Diocese do Funchal tem novos cónegos a partir de hoje

O Bispo do Funchal, D. Nuno Brás presidiu hoje à Solenidade da Imaculada Conceição e Missa da tomada de posse dos novos cónegos do Cabido da Catedral do Funchal.

Leia aqui a homilia na íntegra:

  1. A Palavra de Deus que acabámos de escutar, apresentava-nos, como que em três quadros de um belo altar, as três situações em que decorre a nossa vida humana e cristã.

No primeiro quadro do retábulo, o da esquerda (a Iª leitura) era-nos mostrada a situação habitual do ser humano: aquele modo de viver marcado pela fuga, pela vergonha e pelo medo diante de Deus; pela mentira acerca daqueles com quem vivemos e a quem não raras vezes culpamos pelos nossos erros; pela inimizade com o criado.

Adão e Eva, homem e mulher, são verdadeiramente aquilo que, de um modo ou de outro, é cada um de nós. São personagens bem concretos e históricos porque nos representam a cada um e a toda a natureza humana quando esta se conforma com a vida longe da graça divina: Deus torna-se em alguém distante, de quem temos medo, quando se descobre a nudez do nosso pecado, a mediocridade do que somos, daquilo em que se transformou a nossa vida; os outros tornam-se num objecto sobre quem descarregamos as nossas incapacidades, com quem nos desculpamos quando somos confrontados e iluminados pela luz e pelo amor de Deus; o mundo à nossa volta torna—se num inimigo que ameaça.

  1. Mas não apenas a desordem do mundo (a realidade daquilo em que nós, seres humanos, transformámos o paraíso que nos foi oferecido e para o qual fomos criados) não apenas a desordem do mundo era colocada diante de nós. Diante de nós surgia igualmente um outro quadro, à direita do retábulo, que nos apresentava a nossa vocação — a vocação que Deus faz a todo e qualquer ser humano. Na IIª leitura, com efeito, S. Paulo recordava aos cristãos de Éfeso a vontade, o desígnio do Pai acerca de todos os seres humanos. Dizia o Apóstolo que, ao criar cada um de nós, Deus nos pensa:, quer-nos santos e irrepreensíveis, predestinados para sermos filhos, herdeiros dos bens divinos, à imagem do próprio Cristo.

Trata-se de uma vocação dirigida a todo o ser humano. Não fomos criados para o mal; não fomos criados para o sofrimento; não fomos criados para a desordem. Todo e qualquer ser humano, é criado para Deus à imagem de Cristo.

A nossa vida sobre a terra consiste precisamente na oportunidade que nos é dada de nos transformarmos de protagonistas do primeiro quadro para actores decididos e ousados do terceiro. O plano salvador de Deus (o seu desígnio, aquilo a que os escritores do Novo Testamento chamam o “mistério de Deus”) consiste precisamente na oportunidade que a todos é oferecida de deixar que a Graça divina actue em nós e nos transforme.

  1. Entre estes dois painéis do retábulo surgia um outro, o quadro principal: o Anjo Gabriel enviado por Deus a uma Virgem chamada Maria. Diz-nos S. Lucas que tal sucedeu num local perdido da distante Nazaré, longe do movimento dos grandes centros de cultura e de poder do Império romano; longe dos habituais, mas rapidamente esquecidos, protagonistas da história humana. Porque os desígnios de Deus não são os dos homens.

E, diz-nos também S. Lucas, que, ao saudar a Virgem, o Anjo não a tratou pelo nome comum com que era conhecida (Maria), mas com um outro nome, conhecido apenas de Deus, e que trazia também consigo uma missão: “kecharitoméne” [κεχαριτωμένη], a “Cheia de Graça”, ou, para sermos mais rigorosos, a “Agraciada”, aquela a quem foi feita a Graça divina.

A solenidade de hoje celebra precisamente a realidade que o nome da saudação angélica expressa: “Cheia de Graça”. A Graça de Deus, o seu favor — que outra coisa não é senão a própria vida divina que nos é concedida a nós, seres humanos, sem quaisquer méritos da nossa parte (vida que nos transforma interior e exteriormente, que nos salva) — a Graça de Deus preenche plenamente a vida, a existência, o pensamento, o querer, a imaginação, o sentimento e o agir da Virgem de Nazaré. Toda ela é de Deus. Toda ela é entrega à vontade divina. Nada na sua vida se encontra fora, à margem que seja, daquele desígnio divino de salvação. Maria é, desde sempre (“antes que do nada surgissem os mundos”, haveria de cantar S. Cirilo de Alexandria), Maria é, desde a eternidade, terra fértil onde o dizer divino pode frutificar. Como nenhuma outra.

Porque à Virgem, como a cada um de nós, também o Pai a predestinou. Pensou-a para uma missão única e central na história do Universo: aquela de dar carne humana ao Verbo divino, ao próprio Deus. E para que Aquele que dela deveria nascer pudesse ser o Salvador, o Pai não hesitou em salvá-la antecipadamente (“em atenção aos méritos de Cristo”), impedindo que nela o pecado pudesse alguma vez habitar. Não pelos méritos próprios da Virgem, mas pelos méritos únicos de seu Filho, e por causa da nossa salvação.

Eis que a Palavra — aquela mesma Palavra que, no início do mundo, fora pronunciada no meio do silêncio para criar tudo quanto existe — eis que a Palavra é dirigida à Cheia de Graça, e encontra o terreno fértil para dar fruto abundante. A Graça divina dera, desde sempre, forma à existência, ao ser de Maria: é a forma do acolhimento, que as pinturas da Anunciação tão bem retratam; a forma daquela que escuta, que acolhe; a forma daquela  que se deixa moldar toda por Deus; a forma daquela que, longe de se encher de medo, longe de procurar fugir ao encontro, à presença de Deus, antes se mostra disponível: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”.

  1. Não há possibilidade de passar do primeiro para o terceiro quadro do retábulo do nosso altar (que é, afinal, a representação da história da salvação) sem esta atitude da “Cheia de Graça”. O mesmo é dizer: sem a disponibilidade, a escuta e a ousadia da Virgem de Nazaré. Apenas tal atitude constitui o ser humano no terreno fértil que permite à Graça divina actuar, transformar, converter.

O quadro central, em que distinguimos o anjo mensageiro, portador da Palavra, e a Virgem Maria, toda acolhimento e disponibilidade, percebemo-lo, por isso, também, como o quadro central, a atitude primeira da nossa vida cristã: o quadro que nos mostra a forma da nossa existência batismal. Aquilo que na Virgem é o desígnio divino que desde a eternidade a tornou salva, Cheia de Graça, é em nós o baptismo. Saímos das águas baptismais cheios de graça, envolvidos no amor divino, salvos na morte e ressurreição de Cristo.

Como sucedeu com a Virgem, também em nós a Palavra divina quer fazer-se carne; quer fazer-se vida e, por meio de nós, chegar a tantos outros, que vivem simplesmente os dramas do primeiro quadro do retábulo, ignorando a sua vocação, o pensamento, o desígnio de Deus — o Deus que, também a eles, predestinou para a santidade.

Disponhamo-nos, irmãos, a acolher, definitivamente, a Palavra divina. A deixar que, como na Virgem Maria, a Palavra dê forma e conteúdo à nossa existência, transformando-a, convertendo-a, fazendo-a mais divina — a ela e ao mundo em que vivemos”