A questão que preocupa verdadeiramente o Bispo: “Que lugar é que Jesus Cristo tem na vida concreta de cada madeirense?”

D. Nuno Brás enaltece a atitude de grande colaboração com as autoridades regionais. Fotos Lúcia Pestana.

 

O Bispo da Diocese do Funchal iniciou o seu ministério com um rasgo inovador de resolver a suspensão do padre Martins Júnior mas depois mais nada de impacto se viu. Será mais um prelado de gabinete, contemplativo, teológico e menos popular ou alguém que caminha e está com o povo, na rua…?  Afinal,  quem é o D. Nuno Brás depois destes três anos à frente da Diocese do Funchal?

Dom Nuno Brás  – Não sei… É raro o dia que não saio pelas ruas do Funchal. As pessoas veem, conversam comigo… é raro o dia em que eu fique aqui fechado e não tenha uma celebração aqui e acolá. Bispo de gabinete não sou de certeza. Não me parece. Quem é o Nuno Brás? É o Nuno Brás como foi sempre. Procura ser Bispo o melhor possível. Não faz milagres. Não tem a menor pretensão de acertar sempre. Tem a pretensão de ser esta presença de ser um bom pastor no meio da Diocese.

FN – O que mais o preocupa na sociedade madeirense, é o indiferentismo religioso, é a miséria, é a droga…

NB – Aquilo que mais me preocupa, claramente, é a necessidade de passarmos de um cristianismo que é cultural – e ainda bem que o é, necessariamente; o cristianismo é sempre cultural; se o Verbo se faz carne, isso significa que assumiu uma cultura e mudou-a. Agora, que se fique simplesmente na cultura, nestas expressões culturais, é o que me preocupa. Por exemplo, temos o Natal, sim, desde 15 dezembro a 15 janeiro é um mês de festa religiosa. Depois vem o carnaval, motivado por causa da quaresma, o próprio carnaval é uma festa religiosa mesmo que seja ao contrário, Depois vêm as festas do Espírito Santo, depois as festas do Santíssimo e já estamos de seguida no Natal. Isto pode criar-nos a ilusão de que vivemos numa ilha toda cristã. Não é verdade. A atitude sincera das pessoas, ou seja, que lugar é que Jesus Cristo tem na vida concreta de cada madeirenses, isto é o que me preocupa verdadeiramente. Porque da resposta a esta questão surge todo o resto. Se verdadeiramente Jesus Cristo é importante na minha vida, então eu não posso deixar de me inquietar com o pobre, não posso deixar de olhar para o irmão que está a sofrer, não posso deixar de ler a minha vida com os olhos de Deus. Isto é aquilo que me importa. Portanto, se eu terminasse o meu serviço como Bispo do Funchal e alguém pudesse dizer, olha, graças a este bispo eu sou um bocadinho mais cristão, já me bastava. Depois, Nosso Senhor é que faz as contas. Nós podemos estar a fazer o deve e o haver muito humano. Não digo que sejam insensatas. Se agora, de repente, se a ilha toda se convertesse, primeiro não seria por minha ação mas do Espírito Santo, mesmo nisso deveria ficar muito humilde e perceber que é ação do Espírito Santo. A conversão individual é muito lenta. O Bispo procura ser esta presença de Nosso Senhor em todas as situações”.

FN – Foi feita a auscultação sinodal, a elaboração e divulgação de relatório com críticas importantes. E agora, em termos concretos, qual a eficácia desta auscultação? O que se segue?

Dom Nuno Brás – Temos dois caminhos a seguir: um primeiro, a entrega do relatório – já foi feito – à Conferência Episcopal Portuguesa. Nós fomos uma das cinco Dioceses escolhidas pela CEP para que o relatório fosse apresentado diante dos bispos e responsáveis. Fizemos isso. O Sr Cónego Vítor Gomes apresentou em Fátima o relatório. Agora a CEF elaborará um relatório que é fruto de uma síntese de todas as dioceses de Portugal. Depois, o Conselho das Conferências Episcopais da Europa irá elaborar uma síntese de todas as Conferências Episcopais da Europa e será entregue ao Sínodo dos Bispos, portanto chegará ao Santo Padre que fará a sua reflexão. Esta é a linha ascendente ou macro. A segunda linha será este relatório ser apresentado ao conselho pastoral diocesano e depois ao conselho presbiteral para vermos o que na nossa Diocese temos que segui, ou seja, ver as atitudes, escolhas, caminhos a fazer para que este relatório possa ter também consequências na nossa Diocese.

FN – Portanto, não será papel e mais papel sem eficácia?

DNB – Eu espero que não. De uma forma muito concreta, estamos a fazer este caminho com os sacramentos da iniciação cristã, portanto, batismo, eucaristia, a igreja e para o ano o sacramento do crisma. Mas, e depois? Bom, depois, eu espero que destas reuniões diocesanas que digam “sr Bispo depois devíamos insistir mais por aqui ou por aquele lado…” Isto é algo que o Bispo não faz sozinho e quero conscientemente escutar os conselhos.

FN – Que balanço faz à sua relação com o poder na Madeira?

DNB – É uma relação amiga, de respeito, claro com mais proximidade de uns do que de outros, mas de muito respeito. Nunca tive a mais pequena necessidade de apontar ou fazer notar… assim como eu também a todos respeito. É uma relação, acima de tudo, de muita colaboração, devo salientar. As diferentes entidades oficiais, desde o Sr Representante da República até aos presidentes de juntas de freguesia, todas as entidades, temos procurado colaborar no sentido da resolução de problemas, de ajuda às necessidades. Tenho sentido muito boa colaboração e nunca senti nenhuma pressão para tomar alguma decisão. Só posso agradecer a simpatia e a colaboração.