Confiar?

Diariamente questionamos a fiabilidade das pessoas com quem interagimos, quer de forma consciente ou inconsciente. “Confiar” na mais simples acepção da palavra e segundo o dicionário online Priberam é: “Entregar (alguma coisa) a alguém sem receio de a perder ou de sofrer dano.”

A confiança não é visível, é demonstrada e, mesmo antes do contexto pandémico, nós portugueses já sofríamos com esta premissa.

De uma forma geral é mais fácil confiarmos na maior parte das pessoas ou, pelo oposto, todo o cuidado é pouco?

Seguimos os caminhos daqueles que parecem de mais confiança? Mas como medimos essa confiança? Pela partilha das nossas linhas de pensamento e ideologias? Pela admiração profissional e, ou pessoal? Mesmo quando exprimimos o nosso direito ao voto, (que é uma forma de confiar em alguém) votamos porquê?

Porque seguimos e conhecemos o programa do partido? Porque seguimos as verdades e as “não verdades” das redes sociais e dos média? Porque o imediato assim o quer? Porque apenas queremos quebrar o ciclo? Porque achamos que nessas pessoas temos mais possibilidade de entregar a nossa liberdade? Os nossos direitos? Os futuro dos nossos filhos?

Segundo um estudo da OCDE* feito em 2011, em Portugal apenas 38% das pessoas sentem que podem confiar nos outros. Obtivemos uma das mais baixas médias da Europa e ficamos muito aquém da média geral de 59%. Logo, perante estes números, não votamos confiando. Então grande parte de nós exerce o seu dever cívico pelo simples facto de o exercer?

Fora do espectro político, a Reader’s Digest Europa aplicou “A Carteira Perdida” em 2013, em 16 cidades de 14 países europeus. O objetivo desta experiência era testar a fiabilidade dos cidadãos das mesmas cidades. Foram perdidas 14 carteiras com nome, número de telemóvel, uma fotografia em contexto familiar, cupões de desconto, de visita e dinheiro (aproximadamente 50€). Portugal arrecadou o último lugar do estudo, sendo o único país com a devolução de apenas uma das carteiras. A título de curiosidade foram devolvidas 90 carteiras em 192 perdidas.

Hoje, mais do que nunca, resta-nos confiar ou pelo menos aprender a confiar. Estamos claramente mais dependentes uns dos outros, queiramos ou não, e confiamos não só a nossa saúde e a nossa liberdade mas também o nosso futuro.

Com as eleições presidenciais à porta e com uma pandemia ativa com isolamento, confinamento, recolher  obrigatório e tantas outras restrições, resta-nos apenas avaliar. Em que posso confiar? A quem posso entregar aquilo que me é essencial? Como posso conhecer mais, saber mais para ter a certeza de que faço a escolha certa?
* OCDE “ Society at One Glance – Social Indicatorsa