À vista deles e da nossa vista

Ao profeta Ezequiel foi dirigido um convite muito estranho (Ez 12,1-12). Ele que habitava no meio de rebeldes, porque «Eles têm olhos para ver e não vêem, têm ouvidos para ouvir e não ouvem: é uma geração de rebeldes». Por isso, foi convidado a sair dali e partir à vista deles como um exilado, «prepara a tua bagagem de exilado e parte para o exílio em pleno dia, à vista deles. Sairás deste lugar para outro, à vista deles. Talvez assim reconheçam que são gente rebelde». Parece que não reconheceram a sua rebeldia, porque surgirá a terrível consequência, o exílio da Babilónia. Vamos assim reter a expressão que mais nos interessa por agora, que é esta «à vista deles»…

À vista deles…

– em pleno dia, sairás à tarde, como um exilado;

– faz uma abertura na muralha e sai através dela;

– põe a trouxa aos ombros;

– cobre o rosto para não veres o país;

«Eu faço de ti um símbolo para a casa de Israel». E conclui: «Este oráculo dirige-se a quem governa Jerusalém e a toda a casa de Israel que nela vive».

Este maravilhoso texto bíblico assenta que nem uma luva nos tempos que nós vivemos. Por isso, retenho particularmente a expressão «à vista deles». Porque à vista da nossa irresponsabilidade, que se traduz mais rotineiramente no encolher de ombros ou militante indiferença, estamos a ver tantos Ezequieis no nosso tempo a partirem como que exilados para o deserto da indignidade e do sofrimento jogados à morte por causa da indiferença geral que comanda a vida do nosso tempo.

Eles são a multidão enorme de refugiados que tomados como gado saciam as bestas mercenárias que se alimentam do tráfico humano. São pescados nas margens do mar Mediterrâneo em rudimentares barcaças e depois são jogados para abrigos prisões à espera que alguém decida alguma coisa. Mas como se considera serem pessoas sem categoria de pessoas, podem ser esquecidos, podem esperar como animais dentro de espaços exíguos e em condições infra humanas. O comportamento de certas autoridades, a meu ver revela-se tão grave como os caciques que ganham dinheiro neste negócio horrível de seres humanos. Aí estão por essa Europa fora jogados sobre a maior certeza que vislumbram que é a sua incerteza. E tudo isto à vista de tantos olhos que deviam ver, mas fazem conta de ver com todo o prazer.

À vista nossa morreu pessoas idosas em lares completamente abandonados, não digam que foi por causa do covid-19, porque foram abandonados, morreram com fome e desidratados. Porque quem devia providenciar os cuidados necessários para garantir o bem das pessoas com medo do coronavírus fugiu e deixou para trás estas pobres criaturas indefesas. A vista da sociedade em geral está cheia de cataratas, indigna-se e lasca-se toda, que eu digo, ainda bem, por causa de cães que foram carbonizados pelos incêndios, mas quase nada por causa de pessoas maiores que podiam ser nossos pais ou avós, que morreram como bichos completamente abandonados.

À nossa vista andam pessoas a sofrerem insultos e a serem discriminados porque vieram de outras latitudes para construírem vida nosso país. O racismo no seu pior ressuscita o pior que há na humanidade. Porém, não faltam, à nossa vista, escroques para defenderem o indefensável e aproveitarem o momento para se fazerem de vítimas para ganharem mais simpatia e adeptos para a sua causa fascizante que emerge em força. Mas, à nossa vista, curiosamente, e como fruto da nossa indiferença, esta causa populista paulatinamente ganha cada vez mais simpatizantes.

À nossa vista e bem dentro do nosso terreiro, anda o nosso Porto Santo cheio de gente que nunca devia ter saído de casa. Não sabe estar, não sabe comportar-se para deixar bom registo, respeitando o espaço onde foi acolhido e não prejudicar o futuro de ninguém. Rezam as notícias que uma larga maioria destes desordeiros, são adolescentes que deambulam pelas noites de Verão no Porto Santo completamente abandonados pelos pais. Se for verdade é grave e reforça a ideia da cegueira que nos comanda os dias. À nossa vista esta miséria precisa de atenção, quem não sabe estar e comportar-se que não esteja. Fique em casa o tempo todo.