Estepilha: a Madeira é como os meninos das caixinhas, sempre a pedir…

Foto R. Marote, 1978
Rui Marote
Quem não se recorda dos meninos da caixinhas, nos finais da década de Setenta do ano passado, e nos anos Oitenta, que tanto frequentavam a zona da Sé, e andavam à volta dos cafés Apolo e Coral.
Esta zona era o quintal destes jovens, na maioria oriundos do concelho de Câmara de Lobos. Diariamente fotografava episódios destas crianças, publicados nas páginas do Jornal da Madeira na rubrica “Ronda pela Cidade”, já lá vão 40 anos.
Os episódios da Polícia versus miúdos da pedincha faziam parte do cartaz turístico dessa época.
Recordo um casal de turistas almoçando na Cervejaria Coral, hoje centro Comercial da Sé. Bife com tradicional molho, acompanhado de ovo e batatas fritas. Importunados porém, por um menino das caixinhas, insistindo por uma moedinha.
O empregado conseguiu por largos momentos afastar o menino da caixinha para  fora da esplanada.
Mas o rapazinho voltou a insistir e o casal estrangeiro ignorou-o. Despeitado, o petiz, num abrir e fechar de olhos, sacou o bife do prato e seguiu numa correria louca em direcção à Avenida do Mar.
Era uma realidade que espelhava pobreza, exclusão, e as negociatas dos pais inescrupulosos que exigem dos miúdos que trouxessem para casa determinada quantia no final do dia.
Felizmente que, entretanto, este cartaz negativo foi erradicado e os meninos das caixinhas desapareceram do centro do Funchal. Só não sabemos é se as circunstâncias de exclusão que motivavam a sua existência também desapareceram, mas isso dava pano para mangas.
Estepilha: hoje temos outros “meninos das caixinhas”, que são nem mais nem menos do que os nossos políticos e governantes regionais. Diariamente têm sempre a mão estendida a Lisboa e à União Europeia.
Estão sempre insatisfeitos. Não vejo os Açores, com nove ilhas, baterem nesta tecla constantemente. Muitos foram os partidos que também já fizeram o “choradinho”, achando que isso lhes granjeia os aplausos do povo madeirense.
Ontem foi o dia do CDS invocando a renovação da frota pesqueira (espadeiros), que não oferece garantias de segurança aos pescadores, existindo embarcações que já perderam certificados de navegabilidade. A União Europeia fechou a “teta” e os governantes exigem que seja o Governo da República a comparticipar com verbas do orçamento do Estado, a renovação das embarcações. Os deputados regionais, os deputados da República e os deputados europeus acordaram tarde… Estepilha onde está o trabalho de casa? Há muito que se vem “cramando” a respeito disto, em vários quadrantes políticos, mas mesmo assim…  Renovámos os atuneiros (em bom tempo) e esquecemos os espadeiros envelhecidos em frota e  pescadores, deixando-os para o fim.
Mas isto não fica por aqui: os pescadores necessitam de um curso STCW – segurança marítima que irá ser obrigatório nos próximos tempos, homologação nas cédulas marítimas e outras certificações… Enfim… tudo muito bem planeado…