Prioridades

Escreve sobre o macramé, a caligrafia e o bordado, dizia-me a mais velha perante a minha crise de inspiração. Ri-me.

Mas não é que vou mesmo escrever sobre o macramé, a caligrafia e o bordado? E a literatura. Os filmes e as séries. A música.

Porque nestes tempos de confinamento foi o que salvou a sanidade mental de muitos de nós.

A minha foi alimentada de abraços, beijos e risos. E bolos com cobertura de chocolate. Mas fortaleceu-se com nós de macramé, acalmou-se com pinceladas de caligrafia e centrou-se com cada ponto a atravessar o tecido preso no bastidor.

Achei que seria só eu. Acho sempre que sou um indivíduo muito singular. Não sou.

Os cursos online de artes plásticas tiveram uma adesão sem precedentes. As aulas e os tutoriais de tudo o que era artístico pululavam nas diferentes plataformas. Dizia-me a Vera, minha dealer de fios de algodão, que parecia que o mundo todo decidira aprender a fazer macramé ao mesmo tempo. Quase toda a gente quis aprender a fazer alguma coisa. Acrescentar-se. Desafiar-se.

Por termos mais tempo. Tempo para abrir aquele livro que estava a ganhar pó. Tempo para fazer uma maratona daquela série que nos tinham falado. Para ver aquele filme que vale mesmo a pena. O tempo que, com os seus truques de magia costuma desaparecer qual flor humana, não dava uma de Houdini tão facilmente.

Mas não foi só por isso. Precisámos da arte mais do que nunca nestes tempos estranhos. Como forma de expressão, de validação. Para pensarmo-nos e pensar o outro. Para encontrarmos respostas. Para gerirmos as nossas emoções. Para abstrairmo-nos.

Sabiam que há uma coisa chamada terapia da arte? Eu não sabia. Faz todo o sentido.

A arte, nas suas diversas aceções, é pedra-de-toque da nossa realidade. Porque a vida só não basta. E como isso se evidenciou.

Mesmo as mais corriqueiras, artes menores ou não-arte. Mas as outras, a literatura, o cinema, o teatro, a pintura, a dança e a música elevam-nos. Fazem-nos transcender. Mais do que isto não sei dizer. Foi a (tentativa de) definição de arte que me fez odiar Filosofia no décimo ano, ódio de estimação que se mantém.

Posso não saber definir a arte, mas sinto. À minha maneira pouco filosófica.

Diz-se que propuseram ao Churchill, em plena II Guerra Mundial, cortar o financiamento da Cultura para ajudar o esforço de guerra. Se cortarmos na Cultura, então porque estamos a lutar, teria ele respondido. Na verdade, nunca o disse. Mas gosto de imaginar que o fez, entre duas densas baforadas de charuto.

Este ano planeava participar em duas peças de teatro. Provavelmente não vou fazer nenhuma. Aborrece-me porque gosto muito de o fazer. Mas só isso.

E os que vivem disto? Os atores, os encenadores, os técnicos de som e de luz? Os cantores, os músicos e os bailarinos?

Dia 1 de junho, os teatros e as salas de espetáculo podem reabrir. Mas mantendo uma lotação mínima que permita o distanciamento social. O que é perfeito. Num qualquer mundo imaginário. Naquele país cor-de-rosa onde os promotores fazem rios de dinheiro com a bilheteira normal e que, portanto, com um terço da lotação podem perfeitamente pagar todos os encargos de de um espetáculo.

Entretanto, os aviões passam a poder viajar com a capacidade total. Todos os passageiros bem pertinho uns dos outros. Sem qualquer distanciamento social.

Prioridades. Incoerências.

E não há pandemia que as mude.


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