Entrevista FN (3) com Rui Gonçalves: há que encontrar “equilíbrio” entre investimento e paisagem

FN – O que poderia ser feito, em seu entender, para impulsionar mais a diversificação da aposta em sectores económicos multifacetados, no nosso tecido empresarial? Para não sermos tão dependentes do turismo? Como conciliar áreas como a aquacultura e a protecção do ambiente e da paisagem?

Rui Gonçalves: Acho que já estamos a criar as bases para essa diversificação, por exemplo ao nível das novas tecnologias, onde podemos competir de igual para igual com muitas regiões continentais, sem os constrangimentos decorrentes da ultraperiferia e da insularidade. Temos um regime de baixa tributação, uma Universidade que garante profissionais qualificados e infra-estruturas de suporte que asseguram competitividade à Madeira. Portanto, estamos no bom caminho.

Mas acho que seria um erro termos a pretensão de mudar completamente a estrutura económica da Região, já que de facto temos no turismo uma grande mais-valia, que não deve ser negligenciada, devendo antes continuar a ser preservada e dinamizada.

Por outro lado, é importante continuar a apoiar os setores primários, dos quais ainda dependem muitas famílias, e que têm igualmente um impacto muito importante na nossa paisagem, sobretudo a agricultura, enriquecendo o destino turístico.

Como em tudo, o importante é encontrar um ponto de equilíbrio, seja entre as várias atividades económicas, seja entre estas e a preservação da paisagem, o que nem sempre é fácil, sobretudo na Madeira, dada a nossa orografia e a grande pressão populacional existente.

FN- Sente que as instâncias do Estado português e da UE estão receptivas e sensíveis às necessidades, carências e problemas da Madeira e Porto Santo?

RG: Em geral, e muito por mérito da Região, que não tem deixado passar nenhuma oportunidade para alertar para a sua condição de região ultraperiférica, essa sensibilidade tem vindo a aumentar, o que é muito positivo. Contudo, daí até serem tomadas as medidas concretas que a Região necessita vai um longo caminho, que exige muito trabalho e perseverança. A estratégia passa por apresentar argumentos técnicos bastante sólidos e convincentes para que a ação política possa ser eficaz e conduza aos resultados pretendidos, que tenham em linha de conta as nossas especificidades.

Em termos gerais, nota-se que existe atualmente uma maior consciencialização para que as caraterísticas particulares das RUP sejam tidas em consideração nas várias medidas que vão sendo adotadas a nível europeu, sobretudo graças à ação das próprias RUP e à sensibilização que vão conseguindo junto dos respetivos Estados-Membros. Isso foi evidente na negociação do atual Quadro Financeiro Plurianual, por exemplo.

FN – Em seu entender, qual o principal desafio de equilíbrio e estratégia económico-financeira que neste momento se coloca às instâncias regionais madeirenses?

RG: É claramente conseguir manter os apoios que as empresas e as famílias necessitam para suportar os efeitos da inflação e da crise energética, que surge na sequência de uma crise pandémica que foi muito dura, e que fragilizou as finanças públicas, sem com isso colocar em causa a sustentabilidade financeira da Região, para que esses apoios possam ser pagos sem atrasos e os serviços públicos possam ser prestados com os níveis de qualidade necessários.