Qual o futuro das nossas Comunidades Madeirenses?

Dia 1 de Julho foi dia da Região e das Comunidades Madeirenses. Nesse dia, por via online foi possível contactar as nossas comunidades, ouvir as suas dificuldades, bem como o trabalho desenvolvido para continuidade das raízes culturais lusófonas. São momentos únicos de proximidade e de intercâmbio, que devem ser mantidos em prol das relações vivas com a nossa diáspora.

Os nossos portugueses mudam de local de residência e de trabalho, vão para fora do país, mas é fulcral garantir esta proximidade e a garantia na proteção. Caso para dizer longe da vista, mas perto do coração. E por isso o nosso cuidado deve manter-se, porque têm as nossas raízes e queremos que se sintam sempre seguros na sua terra, e que tenham sucesso nos novos desafios lá fora.

Quando no primeiro dia de julho houve a oportunidade de conversar com as nossas comunidades da África do Sul, entre os vários países representados no evento, nunca poderíamos imaginar o que estaria por vir. A situação da África do Sul tem vindo a agravar-se gradualmente. Já foram mais evidentes os tempos de segurança e prosperidade neste país, que na década de 80-90 atraia os nossos emigrantes. Gradualmente vai-se instalando insegurança entre os nossos, e começam igualmente a regressar. Apesar da vida economicamente mais difícil que podem encontrar em Portugal, o seu regresso garante o sentimento de segurança e de garantia nos cuidados, que pesa muito mais.

Lembro-me de ser criança, data em que vivia bem perto dos meus tios e primos, e recordo-me do momento em que a minha mãe comunicou que o meu tio, que era mecânico, iria partir para a África do Sul. E sermos invadidos por uma mistura de sentimento de tristeza, entre a sua partida e distanciamento, e de esperança de que encontrasse sucesso. Mais tarde foram também a minha tia e os meus primos, o que marcou ainda mais, pois já não poderíamos brincar tantas vezes com o primo Tiago.

Mas era uma felicidade quando regressavam à Madeira, reunir toda a família e ouvir as histórias de um “outro mundo” vivido pelos tios e primos. Lembro-me dos sacos de doces e lembranças diferentes que traziam, o primo Tiago com as sapatilhas-bota da Nike… eram um sucesso!! Lembro-me como se fosse hoje…adorava vê-los chegar, era sinal de convívio, risada e bons momentos partilhados.

Os anos foram passando e nas suas viagens, no seu regresso, o discurso foi-se alterando. A estabilidade não era a mesma, a prosperidade no negócio também não, a segurança muito menos. Agora, que os tios começaram a envelhecer, não têm confiança no sistema de saúde no país para onde emigraram, sentem a insegurança, e tiveram de se afastar dos filhos e netos, para viver a sua reforma em Portugal, na terra onde nasceram, que lhes garante a qualidade de vida desejada.

Agora nos acompanham na comunicação social notícias de África do Sul, já não de investimento dos nossos emigrantes, mas de perdas, perdas elevadas de uma vida inteira de sacrifício. Sou inteiramente solidária com este sentimento de perda, porque apesar das histórias de sucesso de outrora, que os meus familiares partilhavam, recordo-me de ver nos seus olhos o constante sentimento de saudade, por se verem obrigados a procurar melhores condições de vida lá fora.

É verdade que devemos estar felizes por não haver perdas pessoais, mas sou tão solidária com este momento tão difícil que estão a vivenciar os nossos emigrantes… é recordar toda uma história de vida dos meus familiares, que acompanhei desde criança. E compreender que estamos perante um sentimento de perda maior, não só de bens, mas de sonhos e sacrifícios. Tal como já assisti nos meus amigos que vivem na Venezuela.

Mais do que nunca o Estado precisa estar perto, mais do que nunca a Região precisa estar ao lado das nossas comunidades, e mostrar caminhos. A base deve ser mantida, como a “casa dos pais” quando algo não corre tão bem como esperávamos. Às vezes é por um tempo, outras para sempre, mas os nossos portugueses precisam de sentir que o seu País está sempre vigilante, e que os apoia nos bons e maus momentos.

Temos exemplos de várias medidas nesse sentido promovidas pelo Governo Português, desde apoios socias, aos medicamentos, apoio ao investimento, ao emprego no seu regresso a Portugal. Mas dados os cenários, talvez seja momento de começar a precaver o futuro dos nossos idosos e jovens lusodescendentes da nossa diáspora. O incentivo que se prepara para a formação superior dos nossos lusodescendentes, em território português, e a agilidade no processo de equivalência das suas certificações é um bom princípio, a continuidade no apoio aos nossos idosos que se mantêm a viver nesses países, garantido a sua saúde e bem-estar, é outro.

Precisamos, sem dúvida, continuar atentos e garantir condições de vida dignas a todas e todos portugueses, sem exceção. E é este o caminho que o Partido Socialista deve e deseja trilhar.