Oxalá, que o novo ano que acaba de chegar, seja uma ótima oportunidade para se (in)formar verdadeiramente públicos, recorrendo às diferentes vertentes culturais e artísticas. Que estas áreas sirvam realmente o seu papel de construção de uma melhor sociedade e não sejam usadas como ferramentas de decoração para a vez.
(In)formar os públicos, passa também por requalificar estruturalmente os espaços culturais, para que recebam de forma digna as performances artísticas e outras tantas iniciativas. Alguns espaços culturais, sem as necessárias intervenções de requalificação, não ultrapassam eficazmente este inverno. Pois, tornar-se-ão em meros espaços devolutos. Quando deveriam estar presentes, iluminando os nossos dias com inspiração e criatividade. Falo, entre outros, nomeadamente, do Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos (CCE), que tanto nos tem dado em prol da arte e cultura. Mas que, atualmente, encontra-se numa situação muito crítica em termos estruturais.
Este espaço tem demonstrado, entusiasticamente, ao longo dos anos, um grande dinamismo artístico-cultural e uma atividade profícua, que vai muito além do acolhimento de projetos de artes performativas. No decorrer de cada temporada artística tem oferecido uma programação eclética e adequada a diferentes públicos, incluindo, como não poderia deixar de ser, iniciativas de educação pelas artes, com as escolas dos diferentes ciclos de ensino.
O Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, possui várias divisões, a começar pelo Auditório Maestro João Victor Costa; uma biblioteca (atualmente fechada devido à praga das infiltrações); uma sala polivalente de formação e lugar ativo, semanalmente, de ensaios e criação de teatro (OFITE – Oficina de Teatro do Estreito – companhia residente) e canto coral (Grupo Coral do Estreito); uma sala que acolhe, diariamente, as aulas da Academia de Línguas da Madeira e um espaço expositivo. Mas o CCE ainda tem muito por onde crescer – assim se iniciem as urgentes obras de requalificação. Condição necessária para que se possa continuar a (in)formar, como deve ser, os públicos. Para que se possa continuar a inspirar a vida de todos os que partilharam o seu tempo com arte e cultura.
Num tempo onde as pessoas não resistem a sair do conforto do sofá (a não ser para arraiais – eu também vou) a cultura e arte, esteve bem presente no CCE. Só no ano de 2023 este espaço acolheu diversos espetáculos de teatro, de dança, musicais, sessões de cinema, concertos, apresentações de livros, conferências, seminários, uma gravação de um vídeo clipe, uma edição da Mostra de Artes de Palco, entre outras iniciativas culturais, sociais e de educação artística, nomeadamente com as escolas da freguesia e apresentações dos Cursos do Conservatório Escola das Artes da Madeira. No último ano, aproximadamente, dez mil pessoas, assistiram aos eventos, incluindo as 6 exposições temporárias que estiveram patentes.
Ao longo dos tempos, criaram-se e fidelizaram-se públicos, que não se podem perder. Temos de agir, para não se perder estes preciosos contactos de diferentes públicos que gostam de usufruir do poder das artes.
E assim também se criam gostos e hábitos culturais para a vida. Sem estes espaços, muitos não terão um acesso democrático à cultura artística, que tanto se defende nos discursos – alguns só de conveniência.
Se tudo correr bem, que é o que se pretende, no decorrer de 2024, encontramo-nos no CCE – pois assim é carinhosamente tratado pelas crianças e adolescentes, como tantas vezes já ouvi. Se tudo correr mal, que é o que não se pretende, o CCE, ficará para sempre nos escaparates da memória de sucessivas gerações, que por ali passaram.
Tomara que em 2024 a cultura continue a ser um farol de inovação e união, celebrando a diversidade e a expressão única de cada um. Pois a cultura eleva-nos e torna-nos mais humanos. Que estas palavras sejam corretamente interpretadas, pois segundo, Sua Eminência Reverendíssima, o cardeal e poeta madeirense, José Tolentino Mendonça, “a palavra é a maior invenção humana”.
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