A (In)utilidade da Arte Pública

Tal como a arte em geral, o conceito de arte pública, está constantemente a ser reinventado e questionado, englobando propostas muito diversificadas e abrangentes. Para muitos, – onde me incluo – a arte pública abarca todo o tipo de arte que permite o acesso livre do público.

Em linhas gerais, arte pública é aquela que acontece fora dos ambientes convencionais, em que as obras estão, normalmente, presentes, como nos teatros, galerias e museus. Este género artístico tira, de alguma forma, o caráter elitista de arte, e, assim, democratiza-a para um público muito mais amplo.

O conceito de arte pública, passou a incluir todo o tipo de expressões criativas no espaço coletivo, que se apresenta no contexto público de rua, onde se inclui, o grafite, estátuas vivas, artes circenses, teatro de rua, pitura de murais, esculturas, desenho de luz, performance, desenho de pavimentos, entre outros.

Este género de arte que promove diversas interpretações, tem como cenário a rua, a cidade, dando origem a interessantes debates sobre o seu impacto positivo, mas também sobre a degradação dos espaços urbanos, que precisam e merecem ser reformulados, para valorizar tanto o trabalho artístico, bem como, respeitar os transeuntes e toda a envolvência que ali já coabita.

Na Madeira temos vários exemplos, de arte pública, – realizações duradouras e outras ações mais efémeras – alguns, bem conseguidos, como o projeto de decorações das Ruas de Câmara de Lobos, que por ocasião das Festas de São Pedro, são ornamentadas artisticamente, ficando patente nos meses de verão, e que tem sido aclamado pela crítica e pelo público. Dando mesmo um ar poético às artérias da baixa câmara-lobense.  As portas pintadas na Zona Velha do Funchal, a fachada de alguns quartéis de bombeiros, alguns muros na baixa da Ponta do Sol, a Avenida Arriaga, no contexto da Semana das Artes, entre outros apontamentos, espalhos pela ilha, são simpáticos projetos de arte pública. Embora, alguns projetos permanentes requeiram uma manutenção mais cuidada. Quando se projeta trabalhos de arte pública, os mesmos devem ser construídos com materiais duráveis ​​e de fácil manutenção, para não depararmos com casos votados ao esquecimento.

Algumas iniciativas de arte pública abrangem o mobiliário urbano, no entanto, julgo que nestas situações, a atenção deve ser ainda maior, para não tornar o objeto pior do que estava. Pois, cultura artística não é tudo.  E a pichação do mobiliário urbano, não é um ato cultural. Também, não é colocando qualquer coisa “objeto” no espaço público, que se poderá achar que já é arte pública. Com a verdadeira arte pública, pretende-se promover o espaço público como local de encontro de ideias; de surgimento de novos significados sociais e culturais; de criação de oportunidades para uma aproximação do público em geral à arte; de estímulo ao turismo; de contributo para a economia local; de criação de oportunidades de trabalho para artistas; e de promoção da inclusão social.

Os monumentos e estátuas cívicas, talvez sejam a forma mais antiga de arte pública, que incitam narrativas ao local, tornam o espaço público mais reflexivo e valorizam a sua história e identidade.

A inutilidade da arte pública, acontece quando há desleixo, falta de manutenção e descontextualização dos lugares. Devemos ter um compromisso com a coisa pública e não depositar qualquer coisa, em qualquer lugar, em nome da arte. Pois as intervenções de arte urbana devem reger-se com raciocínio e sentido de respeito pelo lugar público.