Estepilha: proliferam as medalhas, “quinquilharia de homem branco”, já dizia o velho índio

Rui Marote
O Estepilha não resiste a comentar, com humor, a actual e generalizada corrida às medalhas. “Quinquilharias de homem branco”, conforme as terá classificado em tempos um chefe índio de uma reserva no Mississipi, supostamente galardoado pelo Presidente dos Estados Unidos mas que se recusou a receber tal condecoração porque a considerava uma “quinquilharia” destituída de valor. Não falta, porém, quem lhes confira grande significado, a lembrar Camões: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”, dizia o Canto I, 3 estância.
Interrogamo-nos apenas: quais valores? Os valores mudaram e o mundo mudou. Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República, é o primeiro a distribuir “quinquilharias” por “feitos” realizados sem esforço. Temos comendadores com muitas “encomendas”… Mas como há quem tanto goste de medalhar e ser medalhado, vamos hoje recordar uma figura castiça da nossa cidade, prestando homenagem a Joaquim Quintino Travassos Lopes, primeiro presidente do conselho fiscal  dos Bombeiros Voluntários Madeirenses, em 28 de Novembro 1926, e comandante de 1933 a 1969. Figura de relevo na Madeira, tendo sido inclusive presidente do Marítimo (1928-30) Viveu na antiga Quinta Vigia onde hoje está o hotel Casino.
Ora, o Estepilha lembra-se dos longínquos tempos da infância, quando esta figura importante desfilava na procissão do Corpo de Deus, com o peito coberto de medalhas até a barriga. Deixava as crianças com a boca aberta de espanto, sendo figura de destaque. Todos queriam ser como ele, e poder exibir aquele número de distinções.
Hoje essa “quinquilharia” é distribuída de forma diferente, como se fosse um pódio: há grau ouro, prata e bronze. A avaliação fica a cargo de um júri mistério. Há curiosamente quem seja agraciado e despedido, caso de certos funcionários do Hotel Belmond Reid’s.
Quanto aos órgãos de informação desta região autónoma, que deveriam receber a informação destas nomeações simultaneamente, sabem delas primeiro que os titulares e antes da sua publicação. É a fuga de informação constante de certos governantes, que um dia distribuem bombons a um e noutro dia a outro. O que é preciso é ter tempo de antena!
Entretanto, a Câmara Municipal do Funchal não fica atrás e antecipa-se, homenageando amanhã pelas 11 horas no local a florista do largo Gil Eanes, na Rua do Aljube, Leonor Ferreira, que há mais de 50 anos e 30 colectada, já vem de uma geração de floristas. A sua avó exerceu a profissão durante meio século, e a sua mãe durante 46 anos. Vendiam flores a porta do hotel Reid’s.
Ora, meio século de profissão a exibir o traje regional da Madeira, isso sim merece uma medalha… Estepilha!