«O Fotógrafo de Minamata»

O branco é a cor da luz. Dizer-se assim, subitamente, como uma asserção peremptória, requer uma pausa para esclarecimento da situação. Sabemos, desde a experiência básica da refracção no prisma e a rotação do disco de Newton, que as cores provêm da luz do sol, luz que se dispersa por sete cores essenciais que o disco, ao rodar, devolve à qualidade primeira do branco. São saberes que emanam de longe, das primeiras fases da nossa escolaridade. Refiro-as hoje aqui, precisamente porque me encontro perante a luz total desta página branca e não sei como posso imprimir-lhe a sensação de um arco íris de palavras que possam animar o mundo.

O meu propósito de fundo, quando escrevo, é propor uma qualquer reflexão que me recupere do meu próprio estado de apatia, que me salve do vazio, que me conduza a um processo de causa-efeito para que eu não perca a conexão com o que me rodeia e estabelece a condição de existir lucida e vigilante.

O meu tempo de vida é longo e o meu passo é lento, mas o mundo gira cada vez mais vertiginosamente. Os acontecimentos sobrepõem-se de forma caótica e desconcertante. A guerra à porta, depois da experiência da paz, leva à  mais inesperada e «vil tristeza» que acomete tragicamente a já frágil condição humana. Antes disso, o ataque sub-reptício e inesperado dum terrível SarsCovid, dizimou em dois anos uma grande parte da população mundial. O planeta revolta-se contra a incúria dos desavisados, que vêm atentando contra o seu equilíbrio natural, ao longo dos últimos séculos. São evidentes e assustadoras as ameaças com que o planeta responde à fúria megalómana dos ambiciosos e, por mais que de tudo isto se tenha conhecimento, o processo de reconversão é ineficaz porque o estrago é gigantesco e irreversível. Confiar no poder de regeneração da Natureza tem sido uma grata ilusão dos sôfregos e imparáveis. Tais efeitos são bem visíveis, dia após dia.

E a guerra ? Continua a perguntar-se. Quais são os seus benefícios ? A quem serve e para que serve ? A energia nuclear é a mais recente conquista da ciência química. Em fase experimental, propõe-se servir pacificamente as necessidades energéticas criando viabilidades económicas, mas transforma-se numa trágica ameaça bélica, quando os poderes desenfreados dos governantes poderosos desencadeiam a guerra contra as soberanias legalmente constituídas. E os dejectos químicos causados pelo desenvolvimento industrial ? Quem poderá ignorá-los ? O dilema está instalado quando se fala em evolução e riqueza.

O desastre de Minamata em 1966, deu lugar a um filme perturbante realizado há dois anos, e que agora chega às boas salas de cinema, agitando a nossa já tão abalada consciência, sobre os excessos dos megalómanos, a incúria dos corruptos, a desmedida dos ambiciosos. O fotógrafo de Minamata (2020) regista uma história negra, verídica, avassaladoramente trágica, semelhante a tantas outras já registadas em várias épocas, em vários países do mundo. Anos e anos de veneno à solta destruindo vidas e arrasando o planeta.

Por enquanto ainda contamos com a luz do sol, com o branco luminoso dessa luz total. Com o fenómeno auspicioso do seu arco íris. Mas não deixamos de imaginar as negras noites dos países arrasados pela guerra, a escuridão das vidas tristes e desfeitas das populações indefesas onde a morte ronda a cada instante, pela impiedade dos argumentos diabólicos de quem persiste, desesperadamente, defendendo causas desumanas e absurdas.

O mundo está conturbado, invadido por acontecimentos funestos. Há uma energia negativa envolvendo o verde da esperança; uma onda fria cercando o calor e a alegria do amarelo. Se esta verificação nada diz aos incrédulos das simbologias, o que está por detrás delas, é uma verdade incontestável que se refere à perda gradual da energia do sol – a luz branca que determina a nossa sobrevivência. O Universo é incalculável e o planeta não se conforma com a inadvertência e o poder descontrolado dos homens.