Danilo Matos classifica de “saloia” a nova iluminação da Casa da Cultura de Santa Cruz

foto facebook Danilo Matos

O engenheiro Danilo Matos, uma das personalidades que tem estado na linha da frente da defesa do património edificado do arquipélago da Madeira, não poupou nas palavras críticas sobre a Casa da Cultura de Santa Cruz, numa publicação na sua página pessoal da rede social facebook. Referindo-se à iluminação, ou melhor, à “colocação folclórica de projectores eléctricos nas fachadas nobres da Casa da Cultura, na Quinta do Revoredo, considerou “saloia” a alteração, classificando a iluminação como “‘lamparinas’, que são para mandar tirar já ou então ‘abater’ com uma pistola de chumbo…” Mas o engenheiro volta atrás e, fulminante, reconsidera: “Não façam isso, é melhor que fiquem para o dicionário da estupidez com uma lápide do género, “mandadas colocar por um vilão que queria ficar na história”. Ele, o ainda presidente, mandou colocar e não ouviu ninguém. A Casa da Cultura de Santa Cruz tem excelentes colaboradores, que têm feito um trabalho louvável, e não merecia ser tratada desta maneira. Disseram-me, e eu acredito pelo respeito que também tenho pelo seu trabalho, que a própria vereadora da cultura foi apanhada de surpresa”.

Quem mandou colocar a nova iluminação, diz, “marimbou-se nos elementos históricos em cantaria que estão à vista, e bem à vista, encastrados nas duas fachadas viradas à estrada, e que são bem característicos da época. São popularmente chamamos de ‘cachorros’ e eram onde assentavam as madeiras dos alpendres que a casa tinha, conforme se pode ver em fotografias da época, e de que eu ainda me lembro (…)”

Considerando que há várias maneiras discretas de iluminar edifícios de qualidade histórica e patrimonial sem ser assim desta forma “saloia e agressiva”, Danilo Matos considera o edifício um belo exemplar da arquitectura civil da época e diz nunca ter percebido por que razão a Câmara nunca pediu a sua classificação”.
Por outro lado, considera que se perdeu “uma oportunidade para corrigir uma série de asneiras, algumas que me parecem graves, bastava que tivessem a humildade ouvir mais gente, para além das do costume”.
Trata-se de “UMA QUINTA, que por acaso tem uma Casa da Cultura. As obras que foram feitas em 1990, nasceram de um projecto torto, era preciso perceber o que é uma quinta que passa a jardim público. O desenho herdado, e que se mantém, mais parece concebido para uma gincana de bicicletas do que para um espaço de estar, de contemplação se quiserem. Mesmo assim manteve-se, na altura, grande parte do arbóreo existente, mas calcetou-se de forma exagerada e sem critério e ninguém disse ao empreiteiro que não se faz calçada madeirense com calhaus daquele tamanho”, critica Danilo Matos.
“Para quem não sabe, a Quinta foi construída no mesmo ano do jardim municipal de Santa Cruz, 1840/43, que é um belo exemplo pela calçada genuinamente madeirense que ainda está à vista. O pavimento antigo da Quinta era também assim. Deixaram que o empreiteiro fizesse aquela barbaridade ao pavimento – ninguém fiscalizou, provavelmente”, recorda. Agora, considera Danilo, “perdeu-se uma grande oportunidade, porque o desenho, o excesso de área ocupada e as dimensões da calçada poderiam e deveriam ser totalmente alterados, e isso fazia-se com o mesmo orçamento. Arrancar os calhaus todos, trazer um paisagista para um novo desenho que faça daquele espaço sem carácter um belo jardim urbano para todos, pensando especialmente nos velhos e nas crianças. Com mais relva e menos calçada. E, já agora, um botânico, para escolher as árvores e a vegetação que podem ficar e as que devem ser plantadas para completar o coberto existente.
Pelo contrário, a Quinta está cada vez mais careca e aumentaram, com esta intervenção, a área de calçada de calhau com o mesmo tipo de calhau. Aquela calçada já ocupa 60% do espaço. Aquilo pode ser tudo o que quiserem, menos uma quinta. Aquilo tem a Casa da Cultura, mas só ganha quando for Quinta Urbana, com carácter, com sombra, relva e bancos de descanso para todas as idades”, considera.
E deixa, para terminar, “um aviso muito sério: a última legislação da União Europeia é muito clara quanto ao cumprimento obrigatório de normas no que respeita à pedonização dos cidadãos portadores de mobilidade reduzida e/ou condicionada que, segundo uma estatística recente da própria ONU, representam cerca de 36,5% da população que vive, trabalha ou usa a cidade. Por todo o lado, sobretudo na Europa, está a levar-se muito a sério esta questão de cidadania. Aconselho que também levem isto muito a sério. A vila, como eu continuo a chamar, de Santa Cruz está cheia de armadilhas deste género”, diz, referindo-se à “calçada horrorosa”, que, afirma, se pudesse mandaria arrancar.
Por outro lado, não se esqueceu de apontar baterias ao presidente da Câmara, Filipe Sousa, dizendo que, no dia da inauguração, o edil “espumou” contra “os que discordaram da obra ‘visionária’ que rebentou com a muralha de alvenaria virada ao mar, já com 180 anos, para abertura de uma escada, com passagem de atravessamento pelo chão da quinta”.

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