O movimento #metoo caiu nas bocas do mundo em 2017. Expressão cunhada em 2006, pela ativista Tarana Burke, foi pelos dedos da atriz Alyssa Milano, num tweet, que explodiu e ganhou uma dimensão nunca vista.
Me Too. Eu também.
Em Portugal, a repercussão foi quase inexistente. Ninguém se chegou à frente. Ninguém contou. Ninguém acusou.
Não há assédio sexual em Portugal, obviamente. Quando muito há por aí umas “asneiras”, como diria Rui Unas.
Quem parece que não recebeu essa informação foi Sofia Arruda, que veio borrar a pintura.
Na semana passada, numa entrevista no “Alta Definição”, contou que foi alvo de uma aproximação menos profissional de alguém com muito poder dentro de uma estação televisiva. Que, depois de se recusar a passar do plano profissional, lhe foi dito que não voltaria a trabalhar naquela estação. O que, pelos vistos, aconteceu.
Uma pedrada no charco. No charco estagnado e de águas turvas.
As reações, claro, não se fizeram esperar.
A que achei mais curiosa foi a de que Sofia não deveria falar disso se não está disposta a identificar o alegado assediante. Que estaria como que moralmente obrigada a identificá-lo, que deve isso às outras mulheres e à sociedade em geral.
A mim parece-me que Sofia Arruda não nos deve nada. Absolutamente nada. Nós, sim, é que lhe devemos. Devemos ouvir, respeitar. Agradecer.
Privada que foi da sua liberdade de trabalhar, da sua própria dignidade, não pode ser agora também privada da sua liberdade de como contar o que é só dela. Do que a prejudicou, magoou. E da liberdade de contar quando quiser, de controlar a sua própria narrativa, ao menos.
A coragem de sequer falar nisso já é admirável, parece-me. Alguém duvida que seja expediente recorrente naquele meio? E quem mais falou disso? Nem vivalma. Porque será?
Será porque vivemos no país desencantado do “e porque é que só fala agora”, do “pôs-se a jeito”, do “o que estava à espera, a usar aquelas roupas” e do meu preferido “agora tudo é assédio”?
Será porque sequer levantar a suspeição, mesmo que internamente, equivalha a ser posta na prateleira, sem apelo nem agravo?
Será porque vivemos no país da impunidade, em que é quase impossível condenar um corrupto, mesmo com as provas mais gritantes, quando nestes casos de assédio, as provas são dificílimas de produzir?
Para não falar da dificuldade que é digerir uma coisa destas. Das implicações.
Estávamos no ano de 2001. Talvez fosse 2000.
Ele era um professor afável e acessível.
Num dia, uma mão nas costas, a cumprimentar, que se demorava um pouco demais. Noutro dia, o gesto de afastar qualquer coisa do ombro. Depois o distanciamento que diminuía, apesar de não censurável, mas incómodo.
E eu ia remoendo naquilo. Seria exagero meu? Não queria ser antipática sem razão. Histérica. Talvez estivesse a imaginar coisas. Mas não conseguia afastar aquela sensação. Se fosse uma coisa clara, seria fácil de lidar. Mas raramente é. É gradual. Dúbio. Confuso.
A minha confidente assegurava-me que não, que ele era assim com todos os alunos. Mas aquele nó não se desfazia. Evitei que estivéssemos sós, apesar das tentativas, para falar deste trabalho ou daquele livro.
Não obstante, chegou. A conversa.
Do que ele queria. E a insinuação subtil de como seria benéfico para mim.
Não me lembro do que respondi, nem de sair de lá. Lembro-me que me senti gelada. Depois, sozinha, desabei.
Já nem nessa altura, eu era uma menina frágil. Nem inocente. Acho que nunca fui, mesmo quando era uma frágil menina. Mas foi exatamente assim que me senti.
Pequenina. Impotente. Traída.
Porque não queria ter sido colocada naquela situação, porque me senti invadida. Porque ele era meu professor e eu sua aluna. Porque aquilo não se faz.
E depois as dúvidas, será que fui eu, será que dei a entender? Será que me pus a jeito?
Custou-me ultrapassar. Não falei disso durante muito tempo e ainda hoje, agora, enquanto escrevo, parte de mim diz que deveria apagar. Se estão a ler é porque a outra parte ganhou.
Custou-me, sim. E isto que me aconteceu é um nada. Nada. Um quase nada.
Ninguém me agarrou no braço até deixar marcas, como à Sofia Arruda, nem me ameaçou de não mais ter trabalho.
E, mesmo assim, ninguém me faria dizer quem foi, porque esta é a minha forma de lidar com isto. E, se porventura dissesse, não seria submetida ao escrutínio, ao julgamento público como ela seria.
Porque, por agora, ela agiu mal porque não identifica. Se identificasse, agiria mal porque acusa sem provas. E se tivesse provas, não seriam suficientes e todos os comportamentos que ela teve com o sexo masculino até à data, vasculhados pelas revistas nas bancas, é que ditariam se ela teve ou não culpa.
Ela falou disso. Corajosamente. Já é qualquer coisa.
O movimento #metoo e seus congéneres não servem só para acusar e punir quem assedia, mas mais que isso. Muito mais. Colocam na ribalta este tipo de comportamentos, condenam-nos publicamente e instituem que não são aceitáveis. Não podem ser.
Tão importante como isso, oferecem um lugar seguro às mulheres que se atrevem a falar, pela força dos números, pelo barulho das vozes que não se calam e pela empatia e solidariedade que geram na sociedade.
Também da solidariedade das outras mulheres. Porque nós mulheres temos muito que aprender. Custa ver que as críticas mais ferozes, mais maldosas, mais misóginas vêm, muitas vezes, da boca de outras mulheres.
E precisamos de falar da violência sexual e do assédio sexual. Porque existem. Também em Portugal. E não só no meio televisivo, mas transversalmente na sociedade. Em todos os quadrantes e escalões.
Porque é que todas as vozes se calam em Portugal?
Precisamos de deixar de assobiar para o lado.
E, às vezes, precisamos de dizer eu também.
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