, o aparato policial era grande: três carros e uma série de policias. A reportagem no dia 7 de setembro foi manchete no DN.
O Sindicato dos Jornalistas na altura considerou intolerável a actuação dos agentes consulares, que em vez de de apoiarem, como era seu dever, os representantes da comunicação social, agiram em claro desrespeito da lei do país que representam.
Foi dado conhecimento do ocorrido à Alta Autoridade para Comunicação Social, ao Procurador-Geral da Republica e ao Ministro da Presidência.
Só em Outubro de 2002 veio o Ministro dos Negócios Estrangeiros após insistência, veio transmitir as seguintes informações:-“Na sequência dos factos ocorridos e da queixa apresentada pelo Sindicato dos Jornalistas contra o Consulado em Londres, o senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas do XV Governo, José Cesário, contactou telefonicamente com os jornalistas Ivo Caldeira e Rui Marote a quem transmitiu a sua preocupação face ao sucedido, tendo-se disponibilizado para pedir desculpas públicas caso viesse a confirmar a veracidade das denúncias.”
José Cesário é o actual Secretário de Estado das Comunidades e que na altura deslocou-se a Londres a 18 de Setembro para reunir com o Cônsul Geral, o chanceler e a funcionária. Aproveitou ainda para transmitir a todos os funcionários que a situação não se voltasse a repetir e sublinhou a importância de manter um relacionamento cooperativo com a comunicação social.
Através do exercício do contraditório, o Secretário das Comunidades assumiu em nome do Governo, e por eles pediu desculpas institucionais, sobre o que representava uma ofensa grave *à liberdade de imprensa, garantida na Constituição. Na deliberação foi ainda referido: “-Além deles, porém, foi ofendido todo o povo português, que deste modo, ficou impedido, ele também, do seu direito a ser informado, expressamente previsto na Constituição e na Lei.”
Portanto, notas do passado que também valem para o futuro…
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