Que grande lata!

“Sou alvo de uma campanha eleitoral baixa, suja, negra, de difamação (…) usando o meu passado profissional que sempre foi ligado a entidades quer públicas, quer privadas” (fim de citação).

Prezado leitor: consegue identificar o autor das declarações atrás citadas?

Se considera que são da autoria de Pedro Calado, candidato da coligação PSD/CDS à Câmara Municipal do Funchal, acertou em cheio.

E se constata que estão na linha da velha e gasta estratégia de vitimização a que o PPD/PSD desde sempre nos habituou por estas bandas, também tem toda a razão (a propósito vale a pena recordar que o condottieri, que exulta por ter exercido o poder durante mais tempo que o ditador de Santa Comba, fartou-se de desencantar teorias da conspiração, chegando ao ponto de acusar Bush, a Trilateral e a Maçonaria de conspiração. Enfim, delírios!).

Tais declarações foram efectivamente prestadas numa entrevista concedida ao jornalista Artur Cassiano e publicadas na edição do “Diário de Notícias“ de Lisboa do passado dia 19 de Agosto, na qual o ex-vice-presidente do Governo Regional se diz “perseguido pelo PS”, designadamente por, segundo refere, o partido sediado na Rua da Alfândega aludir à circunstância de ter passado da vice-presidência da Câmara Municipal do Funchal para administrador de um grupo económico e deste para a vice-presidência do executivo madeirense.

Tratando-se de factos, de que se pode queixar Pedro Calado? Se ele próprio e o partido a que pertence, não percebeu que “à mulher de César, não basta ser séria”, de quem é a culpa? Ou, o apontar para a promiscuidade entre o interesse público e os interesses privados é uma questão que só interessa quando se quer atingir alvos no rectângulo ou noutras hostes partidárias?

Numa terra pequena, que alguns gostam de querer transformar no centro do mundo, não é fácil esconder o que quer que seja. Quem tem memória sabe bem como se construíram grupos empresariais que hoje são uma espécie de “donos disto tudo” à escala regional. E para completar o ramalhete, a candidatura “Funchal sempre à frente” (coligação PSD/CDS) não se coibiu de indicar como putativa vice da edilidade, nada menos nada mais, uma antiga presidente da ACIF, com ligações empresariais por demais conhecidas. De quem é a culpa?

Enfim, de pouco valem proclamações de “desapego”, “missão” e quejandos, quando a promiscuidade é por demais evidente.

De resto, tudo se torna mais claro, quando ouvimos a criatura que Pedro Calado designou como “pai da nossa democracia” (safa!) justificar a necessidade do voto no ex-vice com a justificação dos milhões da “bazuca” europeia que vão cá chegar. Está tudo explicado!

Por falar no dito cujo, convido, quem quiser dar-se à maçada, a lerem uns escritos saídos no sucedâneo do jornal que durante décadas usou como instrumento de propaganda política e pessoal, insertos nas edições de 16 de Agosto e 6 de Setembro último, nos quais a criatura que o insuspeito jornal espanhol “El Mundo” denominou como “campeão português do Insulto” perora sobre subsidiodependência e numa de engraçadinho procura colar o rótulo de “talibãs” ao PS.

Não é por a redacção constituir novidade – uma vez que se trata de insistir em cassetes por demais riscadas -, mas para o leitor perceber até que ponto pode ir a desonestidade intelectual de não conseguir olhar-se ao espelho. De procurar imputar aos outros práticas que constituíram sempre a sua marca.

Neles, o escriba aponta o dedo ao que designa por “Estado socialista” que se alimentaria dos “votos” de quem vive dos subsídios e das facilidades a que pode aceder através das “Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Casas do Povo”. É preciso ter lata, como se costuma dizer na gíria popular – imputar aos outros, o sistema a que permanentemente recorreu para alimentar, sedimentar e fazer proliferar o “polvo laranja”. Constituído por milhentos tentáculos: clubes, colectividades, associações, poder local, tudo subjugado ao “quero, posso e mando” instalado na Quinta das Angústias. Quem não se lembra dos tempos em que, com eleições à porta, se distribuíam pelos eleitores telhas, blocos, areia, cimento, tintas, etc, etc .?  Quem fez destas práticas um modo de fazer política para ganhar eleições, não tem moral para apontar o dedo ao que quer e a quem quer que seja. Menos ainda de pregar contra o centralismo, logo ele que tudo centralizou, que tudo procurou controlar, que se imiscuía na actividade de tudo e de todos. Que foi porventura o mais centralista dos detentores de poder no pós 25 de Abril de 1974. Enfim, uma sem-vergonhice descarada.

O desplante da criatura é de tal ordem que a determinado passo escreve: “no poder, os socialistas confundem Socialismo e Estado, Administração Pública e Partido”. E, por cá, como era, e é, desde o advento da autonomia? Substitua-se socialistas, Socialismo e Estado por sociais-democratas, Social-democracia e Região e está tudo dito!

Mas, o dito cujo vai ainda mais longe. Obcecado com teorias de conspiração acusa o PS de controlar as televisões generalistas e de retaliar e marginalizar quem se opuser. O trumpista mor do reino julga que não nos recordamos dos tempos do “telejardim” televisivo diário e das ameaças à própria integridade física de jornalistas, como sucedeu, por exemplo, com os correspondentes de órgãos de comunicação social de âmbito nacional?!

A desonestidade intelectual repete-se quando invoca um artigo publicado no mesmo matutino pela coordenadora do Bloco de Esquerda – na sequência de declarações de Pedro Calado na Pontinha aquando da apresentação da respectiva candidatura, em que disse que a actual vereação deveria estar “presa” por alegadamente não ter investido no Funchal -, devolvendo a acusação devido à dívida deixada pela dupla Albuquerque – Calado. Lá está, a eterna vitimização!

A ânsia de protagonismo, de marcar obsessivamente presença no espaço público, é de tal ordem que o dito cujo até não resiste a fazer de emplastro, como ocorreu numa acção de pré-campanha da candidatura do PPD/PSD à Câmara Municipal de Santana. A saída da Quinta das Angústias continua a custar a digerir. E de que maneira!

Um partido com o ADN do PPD cá do burgo não tem moral para clamar que “calar a voz do Governo é um desrespeito à democracia”, como fez o secretário regional da Saúde por ocasião do Dia da Cidade do Funchal. Enfim, quando, nesse dia, só tinham direito à palavra o edil, o presidente da Assembleia Municipal e a criatura que interrompia as férias no areal do Porto Santo para vir desancar na oposição, que não podia intervir, aí assim a democracia fervilhava, não é dr. Pedro Ramos?

Um partido com tais práticas, que nunca pediu desculpa aos madeirenses e porto-santenses pela forma autocrática como exerceu e exerce o poder, não tem, repito, moral para proclamar que “em política não vale tudo” como escreveu recentemente a comissária política do Sesaram num dos diários locais. E, convenhamos, citar em abono do candidato da referida coligação a opinião do amigo piloto de ralis faz lembrar episódios do tempo da outra senhora. Como se aquele fosse passar um atestado de incompetência ao respectivo pendura.

É caso para dizer, parafraseando a canção: “Para pior, já basta assim”!

 

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Post-Scriptum: 1) Muito Obrigado Presidente Jorge Sampaio: Partiu um cidadão e um político com uma integridade e seriedade sem mácula. Uma vida inteira dedicada à luta pela liberdade e pela democracia. À luta por um País e um Mundo melhores. Que o seu exemplo sirva de inspiração para todos nós, cidadãos do Mundo. Um muito obrigado do tamanho do Mundo, Presidente Jorge Sampaio!

2) Vacinação: Contrariando vozes agoirentas o País é um exemplo mundial em matéria de vacinação contra a covid. Mérito do Serviço Nacional de Saúde e dos seus profissionais e não apenas de um homem, o vice-almirante Gouveia e Melo, como alguns pretendem fazer crer. Por cá, depois de tanto auto-elogio, é já o próprio titular da pasta a assumir que a meta dos 85% de vacinação completa pode falhar no prazo estabelecido! Preocupante é, porém, o estado da vacinação, sobretudo em África. Com as consequências que daí poderão advir, designadamente o surgimento de novas variantes. O dever de solidariedade é uma obrigação!

3) Intolerável: Que haja quem acredite em teorias da conspiração ou que negue evidências científicas fazendo-o no respeito pela lei é admissível, recorrer ao insulto, à injúria e até à ameaça à integridade física, como sucedeu com o Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues e anteriormente com o responsável da “task-force” da vacinação, é intolerável. E repugna ainda mais ver gentinha como um médico e antigo candidato presidencial, Fernando Nobre, envolvido em tais práticas. Basta de contemplações!

4) Lamentável: Confesso que me entristece saber que, afinal, não vai haver museu dedicado ao “querido e amado líder”, ali para as bandas do Quebra-Costas. Que pena!

5) Taluda: A avaliar pelo que foi tornado público por um tal Conselho Consultivo de Economia os problemas financeiros da Região estarão em vias de desaparecer, através da aposta do CINM no mercado de produtos de luxo. Mais uma ideia brilhante da antiga presidente da ACIF que, ao que consta, também patrocina o escavacar do Largo do Colégio para criar estacionamentos.