5.2

O barulho. Em crescendo. Desconhecido, assustador. Inaudito.

A trepidação. As paredes a mexer. Nunca tinha pensado que as paredes da minha casa de banho poderiam mexer-se. É daquelas coisas que não nos passa pela cabeça.

O que é isto? É um sismo. Sai, sai.

E saio. Agarro na mais pequena. O marido na maior. A cabeça em gestão de stress ainda assim permite ao coração notar que estavam abraçadas uma a outra. Dizem-me mais tarde que é o superpoder de proteção das manas.

Quando chego ao quintal, o chão parara de tremer. Agora eram só as minhas pernas.

Uma filha ao colo, outra pela mão.

O ladrar dos cães era ensurdecedor. Os vizinhos todos na rua. Como dizia alguém, hoje conheci todos os meus vizinhos. O marido vai falar com o vizinho da frente, o que me diz se vem carros, quando estou a sair da garagem. Como que para validar que realmente era isso. Um sismo.

Já muitas vezes ouvi contar a história do sismo de 75. Sei que a minha tia dormia e sentiu a cama a abanar, que o meu tio saiu em cuecas para a rua e que a minha avó Mariazinha, como só ela, correu meio tresloucada pelo Caminho de São Roque abaixo. À Obikwelu. Sem destino e sem rumo. Teve de ser o Sr. Reginaldo, o sapateiro, a ir atrás dela.

Mas não sabia que era assim. Não sabia que se sentia tanto medo. Primeiro do desconhecido. Depois do que se conhece.

Não sabia que nos sentíamos pequenos. Impotentes. Confusos. Não sabia que era possível sentir literalmente o chão a falhar-nos debaixo dos pés. E que sentimos, quase que fisicamente, que a vida é um momento.

E depois, passa. Como tudo. E a vida retoma. Business as usual.

Toma o xarope. Vai lavar os dentes e fazer xixi, amor. A mamã vai pôr-vos na caminha.

Vá, que já é tarde. Claro, que não. Não vai acontecer outra vez. A mamã, em 40 anos, nunca tinha sentido, vê lá. Agora é hora de dormir.

Dorme bem, meu coração.

Dorme bem, meu coração.

Os grupos de WhatsApp em polvorosa. Um que estava de toalha a sair do banho e assim ficou, impávido e sereno. Um que se agarrou ao sofá. O outro que saltou do sofá. A que correu descalça para a rua, levando a bebé pendurada no saco de dormir, como uma boneca espantada. A criança que pensou que eram vacas a correr. E o que me informou que a mãe já estava rezar. Por isso agora ia correr tudo bem.

Não tardaram a surgir as piadas. O meme dos açorianos a rirem-se a bandeiras despregadas do nosso pânico. Digo há anos que se o humor fosse um bem exportável, o PIB português estava nos píncaros.

Sou sempre por ver as coisas pelo lado positivo.

Pelo menos ontem ninguém pensou no Coronavirus. Uma folga merecida. Porque esse está longe. Pelo menos por enquanto. E esta ameaça foi aqui mesmo. Imediata.

E um dia, quando a minha neta estiver com bloqueio de escritor, poderá sempre escrever que, no sismo de 20, a sua avó Filipa, como só ela, quando fugiu da casa de banho para a rua trazia, debaixo do vestido comprido, as cuecas nos joelhos.

Ainda me vai agradecer.