Reler São Paulo

« Rien, jamais, ne peut avoir d’importance historique comparable au développement d’une nouvelle religion, ou à l’effondrement d’une religion existante » (1)

Michel Houellebecq in La Possibilité d’une île

 

Do livro novo

No seu mais recente livro, Metamorfose necessária, reler São Paulo, Tolentino Mendonça convida os não-crentes, a assumir a obra como “um estímulo para o seu caminho de questionamento e procura”. Propõe, ainda, aos crentes, o aprofundamento da “sua própria experiência”.

A obra surge na sequência de uma multiplicidade de estudos específicos que têm sido publicados, nos últimos anos, relativamente à vida de São Paulo, à relevância sociopolítica do seu pensamento, à sua teologia e aos seus desafios para a Humanidade.

 

Da biografia de Paulo à defesa do Amor como projecto

A obra inicia-se com uma cuidada revisão da Literatura que o autor comenta e analisa, assinalando algumas interpretações mais polémicas. É notório que T. Mendonça visa fundamentar a sua exegese nas fontes mais credíveis (p.34) e daí partir para um estudo aprofundado do que designa como a “gramática de Paulo” (p. 29). Reserva, ainda, um extenso conjunto de informações respeitante à identidade de Paulo (p.34) delineando, sempre com referências precisas, o intuito de que a biografia do apóstolo possa sustentar a sua tese.

Tolentino “resgata” Paulo, não só no quadro do mais recente interesse historiográfico, teológico e político, no autor das “Cartas”, mas também como parte constitutiva de uma teologia do Amor, linha que perpassa todas as suas obras e que enuncia, de forma positivamente despudorada, a urgência de um reencontro da Humanidade com princípios que a orientaram em muitos anos de progresso e de paz. T. Mendonça deixa-se cativar pela referida “gramática de Paulo” que encontra o seu fio de prumo numa “hipérbole do Amor”. Radicando nesta, a proposta soteriológica de Paulo, destaca também a radicalidade das propostas do apóstolo, numa desejada “globalização” da rede (p. 55) que construiu fundando o seu trabalho na equipa (p.57): “a composição social do movimento cristão – movimento societário transversal representativo da diversidade social e urbana daquele tempo” cuja arma metodológica consistiu na “teologia da pregação” (P. 69).

A geopolítica e as religiões

 “Seule la religion est capable de fédérer une civilisation, en proposant une transcendance ultime”

– Michel Onfray (2)

A propósito do lançamento do livro (que ocorreu na passada sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian), em entrevista à Rádio Renascença, o autor alude à “centralidade da pessoa humana” e à “noção de universalidade”, em Paulo, como fundamentos da civilização ocidental. Nessa mesma entrevista, T. Mendonça afirma que o facto de “ouvirmos os seus textos dominicalmente, não significa que conheçamos o seu pensamento e as propostas de transformação que ele deixou”. Na linha da ideia de Onfray (expressa nesta segunda epígrafe), T. Mendonça afirma que “nós precisamos hoje de fundamentar as razões da nossa fé”, no sentido de refundar “a experiência de Jesus como uma experiência central a propor ao mundo”. Esta urgência de uma re-federação civilizacional, a partir de um elemento comum, a religião, parece surgir como contraponto à perseguição aos cristãos, a que se assiste, com silêncio mediático, em muitas partes do mundo, em especial em África e na Ásia. Sem o referir, T. Mendonça não esconde, nesta redescoberta de Paulo, da sua mensagem essencial e do núcleo da sua ação comunitária, a premência da resposta dos cristãos, em especial dos católicos, a uma vaga anti-clerical, com ondas de choque emanadas da própria Igreja e que têm contribuído para lesar o que deveria ser o objectivo principal da sua missão.

“É conhecido o gosto estratégico de Paulo em explorar a possibilidade das fronteiras” (p. 76). Mais à frente, T. Mendonça recorre a Spicq para questionar: “que razões teológicas, culturais e geográficas permitem dizer que, e cita Spicq, um apóstolo consciente do dever de pregar o Evangelho a toda a criatura não podia ter a Península Ibérica diante dos olhos” (p.77).

Os poderes religiosos e políticos têm relações de antiguidade que assumiram, no que respeita ao cristianismo, formas diversas e que se traduziram em coligações ou situações de confrontação. A laicização dos regimes políticos ocidentais é um facto. Poder temporal e poder espiritual assumem a ideia de secularização como uma inevitabilidade  emancipadora para os primeiros e perturbadora para os segundos. As dimensões políticas e geopolíticas desta evolução enunciam-se no processo de globalização com nítida perda de poder para o cristianismo, sobretudo na sua variante católica.

Em 2007, o filósofo Jean-Claude Monod definia, na sua obra Sécularisation et laïcité, a secularização como “um processo de des-teologização das formas de legitimação política, de desintegração das normas do saber, do poder e dos costumes face à religião ou religiões dominante.s”.

Tolentino Mendonça escreve num tempo em que este fenómeno ocorre a par da existência de Estados teocráticos, como por exemplo o Irão ou a Arábia Saudita onde o poder político é entendido como uma emanação divina exercida nesse quadro no qual as duas formas de lei, civil e religiosa, se confundem (no caso do Islão, a charia). Por isso, ao referir que “as grandes horas do Cristianismo são também horas paulinas” (p.91) afirma que “Paulo é o autor de uma visão cultural e política ampla e o seu discurso obriga a pensar a pessoa humana e a organização das sociedades no seu conjunto (…). Ele reflecte sobre as questões do destino humano e da metamorfose do mundo” (p. 91). Assim, e no capítulo seguinte, a questão será a da viagem, paradigma de uma globalização que Paulo enuncia sem o saber e que Tolentino Mendonça, sabendo, reescreve como exemplo de uma nova cartografia para a Igreja. A itinerância, missão procurada pelos Papas, em especial os últimos, é motivo de reflexão para o autor (p.93) no quadro da recuperação, para a actualidade, da modernidade de Paulo: “viveu e operou em mundos diferentes, falando línguas e culturas diversas, em espaços humanos e políticos heterogéneos, para não dizer contrastados” (p. 93). Que melhor definição de globalização?

A História da Humanidade esteve (quase) sempre marcada por tensões, frequentemente bélicas, que opuseram ou conciliaram religião e Estado, como acima referido. Ao colocar a vida e os escritos de Paulo, na centralidade da sua reflexão, qual palimpsesto sobre o qual reescreve uma nova Igreja, T. Mendonça desenha os traços dessa refundação e regista as linhas mestras do que poderá vir a ser o seu Papado: “a esperança de Paulo tem um idioma que serviu amplamente ao apóstolo para escrever a sua teologia. Esse idioma compõe-se de palavras específicas e de grande ressonância, como o substantivo elpis (esperança) (…), como o verbo que lhe corresponde elpidzô (esperar)” (p. 130), assim como outros termos que compõem o campo semântico da esperança e que o autor cita. Ao questionar “para onde aponta o idioma paulino da esperança? (p. 131) T. Mendonça responde palimpsisticamente: “por um lado, ele descreve uma espera em Deus, colocando-nos na expectativa de um horizonte de sentido meta-histórico (…), por outro, refere um perseverar e um suportar, na linha da virtude da constância” (pp. 131, 132).

As religiões reassumem, no quadro desta transição para uma nova ordem internacional, uma presença cada vez mais notória e activa. A sua importância no mundo global obriga a uma redefinição de tempos e de espaços (de intervenção e de conquista) de uma forma que não se iguala às “cruzadas” e tende, crescentemente, a recusar os processos da djihad. Os propósitos de cooperação com a instituição de culturas de paz (missão última das religiões), no quadro da resolução de conflitos e/ou dos diálogos inter-religiosos, reconstrói o seu papel nas sociedades actuais, onde a procura de uma validação religiosa para as questões societais se acentua e desafia. Por outro lado, reforçam-se as diligências para que, no quadro desses diálogos, possam ser minoradas as situações de pobreza, de injustiças sociais e de conflitualidade muito violenta, nomeadamente em África, onde a religiosidade e o cristianismo colocam desafios identitários.

Entre 1550 e 1551, aquando do célebre debate de Valladolid, Frei Bartolomé de las Casas e Sepúlveda, inscreveram, na História, uma nova visão cartográfica do Mundo (M. Morgado) no que constituiu um acontecimento estruturador para a História da Humanidade (M. Morgado). A maior potência geopolítica do mundo de então, cristã, católica, suspende, segundo ordem do Imperador Carlos V, todas as actividades de expansão do Império, até a polémica estar sanada. De las Casas, que venceu o debate, insurgiu-se contra o modo imperialista e cruel com que Espanha desenhava as suas conquistas na América. Deste evento, nascem as “Leyes nuevas”, promulgadas por Carlos V, condenando toda a espécie de escravatura perpetrada contra os índios, pelos colonos. De las Casas torna-se, desse modo, o responsável pela grande mudança geopolítica europeia (M. Morgado). Então, como agora, a religião constitui um factor geopolítico de primeira ordem que T. Mendonça inscreve na sua re-leitura de Paulo e que é importante re-conhecer. A nova ética religiosa que o autor propõe é, em si mesma, o que poderia considerar-se como “Carta de Tolentino aos cristãos e não-cristãos” no quadro da esfera de intersecção entre a religião e as relações internacionais tal como enunciado, em 2000, por Stephan Chan (3): “A precipitação em direção ao secularismo, nas relações internacionais, esqueceu a necessidade de contar histórias que tenham uma natureza sagrada, que tendam para uma dimensão sagrada e que constituam pensamentos reflexivos sobre as longas e variadas narrativas acerca do estabelecimento do que é bom e, sim, da.s verdade.s”.

A gramática de Mendonça (apropriando-me agora da designação que o autor encontrou para referir-se aos escritos de Paulo) propõe, deste modo, uma releitura teológica e teleológica dos textos do apóstolo e propõe, cartograficamente, percursos futuros: “Somos todos experiência do inacabado, indagação no incompleto, dureza e opacidade da pedra” (p. 133). “Não somos simplesmente testemunhas de um passado. Cada pessoa é chamada a ser, e já é, um documento do futuro”.

Fechando o ciclo e retornando ao início da proposta geopolítica de T. Mendonça, no âmbito do debate actual acerca do papel (interventivo) da religião, na.s sociedade.s: “O messiânico não é o fim do tempo, mas o tempo do fim e inscreve tanto na religião, como no direito, uma exigência de cumprimento. Mas esse cumprimento só se verifica na paradoxal gramática do amor que Paulo teoriza” (p. 29).

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(1) “Nada, jamais, pode assumir uma importância histórica comparável ao desenvolvimento de uma nova religião ou ao colapso de uma já existente”.

(2) “Só a religião é capaz de federar uma civilização ao propor uma transcendência final”.

(3) “Writing sacral IR : an excavation involving Küng, Eliade, and illiterate Buddhism”, Millenium, 29, 3, 2000, pp. 565-89.


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