António Costa: Primeiro-Ministro adepto ou adepto Primeiro-Ministro?  

Clubismos à parte, e sublinho à parte, a última bacorada do Primeiro-Ministro, que vai contra a conduta expectável de qualquer governo (como é consensual da esquerda à direita, incluindo o próprio PS), só encontra defensores em amigos do próprio, como o emotivíssimo João Soares, que veio ao vivo e a cores, fazer uma figura quase tão ridícula quanto a que fez quando prometeu (também publicamente) estaladas a jornalistas. Recorde-se que, no episódio igualmente reprovável de Soares, em 2016, António Costa dizia muito convictamente (ou parecia) que “enquanto membros do Governo, nem à mesa do café podem deixar de se lembrar e, portanto, devem ser contidos no modo como expressam as suas emoções”, citamos.

Na altura, António Costa dava um valente “puxão de orelhas” a Soares, que acabaria por demitir-se, e bem. Passados quatro anos, vem Soares dar uma palmadinha de solidariedade a Costa perante a irracionalidade deste! No domínio das emoções, a amizade pode ser muito bonita, sem dúvida! Porém, não tem forçosamente de levar a este préstimo de figuras histriónicas e tristes, como a que Soares fez. Diga-se o que se disser, por mais criatividades e bizarrias argumentativas que se engendrem terraplanisticamente, um Primeiro-Ministro está inevitavelmente limitado na sua vida cívica e associativa. Tão factual como a Terra ser redonda! O facto de estar perante um gigantesco devedor do BES e de uma OPA declarada ilegal deveriam ser razões mais do que suficientes para que António Costa, não o adepto, mas o Primeiro-Ministro, Fernando Medina, não o adepto, mas o Presidente da Câmara de Lisboa, e Joaquim Santos, não o adepto, mas o Presidente da Câmara do Seixal, não tivessem aceitado o convite para fazerem parte da Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira. Como se calcula, Luís Filipe Vieira também só os terá convidado pensando na sua qualidade de adeptos e, nunca por nunca, lhe terá passado pela cabeça (nem à distância daqui a Plutão) os cargos que exercem! Tão verdade como o Dalai-lama estar na lista de contratações de Filipe Vieira.

Fosse qualquer outro clube, mesmo sem pingo de suspeição, e a atitude de participação numa eleição teria de ser de inequívoca recusa. Apenas e só. Nos tempos que correm é mais um rude golpe na credibilidade de Costa, o que faz lembrar o famoso “Que se lixem as eleições!”.

A possibilidade de se poderem gerar conflitos de interesse é, no mínimo, a perder de vista, incluindo aqui o Presidente da Câmara e Lisboa e do Seixal, o que naturalmente se prende com as suas funções executivas e tomada de decisão, que poderá estar seriamente comprometida, para o bem e para o mal dos próprios e do Benfica.

Certo, certo é que a atitude de António Costa, depois do que afirmou em 2016, com ar de “sentença transitada em julgado”, nada mais é que a de um “cata-vento”, tal como é de “troca-tintas” recomendar reservas ao PS sobre o apoio ao próximo Presidente da República (quando o próprio o deu a Marcelo Rebelo de Sousa, numa conhecida fábrica de automóveis), coisa aparentemente de somenos importância que a eleição para a Presidência do Benfica! É, não é?

Da “bazucada no pé” que toda a gente conhece, a verdade é que o que está muito singelamente em causa é tão-só o princípio óbvio de que um Primeiro-Ministro em funções, embora podendo, não deve (ponto final, parágrafo) fazer parte da comissão de honra numa eleição clubística ou do Grupo Recreativo da bisca de 6 de Onde o Diabo perdeu as botas. Verdadeiramente o que se estranha é Costa não o ter anunciado, como é “normal” em campanhas eleitorais antecipadas, numa fábrica de automóveis!!!

Já da parte do candidato apoiado, mas não do grande devedor da banca, a resposta foi a de uma espécie de “virgem ofendida”: “Estão a ultrapassar todos os limites. Nunca vi, e já aqui estou há muitos anos, uma campanha tão ofensiva e caluniosa. É algo a que tenho assistido, mas a verdade vem sempre ao de cima. (…) Mas nunca vi na minha vida uma campanha tão vergonhosa. Críticas? Sou imune a isso”. Comovente desabafo de um mártir em peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora dos Arguidos!!!

A secundá-lo esteve, muito naturalmente, o adepto António Costa, clarificando que uma coisa não tem “rigorosamente nada a ver” com a outra. Obviamente que este inabalável apoio do adepto é indiferente ao conhecimento de Costa, PM, de que Luís Filipe Vieira está envolto em polémica e suspeição, a começar pela perda de 225,1 milhões que entre agosto de 2014 e dezembro de 2018, o seu grupo económico causou ao Novo Banco. Sem dúvida que esta atitude só vem contribuir para restabelecer a credibilidade e equidistância que se impõe a quem exerce cargos políticos.

Como dizia Pedro Adão e Silva, sociólogo, professor universitário e antigo membro do Secretariado Nacional do PS: “Há 15 dias, António Costa recomendava que os membros do Governo não se pronunciassem sobre as presidenciais. Hoje, ficou conhecido o seu apoio a Luís Filipe Vieira nas eleições do Benfica. Uma contradição, uma promiscuidade desnecessária e prova de que os políticos não aprendem”

Nesta mesma linha, Manuel Pizarro do partido Pessoas-Animais-Natureza considerou que as “situações de ligação próxima da política ao futebol não são admissíveis do ponto de vista ético”. Afinal, estamos a falar do mesmo homem que, ao mesmo tempo que lança a suspeita sobre os negócios do Novo Banco, aceita integrar a lista de apoio a um candidato à presidência de um clube a cujas empresas o mesmo Novo Banco fez empréstimos ruinosos no valor de mais de quase 250 milhões de euros. As más-línguas até já falam de bipolaridade, imagine-se!!!

Outras sensibilidades, reconhecendo que a decisão de Costa não tem nada que ver com política, sugerem que é para dar uma imagem de multiculturalismo. Será?

Outros, ainda, alegam que terá sido convidado pela sua capacidade de fazer cataplanas, adiantando que, caso soubesse fazer caldeiradas, teria um cargo executivo.

Por outro lado, há até quem deixe no ar uma questão essencial: “Será que, se no tempo de Costa, Medina e Santos houvesse a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, algo semelhante se passaria?”

Os mais ligados a explicações do transcendente vão avisando que é uma questão de um estranho alinhamento dos astros. O problema, sustentam os mais cautelosos, é se Vieira for condenado por algum dos crimes nos quais há suspeita de envolvimento? Será que todos fugirão de LFV como aconteceu com Isabel dos Santos? Ou dirão que está “a defender a verdade dele” atrás das grades?

Será que, depois de muitos anos de permanência em cargos de funções executivas e outros cargos de liderança, António Costa já começa a manifestar os primeiros sintomas de que já pode, contra toda a racionalidade, expressar as suas emoções (como lhe dá na real gana) à mesa do café ou na abertura de telejornais? Será que António Costa, já está como Centeno, a preparar a sua saída para voos mais altos, mais bem remunerados e menos exigentes, nas mais altas instituições europeias? Quando este tipo de atitudes de emoção ou prepotência, de “tanto faz” e “tanto se me dá, como se me deu” ocorrem o sinal mais claro poderá ser o de que o próprio já só espera o seu fim.

Mais do que isso, estar-se-á já nas tintas, muito emotivamente a antecipá-lo, em nome de valores que “mais alto se alevantam”?