Um dia a casa vem abaixo

Sempre a conheci em ruínas. Sempre a imaginei grandiosa.

Com o tempo, novas pedras se deslocam, desabam paredes e o matagal cerca-a.

Tem resistido a sismos e tempestades. Parece milagre a sua longevidade. De pé há-de cair.

Propriedade privada. Delimitada. Mal-amada. Assemelha-se a doente terminal e rico, observado por herdeiros ávidos e impacientes. Quando tudo desmoronar, mais fácil e rendível será o investimento imobiliário. O poder regional e autárquico descarta-se da memória e do património cultural.

FOTOS: NELSON VERÍSSIMO, Out. 2020

Quem passeia pelos Reis Magos, observa, com carinho, a altivez da casa arruinada. Faz parte da paisagem. Sempre esteve ali. Imagine-se: limpa do lixo e de matos e bem iluminada. Que beleza de sítio! “Não! Retorna à realidade: tem dono! Nada se pode fazer!” “Não é bem assim…” “Esquece. Não há interesse, nem dinheiro…!” “Nem para limpar? Nem vontade da Câmara para obrigar o proprietário a limpar o terreno! Gestão de combustível é assunto ignorado por estas bandas?” “Ninguém quer saber de ruínas.” “Ninguém, quem?” “Eu, eu gosto destas ruínas. Há anos que as admiro.”

Ruínas! Ninguém assoma à janela. Não há uma luneta na torre. Não se ouve a música do salão. Não se sente o cheiro a tabaco. Não se ouvem gemidos nem o ranger das camas pela noite. Não há fogo na cozinha. Nem gritos de um tresloucado.

Pelos escombros inçam ratos e lagartixas. Vagueiam gatos atentos. Descansam pombos e gaivotas no cimo dos muros. Riem-se fantasmas adejantes, porque ninguém os escuta.

Ninguém se lembra de quem construiu esta casa nobre. No século XVIII, seria. Requintado gosto e dinheiro não faltariam, por certo, ao seu proprietário, que encomendou magníficas pedras de cantaria para portas e janelas. Da mesma época, não se conhece na ilha outra assim, tão majestosa. Ninguém a estudou ou procurou delinear a sua história.

A cartografia do século XIX identifica-a como a Casa do Agrela, ali bem próximo do Reduto de São Sebastião ou Fortim dos Reis Magos, também descaraterizado, maltratado e apoucado. Agrelas que se fixaram no Caniço de Baixo, junto ao mar, no início do século XVI, tendo Francisco de Agrela Ferreira sido nomeado capitão de ordenanças deste lugar em 1643.

Sítio com história do município de Santa Cruz a merecer cuidadosa intervenção.