A Informação “meteu baixa”!

Na passada quarta-feira, 23 de Agosto, fez manchete na edição impressa de um dos matutinos regionais que a ausência registada no fecho do ano letivo, maioritariamente por motivos de doença, corresponde a 5,2% da classe docente da Madeira.

A notícia nada traz de novo ou ilegítimo, relativamente à obrigação de informação e escrutínio, não fosse a curiosa circunstância de surgir em letras descomunais, tamanho 200, em gorducho negrito, puxando à leitura sensacionalista de insinuação no sentido de supostas fraudes ou outras ilegalidades tão ao gosto populista, que vai ganhando terreno em muitos órgãos de comunicação social, salvo honrosas exceções.

Como se não bastasse a natureza, digamos, “folk” da informação (ou seria tentativa mal amanhada de deformação dos factos?), a página interior para a qual remete exibe uma imagem de uma sala de aulas vazia, com a intenção, porventura subliminar, de avivar uma mancha de absentismo dos professores (qual “bandalheira organizada”) ou, quem sabe, uma “indireta” chamada de atenção a uma classe profissional supostamente calaçeira, useira e vezeira em baixas “fraudulentas”, representada por alegados 327 “gazeteiros” e falsos doentes, com efeitos potencialmente nefastos na formação dos seus alunos e na Educação em geral.

É absolutamente certo que informar e investigar são deveres jornalísticos. Inteiramente legítimos e inquestionáveis quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de vista ético. Estamos todos de acordo na substância.

Já a forma, chamemos-lhe habilidosa (para sermos simpáticos) de procurar impressionar negativamente uma opinião pública que, em alguns casos, nem precisa de instigação para destilar antigos e novos “ódios de estimação”, não passou, nem passa, despercebida.

Conforme comentava um leitor não identificado da versão “online” do órgão de comunicação social protagonista do aparente alarmismo e convite (talvez mal disfarçado) à maledicência e leitura enviesada dos números, e citamos, a “notícia é muito útil… É interessantíssimo sabermos em cada profissão quantos profissionais estão de baixa e as suas razões… e isto repete-se todos os anos, mas só nesta profissão é que é importante!”

De acordo com o jornal, e esse facto é que deveria ter destaque a negrito, tamanho 200,  “A maioria das ausências acontece por motivo de doença”.

Assim sendo, poderemos estar perante uma censura jornalística a quem tem a infelicidade de adoecer? Uma proibição? A suspeita de uma ilegalidade?

O mais interessante é que uma notícia que levanta um número, à primeira vista, “alarmante”, acaba absolutamente por contradizer-se nos termos, designadamente quando informa que, e voltamos a citar o órgão noticioso, o “ministro da Educação referiu publicamente que a taxa de absentismo rondava os 8% e que a maioria dos casos se devia a baixas médicas”, o que só confirma a principal causa subjacente, acrescida do facto de os números nacionais serem proporcionalmente superiores aos regionais, o que, sem ser relevante, não deixa de ser positivo.

Na “investigação jornalística” ficou apenas por apurar “quais se referem a doenças prolongadas e quais dizem respeito a doença de curta duração”, quiçá para tentar “pôr em causa” umas e outras… Certamente que não, estamos em crer!

Segundo o mesmo diário, além da doença, os motivos abarcam as seguintes situações: acidente em serviço; assistência a família; assistência a filhos; gravidez de risco; internamento e licença parental, o que em nada difere do que é legítimo nesta ou qualquer outra área profissional. Ou será que não?

Confrontado com esta “quase acusação” , o Senhor Secretário Regional da Educação, Dr. Jorge Carvalho, lembrou, e muitíssimo bem, que o que “é preciso ter em conta, neste particular, é o direito à privacidade das pessoas em situação de absentismo profissional, condição que não pode excluir a classe docente”, relembrando ainda que “na mesma linha de considerações, importa ter presente, para docentes ou para quaisquer outros profissionais, que a natureza do ato médico estabelece um determinado período de ausência ao trabalho. Esse ato não pode ser questionado sem o devido fundamento e sem respeito pelas condições que asseguram os direitos de todas as partes envolvidas”, esclarecimento, este sim, que mereceria negrito, letras bem avantajadas, de tamanho 200, a quem desconhece a lei ou finge desconhecê-la, com intenções demagógicas e de alarmismo social, não só para quem “tem baixa”, mas igualmente para os médicos que a atestam.

Igualmente plausível, e a desmontar pela base a parangona insinuante, é o facto de a tutela ter recordado que “a maioria dos professores detém vínculo permanente”, pertencendo “a uma faixa etária mais elevada, motivo que poderá explicar a sua ausência por motivo de doença.

Qual a dúvida? Haverá aqui alguma razão objetiva para especial estranheza ou suspeita? Ou haverá, algures, algum histórico escolar mal resolvido…

Acresce que, depois de convidar os leitores, pela “espetacularidade” da manchete, à desconfiança ou a julgamentos populistas em praça pública, a conclusão objetiva e factual é a de que os alunos não foram afetados.

Com efeito, de acordo com o  Secretário Regional, é bom sublinhá-lo, não houve registo de perturbações ao normal funcionamento das escolas e, sendo certo que a ausência de um professor constitui sempre uma situação que exige esforços especiais de resolução e alguma sobrecarga para outros docentes, as referidas situações têm sido resolvidas sem prejuízo dos alunos. A provar a natureza vazia e despropositada, para não dizer mal intencionada, da manchete e  imagem que a ilustra, assim como todo o conteúdo e substância que caem  pela base, está a avaliação de quem tem maior autoridade, responsabilidade e legitimidade para avaliar e ajuizar sobre matéria da sua tutela.

Deixo, pois, à consideração de quem tenha dúvidas ou de quem as alimente, com alguma reincidência e espetacularidade, que, também em consonância com o testemunho do  Secretário Regional, “não há efeitos perniciosos para as aprendizagens dos alunos por razões associadas à ausência forçada de docentes. A Secretaria Regional de Educação, contando com o empenho das escolas e dos profissionais que se mantêm no ativo, assegura um ano letivo sem problemas a todos os alunos, seja no plano da garantia de docência, seja no que se reporta ao funcionamento das escolas.”

Os professores dispensam aplausos e palavras de circunstância quando cumprem com o seu dever, mesmo superando-se, adaptando-se e recriando-se, em face das circunstâncias desafiantes e problemáticas do período da pandemia, tal como o fizeram muitos profissionais da área da Saúde, entre muitas outras, do mesmo modo que rejeitam liminarmente qualquer ataque, velado ou não, de órgãos que deveriam primar pela elevação e respeito pelos profissionais que também os formaram.

Importante, sim, é enfatizar que as escolas da região registaram bons resultados nos exames nacionais, superando mesmo, em alguns casos, a média nacional, daí decorrendo a entrada de 1.529 dos 1.688 candidatos à Universidade.

Informar, destaque-se a negrito, tamanho 200, não se coaduna com desinformar e, muito menos, com deformar realidades e factos.

Fica o reparo e devido esclarecimento.

 


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