A razão das máscaras

O António levanta-se sempre à mesma hora. Como se, entre o coração e os pulmões, tivesse um despertador. A rotina matinal é sempre a mesma. Banho, barba, vestir, pequeno-almoço, notícias e dentes.

Desce sempre no autocarro que passa exatamente às nove e cinco. Desde que se reformou, pelo menos. Faz as voltas que tem a fazer e quase todos os dias vai ao Pingo Doce do Anadia. Falta sempre alguma coisa em casa. E gosta de ver as promoções.

O Miguel acorda quando lhe apetece. Nunca à mesma hora. Desde que se reformou, pelo menos. A rotina matinal é sempre a mesma. Banho, barba, pequeno-almoço, vestir, notícias e dentes.

Desce no primeiro autocarro que passa depois de estar despachado. Gosta de ir comprar o Diário e beber a bica. Sem açúcar.

Nesse dia encontraram-se na Fernão de Ornelas. Na esquina do Alberto Oculista. Já não se viam desde o pré-Covid.

Há que tempos não te punha a vista em cima, rapaz. É verdade, Miguel. Essa pança foi do confinamento? Não, foi da cerveja.

Riram-se como velhos amigos que são.

E o meu Porto, hein? Sempre ganhou. Tiveram foi sorte. Mas para o ano o campeonato, é nosso. Vamos ver, vamos ver…

E tens ganho no Placard? Vou fazendo uns trocos. E tu? Lá me vou safando…

Afastaram-se para pôr a conversa em dia e deixarem as pessoas passar à vontade.

E esta história das máscaras na rua, o que achas, Miguel? A resposta estava na cara. O António estava de máscara e o Miguel não.

Um perfeito exagero, António, sinceramente. Uma anormalidade. Com este calor e humidade, ainda por cima. É horrível usar essa porcaria.

Lá nisso ele tinha razão.

Mas vê lá, Miguel, que há pessoas que têm de a usar no trabalho o dia todo e lá se habituaram. Imagina agora os médicos e enfermeiros decidirem deixar de usar porque lhes incomoda. Já viste o que ia ser?

Lá nisso ele tinha razão.

Mas caramba, António, não estamos assim tão mal para justificar isto. É completamente desproporcional. Se ainda fosse em Lisboa…

E quando é que ia ser obrigatório? Quando já estivesse o vírus à solta? Depois do mal já estar feito? Sabes quantos turistas vão entrar no mês de agosto? E depois ainda a escola dos miúdos. Se é para prevenir tem de ser agora. Não é depois da casa roubada.

Lá nisso ele tinha razão.

Mas e onde está a legalidade disto? Um crime por desobediência criado por resolução? Uma coisa desta importância e o Governo Regional é que decide? Não me parece que possa ser.

E eu quero lá saber se é ilegal. É a proteção da saúde pública, de todos nós. Tem de estar acima da Lei.

Nada pode estar acima da Lei num estado de Direito, António. Ouvi um dr. qualquer dizer isso ontem na rádio e pareceu-me que era exatamente isso. Se abrimos essa porta, como sabemos onde vamos parar? Quantos atropelos vamos legitimar? Quem poderá, então, dizer o que é ilegal ou não? É a gosto do freguês?

Até pode ser ilegal, Miguel, que eu cá de leis não percebo. Devo ser o único, que isto agora metade dos madeirenses é advogado. Seja como for, eu cá acho que é perfeitamente justificado. Ou agora também vais comparar o uso da máscara ao extermínio de Judeus pelos Nazis? Não me venhas com coisas tontas, por favor, que és mais esperto que isso. E mesmo que o Governo Regional não pudesse fazer… Se é a medida certa a tomar para proteção de todos, então aqueles que deveriam tomar essa decisão, o que andam a fazer? A dormir?

Mas tens a certeza que usar máscaras protege de alguma coisa? Olha que eu vi um vídeo duns médicos espanhóis a dizerem que usar ainda é pior que não usar. E o Joaquim… Lembras-te do Joaquim, que morava no beco da Amelinha? Esse era aquele muito gordo? Era, mas depois da mulher o deixar ficou num modelo. Então, o Joaquim ainda ontem dizia que tinha a certeza que usar máscara não servia para nada. Que isto é tudo para nos enganar e enriquecer os fabricantes de máscaras que estão feitos com o Governo.

Pois, mas isso é porque a outra metade dos madeirenses agora é medica. Se nem sequer os médicos se entendem. Sabes que eu sou um homem que acredita na ciência. Tu conheces-me. Mas isto tudo abalou muito a minha fé. Desde o início que ninguém se entende, um dia há certeza de uma coisa, no dia a seguir de outra. Pensei mesmo que estávamos muito mais avançados. Foi uma desilusão.

Lá nisso tens razão, estamos entregues à bicharada.

E como é que se tomam decisões com estas indecisões? Já pensaste nisso?

Se já pensei. Ainda ontem comentava com a Isabel…

Como é que ela está, é verdade?

Está bem. Aquela perna direita é que nunca ficou completamente boa depois da queda. Lá se vai aguentando. Mas ainda ontem lhe comentava que se há coisa que eu não gostava era de mandar nesta altura do campeonato. É tramado.

Lá nisso tinham ambos razão.

Afastaram-se mais um pouco para a sombra, porque o Sol do meio dia não perdoa.

E vais ver o Rali este ano? Cá nada. Já me deixei disso. Mas bem que gostavas. Lembras-te daquele ano que fomos todos acampar? Aquilo é que foi. Acho que não chegámos a ver nem um carro passar. Pois não. Mas as garrafas voltaram todas vazias. Lá isso é verdade, admitiram por entre risos cúmplices.

Foi mesmo bom. Temos de repetir um ano destes.

Concordaram ambos, mesmo sabendo que não o voltariam a fazer.

Mas não vou. Ainda por cima este ano. Então não posso ir ao arraial dos Lameiros e posso ir ao Rali? Isso lá faz algum sentido, António?

É diferente, Miguel. Tu sabes que é diferente.

Não vejo em quê…

Despediram-se. O António tinha os iogurtes que precisavam de ir para o frigorífico. O Miguel estava mesmo a precisar da bica.

Foi cada um para o seu lado. Um de máscara e o outro sem ela. Cada um com as suas convicções.

A amizade, essa, perfeitamente intocada. Uma amizade forjada nos trilhos do ciclismo e salpicada pela água salgada dos mergulhos na Barreirinha resiste a tudo.

Até à história das máscaras.