Casal de professores e diretores de escolas na Austrália partilha história de sucesso na Madeira

Connie Alves com o amigo Luís Paixão. Fotos FN.

Connie Alves (59 anos) e Tim Jones (66 anos) deixaram o frenesim da Austrália para passar umas semanas de férias na bucólica Madeira. Rendidos à beleza da ilha e à longa amizade que liga o casal ao escultor madeirense Luís Paixão, regressam sempre deslumbrados pela magia desta terra e dos seus pitorescos detalhes.  Aliados a estes fatores existe também uma história familiar de ligação a Machico que puxa pela alma, uma vez que Maria da Conceição Sousa Alves (mais conhecida por Connie Alves) é natural de Machico é mais uma das filhas da terra que, juntamente com os pais, agricultores, partiram rumo ao desconhecido, neste caso à remota Sydney para lutar por melhores oportunidades de vida. Do nada construíram uma vida de sucesso, alicerçada na educação, quer como professores, quer como diretores de escolas e partilham com o FN esta aventura na diáspora e na pedagogia.

Na campestre e paradisíaca residência do artista madeirense Luís Paixão, em São João Frino, Santo António da Serra, o fim de tarde inspira  ao diálogo e a troca de experiências do casal sucedem-se numa comunhão de saberes singular. Luís Paixão, também com uma longa carreira de docente na APEL, segue entusiasmado os aspetos diferenciadores de um ensino num mundo como a Austrália em cotejo com Portugal. O diálogo flui ao sabor de uma ementa também australiana, como o emblemático churrasco (bife na brasa) e os aperitivos de Sydney, num confidenciar de experiências e vivências de um casal de pedagogos que chegaram ao topo da carreira, na docência e na gestão escolar, sem perder o fascínio pelo amor à escola e aos alunos. Os anos passam mas o amor ao ensino resiste sempre jovem.

Estudar foi a porta do sucesso

De facto, as histórias exigem os começos. Connie e família tiveram de superar as múltiplas barreiras típicas da emigração, nomeadamente a imponente barreira linguística. Oriunda de Machico, sem domínio algum do inglês, mergulhada na Austrália com os pais e irmão. Com suor e lágrimas, a família criou as suas raízes em New Town. OS estudos de Connie foram o passaporte eficaz para o acesso ao mundo do trabalho. A sede de conhecimento era grande  e o estímulo dos pais também. Assim, mergulhou na aventura de fazer a sua formação para ser professora de artes. Aos 21 anos, começou a desafiante viagem do ensino, dando aulas de artes e história, numa escola difícil, uma vez que a origem dos alunos é uma paleta de nacionalidades com múltiplas exigências para os docentes. Conciliar as sensibilidades indígenas ou aborígenes e as muitas outras nacionalidades dos alunos tem sido um desafio duro mas apaixonante.  A progressão foi rápida e logo depois assumiu a direção da escola, privilegiando a voz do aluno, as suas motivações de aprendizagem, no sonho de construir uma escola cada vez melhor.

Após este desafio, outro sucedeu-se: dar aulas como professora universitária na Western Sydney. Após esta experiência enriquecedora, a ligação à escola foi mais forte e voltou à BHS, onde atingiu o topo como diretora, há 12 anos, com o desafio de lidar com 90 professores e mais de 900 alunos. Neste momento, tirou um ano de licença sabática para formação e outros desafios, sempre alimentada da sede de saber mais.

Tim Jones, um pedagogo atento às necessidades da comunidade.

Neste momento, olhando para o seu percurso, nutre um evidente orgulho por ter conseguido provar aos australianos que os emigrantes também podem ser indivíduos bem sucedidos. Além disso, o seu exemplo de sucesso passa também por ter conseguido ser a voz da mulher na direção de uma escola, lugar que só era ocupado normalmente por homens.

Na base e no centro do sucesso estão os valores que a ligam à profissão de professora e à dinâmica que imprime na direção: “Eu digo sempre aos professores, alunos e pais que é uma honra, um privilégio ser professora, uma grande responsabilidade que é preciso honrar. Somos seres privilegiados porque os pais nos confiam os seus filhos. Acredito que, para fazer a diferença, tinha de ir além de professora, tinha de experimentar a direção da instituição para poder mudar a escola. Por isso, sinto que sou a voz da emigrante e da mulher”.

Desde cedo quis ser professora, porque considera que é a educação que leva à liberdade e consegue livrar os alunos da pobreza. “Se tens educação tens mais hipótese de fazer escolhas”, alerta com muita vivacidade e experiência própria.

Os tempos negros do covid foram terríveis. Como diretora, teve de gerir com firmeza e coragem a erupção de uma doença desconhecida e apoiar os professores e alunos, num ensino on line emergente e tantas vezes tateando no escuro. Muitos sucumbiram. Ficou a lição da resiliência, com Connie Alves a sacudir os ombros, desenhar um sorriso rasgado nos lábios e mostrar que, os anos passam e os desafios, e que está sempre pronta para o desafio seguinte, com um brilho intenso no olhar quando fala de amor ao ensino.


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