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Em 1974, no dia 25 de Abril, o nosso País e as suas colónias viveram uma verdadeira revolução, uma revolução que simbolizaria o fim de um regime. Um regime ditatorial, de medo, de censura, de perseguição. Um regime que ia desde a censura na imprensa denominada de lápis azul até à falta de liberdade de expressão do povo nas ruas através da polícia do regime, a PIDE. Portugal e as suas Ilhas festejaram a liberdade, o fim da ditadura, o fim de um estado totalitário, o princípio de uma nova era. A era da democracia e das liberdades individuais.
Esta revolução teve repercussões além-fronteiras pois Portugal à época detinha colónias fora do seu território geográfico. Enquanto em solo português se celebrava a libertação, nas colónias portuguesas vivia-se um clima de apreensão sobre o futuro de milhares de famílias que tinham emigrado à procura de melhores condições de vida. Esta situação é-me particularmente próxima pois, os meus avós maternos fizeram parte dos milhares e milhares de portugueses que embarcaram à procura do sonho além-fronteiras.
Ao longo da minha vida, cresci com os relatos familiares de como tinha sido a vida em Moçambique, mais concretamente Lourenço Marques (actual Maputo). Tal como milhares de portugueses, o meu Avô decidiu ir à frente e rumar a uma terra desconhecida, onde felizmente teve o auxílio de dois familiares próximos que o acolheram e preparam conjuntamente a chegada da minha Avó, da minha mãe e dos meus tios. A vida nem sempre foi risonha, mas com muito espírito de sacrifício o meu Avô conseguiu singrar e estabelecer a sua actividade profissional de mecânico numa pequena oficina no seu lar. As histórias do calor tropical, dos banhos ao luar, da abundância da fruta e do marisco foram relatos que me ficaram para sempre, de uma vida distante, mas que tão belos momentos proporcionaram à minha família.
Porém nem tudo são rosas, ou neste caso cravos. A vida das colónias portuguesas foi dura no pós-25 de Abril. Com o clima político instável e sem grandes informações acerca do que se iria passar, rapidamente o clima de medo e de insegurança se instalou. Relatos de furtos, de ameaças e de perseguições foram surgindo um pouco por toda a região. Aos portugueses que tinha sido prometido um recomeço numa cidade tranquila, foi lhes prestado pouco auxílio numa transição que de pacífica deveria ter tido mais. A minha família, como muitas outras, acabou por, num curto espaço de tempo, empacotar o máximo que podia e partir rumo à segurança da nossa Ilha.
É por isso que, neste dia, faço questão de prestar homenagem a muitas famílias que, tal como a minha, tiveram de largar tudo e voltar ao ponto de partida. Às muitas famílias que fizeram das tripas coração para assegurar a segurança dos seus. Às que tiveram de abandonar negócios, casas e sonhos devido à transição de regime imposta na altura. Que se preste uma sentida homenagem a todos os corajosos que voltaram ao nosso país com o pouco que restou de uma vida, mas que não baixaram os braços para devolver a estabilidade e a harmonia aos seus familiares queridos.
É também neste dia que presto homenagem a uma pessoa que também ele foi um lutador e que nasceu neste dia tão simbólico. O meu querido Avô Adriano, que infelizmente por vicissitudes da vida, não pode estar aqui presente em corpo, mas que está sempre em alma. É no seu legado, no seu espírito de guerreiro que hoje encontro alento para defender os valores de Abril, a transparência, a honestidade, a integridade de que um homem deve ser feito. Apesar de todas as suas dificuldades, nunca vergou, nunca cedeu a facilitismos, lutou sempre pelo bem-estar da família sem nunca hipotecar os seus valores e princípios. Agradeço tudo o que fizeste por mim em vida e o que ainda continuas a fazer por mim onde quer que estejas. Tenho muito orgulho em descender de alguém que tanto de bom deu aos seus e aos que o rodeavam.
Que Abril esteja sempre connosco e que tu estejas sempre presente nas nossas vidas. Que os heróis de Abril não sejam esquecidos. Tanto os que usaram armas nesse dia, como os que os actos heróicos foram menos visíveis, mas igualmente importantes para o país. Pela liberdade, pelos portugueses e por Portugal!
*o autor escreve segundo a antiga ortografia da língua oficial portuguesa*
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