Danilo Matos denuncia atentado ao Património Cultural em Santa Cruz

Foto Danilo Matos.

Danilo Matos escreveu mais “Uma questão de cidadania” denunciando “uma intervenção sem pés nem cabeça” na Quinta do Revoredo, em Santa Cruz.

“1. A Câmara Municipal de Santa Cruz está a promover obras de reabilitação na Casa da Cultura, obras há muito prometidas e que eu saúdo embora não conheça o projecto. O que vejo, porque está à vista, é uma intervenção de desmonte de uma parte significativa da muralha virada ao mar, para construção de uma escadaria com quase 5 metros de altura. Discordo completamente e vou explicar porquê.

2. Para ser mais directo, como é meu timbre, o que está a ser feito é mais uma facada no património. Aquela muralha, construída a pedra e cal, já tem 180 anos, tantos quantos a casa. Aguentou temporais terríveis, resistiu sempre e protegeu aquele espaço de uma quinta madeirense com história, a única na freguesia que chegou aos nossos dias.

2. Rasgar aquela parede enorme para inserir uma escadaria de acesso à promendade, com chegada mesmo em cima da piscina, levanta duas questões. A primeira de natureza patrimonial, porque transforma o jardim numa passagem, retirando-lhe o ‘carácter’ de Quinta, lugar onde se está pelo seu ambiente, pela sua vista sobre o mar e as Desertas, pelo silêncio, pela arte, onde se promovem acontecimentos e se levam grupos especialmente de jovens. A quinta pode ser tudo isso, menos “uma passagem para a outra banda”…

3. A segunda questão relaciona-se com os problemas de segurança e condições higio-sanitárias do uso da própria piscina, previstos na Normativa 23/93 CNQ, que a Câmara de Santa Cruz há anos ignora. Há uma piscina pública, já com problemas de desenho, profundidade e outras – ilegais – mas a parte mais crítica e condenável reside numa promenade e agora numa escada em cima do cais ou do solário do acesso à água. As duas funções, passeio e banho, coexistem mas não podem, têm de estar devidamente separadas e sinalizadas, co m o recurso a lava-pés, guardas e outras exigências que estão na Lei e têm de ser cumpridas. Em qualquer momento, a Saúde Pública pode encerrar a piscina. A escadaria só vem agravar a situação existente e que ninguém quer ver.

4. Este acesso é inútil, não se ganha nada e perde-se muito, e é uma ferida que nunca será sarada. E já que estou com a ‘mão na massa’, uma recomendação: a Câmara deveria, a meu ver, aproveitar a circunstância de fazer obras para melhorar duas coisas fundamentais. Primeira, a mobilidade e principalmente o calcetamento que dificulta e até impede a visita e acesso a vários sectores da população, como por exemplo pessoas com cadeiras de rodas, canadianas ou carros de bebés, uma questão muito séria para um espaço público O arquitecto Chorão Ramalho deixou-nos bons exemplos como fazer. Segunda, o aspecto ‘careca’ da quinta, a precisar de um botânico que aconselhe a reflorestação de um ambiente com aquelas características ambientais. O que lá está é uma anarquia. Só metrosideros contei cinco…”, escreveu.