“(…) todo o casario do Funchal a subir pelas encostas. A fugir do mar, como dizia o meu pai, por ter ouvido o seu dizer o mesmo”.
Deodato Rodrigues in O intenso labor dos tentilhões (p.92)
I – O intenso labor dos tentilhões ou uma “Carta de chamada” à Literatura
Naquele tempo, nos lugares recônditos da ilha da Madeira, a emigração não era uma escolha. Era um caminho, não raras vezes penoso, no sentido de quitar o sofrimento da pobreza e do abandono. Quem ia primeiro, afoito e sofrido, deixava saudade e esperança, aquela que alimenta os sonhos e descobre a miséria. Podia passar muito tempo, o tempo da espera, até que a “carta de chamada” representasse uma desejada alforria para um mundo que haveria, sempre, de ser melhor.
O livro de Deodato Rodrigues conta-nos a Madeira das “cartas de chamada”, da submissão e da colonia, da liberdade almejada e perturbadora, das incertezas suscitadas pelos processos, ínvios, de construção de uma sociedade nova. Conta, ainda, como a resiliência e a determinação podem erigir fundações sólidas e dar origem a vidas felizes.
Mas, permitam-me colocar um freio a esta síntese plena de tonalidades afetivas e sentimentais que, acredito, também contagiarão o leitor e, não raras vezes, o deixarão empático e emocionado.
De um ponto de vista estritamente literário, este livro – surpreendentemente, o primeiro deste autor – apresenta desafios complexos aos seus leitores, quer no âmbito da sua estrutura narrativa, quer no quadro dos recursos de implicação e despiste. Deixa, frequentemente, o leitor “sem chão” e obriga-o a reler, reorientar-se e re-situar-se nos sinuosos caminhos e escarpas desta “carta de chamada” à Literatura.
II – Da “matéria negra” ao pacto com o tempo e o espaço
O intenso labor dos tentilhões, não sendo um livro sobre pássaros, escolhe a metáfora da construção dos ninhos e da sua paciente construção para falar de Literatura, da arquitectura narrativa que subjaz ao texto e, sobretudo, do ninho-família, dos legados intergeracionais, numa espécie de pacto com o tempo e o espaço, qual acto de fé, de paciente cedência alquímica à palavra e ao seu poder transformador que é, também, o da sociedade que descreve.
O texto de Deodato Rodrigues é, igualmente, um registo de memória/s, a matéria negra de uma construção de sentidos e das múltiplas entidades da narrativa, o lugar de onde emanam as personagens, quais arquétipos da condição humana que se revelam e escondem em verdadeiros actos de encantamento da palavra. É resiliente como a vida exige e deixa-se embalar pela magna voz do tempo “esse grande escultor” (expressão de Victor Hugo, tornada célebre por Marguerite Yourcenar)
III – “A Literatura como interpretação da ilha” – Eduardo Lourenço
O livro inicia-se com uma longa carta, um complexo intertexto, que pode confundir o leitor, mas que o conduz à centralidade narrativa e ao fio-de-prumo da história das famílias que nos dá a conhecer. No entanto, constitui um acervo de reflexões acerca da escrita e da Literatura como “labirinto” e produz uma sinopse: “Já o livro, terá a vida das pessoas dentro, os seus pensamentos e as suas acções, os seus sofrimentos e as suas lágrimas, as suas desventuras e incertezas, mas também os sonhos tornados realidade, as felicidades alcançadas, as alegrias intensas, o amor nas vezes certas (…)” (p. 23). Neste fragmento intertextual, designado “Apelo” o seu autor refere a criação literária como “mistificação”, “fingimento”, “especulação” ou “fazer de conta”. José Manuel Melro, autor da desse texto/carta, aqui citada, compõe, desse modo, a bússola que permite ao leitor empreender a intricada viagem que lhe é proposta.
Estamos no Funchal e o narrador/autor não se esconde no capítulo “Justificação”. Interpela e condiciona o leitor nas suas interpretações e deixa as suas recomendações e votos.
Nesta primeira parte, designada “Vidas imprevistas”, os capítulos seguintes adoptam o nome das personagens (Miguel Patrício, Paulo Simão, Antonieta Pontes e Ester Sousa), protagonistas dos movimentos políticos e ideológicos, assumindo uma visão crítica às representações culturais insulares acerca dos acontecimentos ligados ao 25 de abril e às celebrações do 1º de Maio subsequente. A estrutura narrativa, plena de analepses e prolepses, confere uma cativante dinâmica textual acerca da História e do modo como, na Madeira, a Revolução foi vivida. Para além das muitas “interferências” intertextuais (autores como Carlos Drumond de Andrade ou Herberto Hélder), o modo como as identidades narrativas quebram as fronteiras tradicionais do estatuto do narrador, constitui uma das muitas dimensões de originalidade desta obra. Os momentos de metaficção encorajam esse desejado compromisso intelectual com a Literatura.
A Madeira, os seus lugares e as suas gentes, permitem ao/s narrador/es o ensaio etnográfico, papel que a Literatura pode desempenhar e que oferece, ao leitor, uma multiplicidade de olhares sobre os principais códigos contextuais da época. Em Orientalismo, Edward Saïd refere que todas as culturas impõem correcções à realidade nua e crua. Neste texto de Deodato Rodrigues, há uma didáctica da cultura subjacente, no sentido Saïdiano.
III – Da subversão e da adversidade
As personagens de O intenso labor dos tentilhões são obstinadas, insubordinadas, também, numa permanente dialéctica da subversão e da adversidade, causando disrupções narrativas com impactos na recepção da obra, na relação que se estabelece entre o/s narrador/es e o leitor. As insurrectas personagens desta obra, constroem percursos de dor e de superação, numa permanente busca de um qualquer aconchego existencial que os proteja e salve. Tal como os tentilhões tecem os seus ninhos, o trabalho de construção literária também tece e entretece os fios com que fabrica os sentidos que podemos partilhar com o autor/narradores que nos implica e não desilude.
A guerra colonial, as relações entre a sociedade e a História, sublinham, neste texto, os laços tecidos no medo e na dor, a construção de uma personagem-figura paternal, edificadora de uma mundividência e de valores que darão lugar à assertiva resiliência no regresso antecipado da guerra, por morte do pai da personagem “fundadora”. Miguel Patrício e o Alferes Veríssimo são os cúmplices do modo como o leitor se deixará comover e perturbar, recordar (também) tempos de outro Tempo, na vida do país, na vida insular das partidas e das chegadas.
IV – “Amor certas vezes” (título da Parte II)
A segunda parte tem três capítulos (“Negócios”, “Reencontros” e “Vitórias”) onde predomina o “olhar de fora” do Arquitecto (autor?), um continental, residente na Madeira que enamora e cativa a madeirense recém-chegada do Brasil.
Escolhi propositadamente este penúltimo capítulo da minha leitura, acerca da obra, para mencionar duas dimensões (de interesse literário, a ser desenvolvido num texto de outra natureza): a da intertextualidade musical e a da importância das mulheres.
Recorro a Bachelard para situar o poder telúrico da música, a sua relação com os elementos e a vida, a sua capacidade catalisadora de emoções. Ao longo do texto, a pauta literária é enfeitada com referências musicais que actuam na qualidade de componentes, ora redundantes, ora contrastivos, coadjuvantes da adesão afectiva do leitor ao texto e às suas personagens. É o palco literário de um concerto a que se assiste com o enlevo secreto de que só a música é capaz.
Finalmente, as mulheres. Fortes, determinadas, empreendedoras, parceiras incondicionais dos destinos dos homens com quem construíram vidas felizes, mesmo na adversidade. As mulheres são, verdadeiramente, a razão da acção e o principal motivo pelo qual vale a pena viver, no sentido de construir laços duradouros. No entanto, é Eunice/Ester (é obrigatório consultar a genealogia, no início da obra), a primeira mulher a assumir, sem resguardos, o papel de líder e de exercer o poder e a autoridade sem freios, rótulos ou constrangimentos. Estas mulheres são as fiéis depositárias de um legado material e imaterial, de um acervo de valores e de idiossincrasias cujo labor é tão intenso quanto o dos pássaros que dão nome à obra. Construtoras dos seus ninhos, estas mulheres edificam uma particular representação literária do feminino, nesta obra (no sentido de M. Ondo).
V – Uma miríade de cartografias
Assim, esta, também é uma história de amor/es. É impossível resistir a finais felizes. Queremos tornar-nos cúmplices dos segredos e dos gestos que nos conduzem ao “amor, certas vezes” (título da Parte II do livro).
Percorrer as ruas do Funchal, nos becos da memória, escutar uma canção de Sérgio Borges ou uma melodia doce de Vinicius, ao sabor dos laços que a amizade e o amor tecem, representa para o leitor, além da originalidade literária, o doce sabor da leitura que nos convoca ao Bem. Vitória nasceu, a história ainda agora começou!
(O livro O intenso labor dos tentilhões, de Deodato Rodrigues, está publicado pela CADMUS)
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