Quarentena (In)cultural  

Neste terrível cenário de propagação contínua do coronavírus, o universo da cultura e dos artistas passam, também, por um avassalador clima de incerteza que afeta todas as suas condições de trabalho, começando pelo fecho – mais do que compreensível – dos espaços culturais.

Vivemos um tempo que jamais nos passaria pelo pensamento. Então, quem entra nas redes sociais, é de bradar aos céus, com a quantidade de asneiradas atrás de asneiradas. É simplesmente incrível como, em pleno século XXI, desde que começou o período de alerta na Europa por causa da pandemia de covid-19, exista tantos seres humanos insensíveis e capazes de usar e fraudar o outro, de uma forma tão repugnante – só para não dizer nojenta, que é a mesma coisa.

Estamos fartos de ouvir dizer e assistir que apesar dos mil e um conselhos para o isolamento social e ou quarentena, nada os faz mudar, incumprindo com as regras impostas para o bem comum. Será que custa muito, sermos práticos e conscientes, optando por não sair, a não ser para um caso extremamente de necessidade absoluta, não formar grupos de pessoas, lavar as mãos, evitar tocar no rosto? Temos que acreditar que com boas ações, juntos vamos vencer!

É verdade que, a maioria das pessoas mostram sinais de responsabilidade cívica, mas nesta “guerra invisível”, basta um incumpridor para colocar toda uma comunidade em perigo.

Infelizmente, muitos, ainda não perceberam e não vão perceber que só com a prevenção e a tentativa de romper o circuito infernal da transmissão do vírus poderão ter resultados. Custa acreditar, mas é a pura realidade, estamos todos em suspenso e num verdadeiro “ensaio sobre a cegueira” (José Saramago).

Em termos culturais, primeiramente, foram as restrições de afluência a eventos com elevada concentração de pessoas, seguindo-se o encerramento de espaços como cinemas, teatros, auditórios e salas de concertos, até não sabemos quando.

Perante esta situação inesperada, sabemos bem que o crescimento económico será afetado, mas o prioritário é salvar vidas e proteger a saúde pública. A primazia deve ser sempre salvaguardar as pessoas.

Estou ciente de que esta situação coloca um grande fardo sobre as indústrias culturais e criativas, por isso urge encontrar medidas para minimizar o problema.

E algumas medidas têm surgindo, a conta gotas, um pouco por todo o país, a começar pelo anúncio feito pela Ministra da Cultura sobre a criação de uma linha de emergência para o apoio às artes no valor adicional de 1 milhão de euros, a qual tem como objetivo apoiar já entidades artísticas e artistas mais vulneráveis, sem apoio financeiro.

Até sua Excelência, o Presidente da República afirmou estar a acompanhar a situação dos profissionais das artes do espetáculo, com “as suas especificidades e urgências”, e mostrou-se certo de que haverá “adequação e abrangência” das medidas para este setor.

Vários artistas, como noutras ocasiões, estão a ser solidários, contribuindo via online, com concertos, espetáculos, no sentido de apoiar este isolamento. Na internet apareceu, ainda mais, uma série de livros para download gratuito. Haja interesse em ler! Algumas instituições culturais, nomeadamente os museus, passaram a oferecer-nos novas formas de usufruirmos dos seus espólios, recorrendo às novas tecnologias. Não é igual, mas louva-se a atitude. Pois podemos e devemos minimizar a ausência presencial nos espaços culturais, recorrendo aos meios digitais. Há que aplaudir estas iniciativas, dando até o nosso feedback aos seus promotores.

Vários são os teatros nacionais e outros que disponibilizaram online conteúdos de livre acesso, procurando desta forma, dar continuidade à sua missão de serviço público de cultura.

Ter tempo para pensar e ágil culturalmente é fundamental. Pois só a compreensão da importância da cultura, pressupõe a capacidade de criar e de inovar.

Mas também, não tenhamos margens para dúvidas que assim que este momento melhore e as atividades e espaços culturais reabram, a desconfiança aumentará. Veremos salas de espetáculos com meia dúzia de pessoas e bastará o simples som de um tossir para provocar um sentimento de receio.

A cultura não é uma vaidade. A cultura é, de facto, uma área transversal que liga a sociedade, a tecnologia, o saber, a informação e o conhecimento.

Claro que, após esta pandemia, no panorama artístico-cultural precisamos, mais do que nunca, da entreajuda entre artistas, comunidade artística, entidades público-privadas e claramente do carinho do público.