Cayetana Álvarez de Toledo e o livro “Políticamente indeseable”

“Solo quando nos veamos retratados en el implacable espejo de los hechos, sólo entonces seremos capaces de rescatar la democracia de las sucias mandíbulas del populismo” Cayetana Álvarez de Toledo
In Políticamente indeseable (2021)

Leituras do contraditório – tomo I

Breve nota biográfica de Cayetana Álvarez de Toledo

Muito mais do que possa aqui escrever, a sugestão de leitura do livro (Políticamente indeseable) também responde a esta nota pois é da história do percurso da sua autora que o mesmo trata. No entanto, e para quem não tem seguido, de forma mais próxima, a política no país vizinho, deixo aqui algumas indicações que poderão ser completadas através da consulta do site da autora (1).
Cayetana é membro do Congresso dos Deputados de Espanha, desde 2019, pelo Partido Popular, eleita por Barcelona. Tem 47 anos, é historiadora e jornalista, Doutorada pela Universidade de Oxford, em História espanhola do séc. XVII.
Tem três nacionalidades (argentina, francesa e espanhola) e exerce essa pluralidade como sinal primordial do seu clamor pela Liberdade. Tem um percurso cívico e político notável. Porta-voz do Partido Popular, foi destituída do cargo, situação que tem fecundado uma polémica à qual não se furta.
A sua intervenção política radica particularmente na questão catalã. A notoriedade da sua opinião sobre este assunto remonta a 2014 quando o jornal Financial Times publica um artigo da sua autoria contra o independentismo catalão. Ainda em 2014, e na sequência da sua intervenção cívica e política sobre este assunto, surge como uma das primeiras subscritoras do manifesto constitucionalista “Livres e iguais” que deu origem a uma Associação cívica que dirige.
“O perigo da desistência dos defensores da Democracia” – C. A. Toledo (2016)
Sobre o livro do qual retiro a epígrafe deste artigo, Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura, publicou uma recensão muito favorável no El País (2). No entanto, não tem sido isenta de polémica esta edição. Louvada a sua coragem, por um lado, enxovalhados os termos e os métodos que utiliza, por outro, a destituição de Cayetana Toledo do cargo de porta-voz do PP e a resposta que este livro também pretende dar, têm contribuído para expor o modo como os partidos funcionam e como o exercício da liberdade de pensamento pode, nos mesmos, ser cerceado, em detrimento de uma alegada “lógica de partido” (que a autora rejeita) e que consistiria, não na expressão da lealdade aos valores que o partido defende, mas numa espécie de mutilação da expressão em favor de jogos de poder, sobretudo de natureza “caciquista”: “Las organisaciones políticas son así: retractíles ante el intruso” (in Políticamente indeseable, 2021, p.45).
Se é verdade que, nas Democracias (ocidentais), a constituição de partidos representa um território importante no que respeita ao exercício livre da escolha entre as diferentes propostas, em sede de eleições, não deixa de ser desconcertante que estas organizações consubstanciem, crescentemente, circuitos fechados de sistemas de obediência, de replicação das vozes de “alguns donos” onde o exercício do contraditório é vedado e a política não se discute. É conhecido o controle que os partidos exercem sobre os seus “peões”, principalmente no contexto das redes sociais, onde domina a conformidade “carneirista” dos “likes” e o exercício de “trollismo” (ofensas para desencorajar o diálogo ou a expressão de opinião contrária). Em Espanha, como em Portugal, nenhum partido parece isentar-se desta manifestação de coerção e de censura da opinião. Nos dois países, até os novos partidos, sede de descontentamentos e/ou de mudanças de opinião, alguns instituindo a Liberdade como bandeira, se remetem às práticas já ancoradas por gerações “de comando” ou, simplesmente, perpetuando os “maus hábitos” adquiridos nos partidos onde, anteriormente, militaram. O debate acerca do papel dos partidos políticos, no quadro das democracias é, por estas razões, urgente. No designado “ciclo vicioso” do controle e da censura que atinge todo o espectro partidário, da extrema direita à extrema esquerda, enraízam-se as origens desta assustadora fragilização dos regimes democráticos. As práticas feudais, nos partidos políticos, aceites – acritica e servilmente – têm início precoce nas juventudes partidárias que mais não representam, hoje em dia, do que pequenos “laboratórios” de criação de aduladores serviçais. O que torna, então, a Democracia democrática? É uma questão recorrente entre quem se dedica à Teoria política. Dimensões como a Ética, a transparência e a responsabilização (accountability) deveriam ser pilares assegurados pelos partidos políticos que, reitero, são instituições fundamentais da democracia (como entendido no mundo ocidental). Congregam visões sobre a sociedade e o modo como entendem que esta deve organizar-se, assim como definem programas aos quais subjazem valores. Deste modo, apresentam-se ao eleitorado com propostas que são (ou não) por este sufragadas, garantindo um dos direitos fundamentais do eleitor: escolher livremente. No poder, exercem e fazem por cumprir os seus programas e, na oposição, deveriam ser os principais agentes de responsabilização de quem governa, pois o fazem em representação dos cidadãos eleitores. No entanto, as elevadas taxas de abstenção, a inacção/indiferença das diversas camadas do poder acerca do assunto, são dados relevantes para a análise à crescente falência dos regimes democráticos. O distanciamento entre poder político e eleitores é, portanto, revelador da fragilidade actual dos partidos políticos enquanto agentes preferenciais das dinâmicas da Democracia.
Regresso ao livro de onde nunca saí… Cayetana é declaradamente liberal. Uma adesão cultural e culta, informada e exercida que evita desgastar-se com a censura e com o espectro do delito de opinião. Ao longo de muitos capítulos ilustra o perigo de que os regimes democráticos possam estar capturados por organizações não-democráticas. Assim sendo, a desistência dos defensores da Democracia seria, é-o com certeza, um revés a acrescentar à gradual perda de transparência, de prestação de contas, enfim, de seriedade e de ética democrática.
“Rechazemos la mordaza de la moderación” (in Políticamente indeseable, 2021, p.492).
O livro de Cayetana conta histórias que, facilmente, se transformam em registos etnográficos da História recente dos regimes democráticos, em geral e do espanhol, em particular. Aprecio, com especial enlevo, a sua recusa de mordaças, quaisquer que sejam, assim como do cinismo obediente da moderação. Polemiza, discute e fundamenta, três pilares da Liberdade que os partidos recusam, respaldados por uma comunicação social que, financiada não raras vezes pelos mesmos “patrões”, cada vez mais deixa de ser aquilo para que foi criada. Em Espanha, como em Portugal, destrói-se o brio, a ética e a inteligência através de insultadores, alguns pagos para agirem nas redes sociais e/ou comentarem nas televisões:
“Sé hasta que punto la mediocridad y el sectarismo han erosionado las instituciones. He visto a los medios de comunicación deslizarse por la pendiente de las junk news y a la sociedad entregarse al victimismo y la irracionalidad” (in Políticamente indeseable, 2021, p.14).
O discurso da moderação não representa, como seria natural, qualquer tentativa de enfeite diplomático das palavras. O discurso da moderação não é um eufemismo, é o do cinismo conivente e o da desistência activa do exercício da democracia. A sua complacência é o lugar do pântano, das águas paradas que servem a ouro o status quo e reduzem a lama o contraditório, o debate e a oposição. A distopia da deriva, ensaiada por Saramago, em Jangada de Pedra, enuncia-se, assim, como paradigma do ciclo, como omen deste processo.
4. Da História como fio-de-prumo: “El fuego ha ido propagándo-se por un Ocidente incapaz de reivindicar su mayor conquista moral: el ciudadano” (in Políticamente indeseable, 2021, p.26)
A História permanece o garante da construção de uma grandeza ética, de uma sabedoria respeitadora de si e dos outros que, renegada e reescrita pelos actuais carrascos dos regimes democráticos, insufla as sociedades com a ideia fútil de que o “espectáculo” substitui o saber e que este não interessa para a formação. A expressão de que “quanto mais ignorantes forem as sociedades, mais submissos e controláveis são os povos”, é cada vez mais actual e eficaz:
“El Holocausto es hijo del nacionalismo y el nacionalismo es la guerra. Y anterior, por supuesto, a la idea de Europa como una suma de Estados democráticos y no de naciones étnicas o culturales: fuente y fundamento de la paz que disfrutamos” (in Políticamente indeseable, 2021, p.26).
A desconsideração pela História, a promoção social de uma “iliteracia diplomada” constitui uma das faces da moeda do servilismo ideológico e da abdicação dos direitos fundamentais de cada indivíduo. Os diferentes separatismos (centrífugos ou centrípetos), a começar pelo ideológico, enfraquecem os sistemas e dão origem a autoritarismos e totalitarismos:
“Son también separatistas (…) aquellos que, mediante la apelación a las essências o simplemente las vísceras, compactan lo proprio por oposición a lo ajeno: “España una, grande y libre”, “La France éternelle”, “America first” (in Políticamente indeseable, 2021, p.27).
O perigo da tribalização e da consequente via directa para a tirania é real. Cayetana descreve o mosaico político que entretece as teias da geopolítica actual de forma contundente. Cito-a, novamente, recordo-a declaradamente liberal, na desconstrução de algumas narrativas destes dias:
“Trump hizo un discurso de inauguración que deja corto el concepto de populismo. (…) Un discurso ofensivo. Divisivo. Furiosamente nacionalista. Para inteligencias limitadas” (in Políticamente indeseable, 2021, p.34).
São essas mesmas inteligências que usam manuais do século XVII, não como referência histórica e de saber, mas para reivindicar políticas para um mundo globalizado, tecnológico e em plena guerra fria espacial. Esta espécie de medievalismo conservador, qual expressão de um fanatismo quase religioso, é – igualmente – uma das dimensões fundadoras da tribalização como afirmação de um certo “autoritarismo identitário”, limitativo (em todas as dimensões):
“Combatamos las políticas identitárias y reivindiquemos la igualdad de todos los ciudadanos (…). El colectivismo – llámese comunismo, nacionalismo, neofeminismo, indegenismo o islamismo – es incompatible com una sociedad democrática, a la que socava y destruye” (in Políticamente indeseable, 2021, p.491).
5. Nota final
O livro de Cayetana Álvarez de Toledo convida a muitas releituras. Ao longo das suas 519 páginas, a autora inscreve o direito ao contraditório como um dos mais relevantes Direitos políticos a que os cidadãos podem aspirar. A par do exercício da crítica, é um dos mais desafiadores também, numa sociedade castradora do indivíduo e cerceadora da palavra desde que não validada pelos muitos “comités de controle”.
No entanto, e por mais que o espírito crítico não se compadeça com as cores cinzentas do outono democrático, independentemente de as flores serem cortadas, haverá sempre Primavera (Neruda):
“Los desafios y las derrotas se encaran com brío, coraje y buen humor” (in Políticamente indeseable, 2021, p.326).

 

http://www.cayetanaalvarezdetoledo.com/
https://elpais.com/opinion/2021-12-05/politicamente-indeseable.html