Estepilha: Bacalhau, o almirante Tenreiro e a ponte aérea…

Rui Marote
Hoje o Estepilha vai falar de um peixe que domina a época natalícia a nível nacional, e que nos remete também para a memória de um homem que dirigiu as pescas com mão de ferro. Quanto era jovem, no tempo em que frequentava o Colégio Nuno Álvares, conhecido pelo “Caroço”, falava-se então do Almirante Henrique Tenreiro, que o Dr. Caroço fazia questão de dizer ser seu primo.
Havia coisas boas e algumas menos boas deste Almirante, dirigente da Junta Central das Casas de Pescadores. As boas eram a sua maneira forte de dirigir as pescas pela positiva. As menos boas, foi obrigar as pessoas a ir à pesca do bacalhau. Como ele dizia, era “o bacalhau ou a tropa”,  que era o mesmo que dizer guerra colonial, que então decorria. Muito persuasivo… Também tinha o defeito de ser a favor dos oficiais e contra os pescadores. Oficial da Armada de méritos discutíveis, nunca foi um homem de hábitos tranquilos, algo notório pela forma activa e vibrante como consumiu boa parte dos seus noventa e dois anos de vida. Tenreiro foi sempre uma reserva mobilizadora, numa ditadura salazarista.
Nesta época natalícia, os portugueses consomem muito bacalhau, sendo para muitos o fiel amigo que acompanha os convívios familiares lusos desde há muitos séculos, continuando a ser  muito comido no nosso país.
A tradição do bacalhau na ceia de Natal remonta à Idade Média, com o calendário cristão a “obrigar” ao jejum nas principais festividades católicas, essencialmente na Páscoa e entre o dia de Todos os Santos e dia de Natal. Como não se podia comer carne nestes períodos, os portugueses passaram a consumir bacalhau, já que a conservação facilitava  a chegada do produto em boas condições, principalmente ao interior do território. O bacalhau começou a chegar a Portugal no século X, quando os povos nórdicos vinham ao nosso litoral comprar sal ou mesmo trocar sal por peixe que traziam. Alguns historiadores referem que os galegos tiveram contacto com o bacalhau antes dos lusitanos.
Todo este “nariz de cera” (termo conhecido na gira jornalística para texto longo) como preâmbulo para abordar o que os madeirenses consomem nesta época, em especial na consoada e no almoço de Natal.
Hoje percorri a Fernão de Ornelas e contemplei as montras da “Pretinha dos Cafés” e outras duas lojas que exibiam o “fiel amigo” bacalhau, de uma espessura apreciável tentando os que transitavam a sua aquisição com uma escultura de um casal de velhotes junto de uma etiqueta “bacalhau especial 12,98 kg.
Enquanto o povo do “rectângulo” consome toneladas de  bacalhau, por cá na RAM não fazemos jantar de consoada e sim um almoço a 25 de Dezembro.
No dia 24 apenas comemos uma canjinha  com pão caseiro antes de ir à missa do galo .
No outro dia ao acordar um licor, umas broas e bolo de mel, e ficava-se a aguardar o almoço.
As comidas dos madeirenses, tradicionais são diferentes: não existe bacalhau.
Comemos carne de vinho e alhos, hoje também é moda o peru, e para sobremesa não há rabanadas nem sonhos (são típicas do Carnaval),nem arroz doce nem aletria. Aqui come-se bolo de mel, broas de mel, coco e de manteiga e alguns pudinzinhos e licores como o tin-tan-tum.
Nos finais das décadas de 70 e 80, a Madeira “exportou” para o continente algumas centenas de quilos de bacalhau,  em especial às sextas e sábados nos aviões da TAP, que transportavam as embaixadas desportivas do União, Marítimo e Nacional que disputavam os campeonatos nacionais. Eram os aviões do bacalhau, de tal ordem que o cheiro do fiel amigo era único “odorizante” que prevalecia nas bagageiras. Os preços dispararam no mercado negro e o bacalhau não era acessível aos bolsos dos portugueses, mas na Madeira essa crise não existiu e o empresário madeirense “Olho no Preço” importava-o.
Todas as semanas era uma autêntica ponte aérea do bacalhau, com os jogadores continentais residentes nos clubes madeirenses a serem os portadores. Era bacalhau, bananeiras para plantações no Algarve e flores.
No regresso, algumas caixas de lagostas, pois “uma mão lava a outra”. Era jogar futebol e ganhar uns extras por fora. Estepilha! Que recordações…