Terapeuta da fala deixa alerta para a exposição excessiva das crianças aos écrans

A exposição excessiva das crianças e jovens aos ecrãs acarreta sérios riscos e aumenta a probabilidade de danos no desenvolvimento da comunicação, linguístico, cognitivo, socioemocional e físico, sendo atualmente considerado um problema de saúde pública emergente. Este foi um alerta deixado pela terapeuta da fala Ana Marques, na manhã de hoje, na Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos dos Louros, durante uma conferência subordinada à temática “Crescer com ecrãs. O impacto na linguagem”, dirigida aos técnicos e docentes especializados na área da educação e da inclusão.

De acordo com a especialista, que presta intervenção na área da terapia da fala no serviço regional de saúde e na clínica privada, os efeitos da exposição prolongada aos telemóveis, tablets e computadores a partir de idades muito precoces começam a preocupar as autoridades de saúde da Região, ao ponto de o serviço de pedopsiquiatria do SESARAM estar já a receber casos de comportamentos aditivos no espectro das novas tecnologias.

Segundo Ana Marques, estima-se que em Portugal cerca de 73 por cento dos jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 25 anos apresentem sintomas sugestivos de dependência à internet e que 25 por cento deste universo seja já clinicamente diagnosticado como dependente, refere o comunicado enviado à nossa Redacção.

Os problemas revelam-se bem cedo. “Uma em cada três crianças ingressa na escola com atraso de desenvolvimento”, explica a terapeuta. A isto não será alheio o facto de os ecrãs estarem a substituir as interações pessoais, o contacto cara-a-cara e as brincadeiras numa fase tão importante como será a primeira infância, altura em que se opera a maturação cerebral.

Uma utilização dos ecrãs exacerbada e não mediada pelos adultos acarreta impactos relevantes na saúde das crianças e jovens. A terapeuta da fala destacou o atraso no desenvolvimento da linguagem, o aumento da agressividade, os prejuízos na atenção e no despenho escolar, o comprometimento das competências da escrita e da leitura, bem como as limitações nas interações interpessoais e as perturbações tanto no sono como alimentares. O sedentarismo associado é também outra das preocupações. Situações que podem ser prevenidas através da sensibilização aos pais nos centros de saúde, como primeira linha, e nas escolas.

Ana Marques vê a intervenção precoce junto das famílias a chave para gerir de forma equilibrada o “tsunami” gerado pela globalização e democratização da internet e das novas tecnologias. Há que alertar desde cedo.

“A ilusão de que um telemóvel ou tablet nas mãos de uma criança funciona como “calmante” é falsa e acarreta riscos.”, avisa a terapeuta que desaconselha peremptoriamente a utilização destes equipamentos por crianças abaixo dos dois anos de idade, devendo, a partir daí, a exposição ser gradual e monitorizada ao longo da infância e da adolescência, idealmente sob mediação dos pais e educadores.

Ana Branco Marques é doutoranda em Ciências da Cognição e da Linguagem, e mestre em Terapia da Fala – patologias da linguagem.

A conferência foi organizada pelo Grupo 220 (Inglês de 2.º ciclo) e pelo Clube de Jornalismo da escola dos Louros, no âmbito do projecto “Um dia sem ecrãs – Unplugged”, iniciativa que visa sensibilizar a comunidade educativa para o uso correto e racional dos equipamentos eletrónicos e das tecnologias de informação, promovendo a reflexão sobre o impacto do mundo digital na vida das novas gerações.

O programa tem como convidados o jornalista António Macedo Ferreira, a terapeuta da fala Ana Marques, a socióloga Sara Melim, o compositor Pedro Macedo Camacho e conta com a participação de uma equipa do programa Educamedia, da SRE.