Provérbios e aforismos

«Não vás em cantigas», diz o provérbio: A sabedoria popular em advertência aos incautos que acreditam em tudo. «Quem mal canta bem razoa», de novo um alerta que valoriza o pensamento em oposição à palavra volúvel. «Canta bem mas não entoa», isto é: Belas palavras, mas fora de contexto. Estes três provérbios denunciam a destreza da inteligência popular na observação dos palavrosos, daqueles que projectam mais palavras do que ideias, fluentes na alocução, mas dúbios quanto à sua função correlativa..

Não se desdenhe do povo sábio que em todo o tempo ganha uma actualidade útil à observância do sentido da vida e das suas prioridades.

O determinismo da sobrevivência levou o camponês a preocupar-se com as perspectiva das suas colheitas e, por conclusões empíricas, a descobrir que «em Fevereiro chuva; em Agosto uva» e que «neve em Fevereiro, presságio de mau celeiro». No entanto o processo incontrolado do avanço da «civilização» acabou por danificar o planeta e alterar a ordem do Universo, de tal modo que os mangueiros do meu jardim que só frutificavam no outono, enchem-se, actualmente, de belos frutos no verão. Há um tumulto evidente em todas as latitudes da nossa existência, para além da vida geral do planeta que afecta a condição  humana e determina o processo de caos em que dia a dia nos arrastamos. Da pobreza às guerras somos todos pacientes indefesos, apesar das legítimas lutas e empenhamentos diários.

A literatura oral oferece, a quem a procura, uma fonte de saberes ancestrais que atestam em quatro ou cinco vocábulos simples e expressivas quadras populares, grandes verdades ontológicas. E porque estamos em fim de Fevereiro, numa particular época de mudanças da nossa vida pública, e numa evidente desordem mundial, há um nome inevitável que me agrada citar. Sinónimo de sagacidade, sabedoria e aptidão inata para usar a inteligência, é o nome de António Aleixo, nascido precisamente em Fevereiro, dia 18 do ano de 1899 em Loulé. Semi-analfabeto, pobre, com uma vida atribulada de emigrante em França, com dramas familiares de doença, incluíndo a perda duma filha, António era um homem desfavorecido por um governo ditatorial e uma sociedade elitista, num país votado à miséria e ao esquecimento dos mais necessitados. Porém a sua revolta não se expressava através de violência e vandalismos, mas manifestava-se pela acuidade da observação e a declinação dum descontentamento profundo através de frases dum saber eminente, postas nas suas quadras de rimas e ritmos assertivos. A ironia e a sátira características  dos trovadores aplicava-as oportuna e adequadamente às situações de desigualdade e injustiça, corrupção e falsidade. Não esquecia as falhas humanas que identificava com vigorosos aforismos e rasgos filosóficos.

Era um improvisador, mas tem reunidos em volume, «Este livro que vos deixo»,  «Quando começo a cantar», «Inéditos» , o «Auto do Curandeiro», o «Auto da Vida e da Morte». O trabalho de recolha e compilação da sua obra foi realizado pelo, ao tempo, reitor do Liceu de Faro, Joaquim Magalhães, no entanto parece haver ainda documentos dispersos à espera de reabilitação.

O descontentamento popular vem reforçando algumas atitudes desestabilizadoras da tranquilidade pública, em todo o mundo, e as promessas dos governantes ainda que sejam feitas de boa vontade não certificam o seu cumprimento, porque arrostam com vários entraves a nível institucional e de ordem económico-financeira, dependentes de contextos internacionais, e da boa ou má gerência de quem assume responsabilidades governativas. Por mais confiança que tenhamos nos que assumem os destinos dos países. tudo é incerto, porque a vida, ela própria é um mar de remoinhos e marés à mercê de agentes insondáveis, e os humanos, por via dos próprios erros, correm o risco de fracassar.

Continuando a evocar os adágios, a experiência do povo diz-nos que « Deus faz o que quer e o homem o que pode» e mais, «Deus me livre daquele que estudar num livro só». O primeiro adágio é a constatação duma realidade de sentido único. O segundo, é, ao contrário, um aforismo nascido duma reflexão filosófica que remete para o pensamento pluridimensional abrangendo várias áreas do conhecimento e da acção. Adverte para o perigo dos dogmas, das autocracias e dos absolutismos.

António Aleixo viveu numa época histórica que marcou profundamente a sua vida e o seu modo de pensar. A sua obra é um rebate de alerta sobre o sofrimento do povo e o seu próprio sofrimento. Dentro do contexto dos discursos políticos, em épocas cruciais, o poeta lançava seus reptos imbuídos duma subtil ironia. Sem injúria, nem ultraje, mas de modo sóbrio, embora contundente.

 

Para não fazeres ofensas

e teres dias felizes

não digas tudo o que pensas

mas pensa tudo o que dizes.

 

Entre leigos e letrados

fala só de vez em quando

que nós, às vezes, calados

dizemos mais que falando,

 

Sem que o discurso pedisse

ele falou; eu escutei

gostei do que ele não disse

do que disse não gostei.

 

Como prova duma qualidade honesta e sábia o poeta cumpre os provérbios referidos no início deste texto, contrariando o seu sentido reprobatório. Ao lado do povo, observador e experiente, António Aleixo, sim, «canta bem, bem entoa…e bem razoa».

 

Fev, 2024.


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