Há médicos a chorar sem que ninguém lhes enxugue as lágrimas

No início da noite de ontem, a necessidade inesperada de prestar apoio a uma amiga levou-me ao concorrido serviço de urgência do Hospital Dr Nélio Mendonça. Entre o atendimento e o compasso de espera pelo resultado das inevitáveis reavaliações na sequência de exames de diagnóstico, confrontei-me com um corredor subitamente ocupado por inúmeras macas com idosos que lutavam com as suas enfermidades e a cruel limitação das suas capacidades. Médicos muito jovens desdobravam-se no atendimento a estes idosos que viviam entre o delírio e a dor física. “Nada somos”, pensava em voz alta, confrontando-me com o drama pungente dos velhinhos que  outrora foram a força produtiva, a alegria, mães e pais enérgicos, hoje vencidos pela doença.

Eis que a minha amiga teve necessidade de ser observada por um médico de uma especialidade que atendia doente atrás de doente. Consulta feita e bem feita, excelente trato e tudo em ordem para honra e glória de Deus. Na despedida, a minha amiga desejou ao médico que aproveitasse a sua juventude e tivesse sucesso no seu trabalho. A resposta, sempre serena e educada, em tom de desabafo numa conversa empática médico-doente, foi curta mas enche as páginas de um livro. Respondeu assim o médico, com um misto de serenidade e resignação: “A minha juventude está a ser consumida no hospital. Mas foi aquilo que eu escolhi…”

A frase do jovem médico acompanha-me todo o dia. Não sei se olhava para a minha amiga se para a alma ferida de um médico que é apenas um exemplo de milhares de médicos sufocados por uma urgência que lhes está a engolir a juventude e a própria vida. Será que alguém dá por isto? Será que esta dura realidade consta dos relatórios destes profissionais e, se sim, alguém os lerá? Será que algum político consegue dormir descansado quando os médicos, que estudaram para nos tratar, estão a adoecer silenciosamente, sem amparo, a não ser das famílias?

Por razões familiares, tenho passado algum tempo na urgência hospitalar e no internamento e tenho vivido algumas horas bem amargas. Confesso: tenho duvidado muitas vezes de alguns procedimentos que me têm levado a questionar se não terá havido  ligeireza a mais no tratamento dos idosos que me são familiares. Hipocrisias não são para mim. Sim, eu faço barulho e farei sempre que estiver em causa a dignidade e a justiça humanas. Mas eu hoje tenho de abraçar quem sofre porque há médicos a chorar muito por dentro e não há ninguém a enxugar-lhes as lágrimas. Apenas a exigir mais, mais e muito mais… Quanto mais jovens e caloiros nos corredores dos hospitais, mais é a torrente de trabalho. O resto, bem, o resto será um vencimento de pouco mais de mil euros, com mais de uma década de formação superior muito exigente e espartana, uma avaliação esotérica e cinzenta à laia do check list (de Manchester?) e toda uma juventude e uma vida consumida no hospital. Que dizer dos médicos veteranos? Consta que não têm direito a ocupar o banco de suplentes, porque, em estado de “guerra” ou caos do sistema, todos são convocados ao serviço. E por aí fora. Enfermeiros, auxiliares, toda uma massa humana escravizada em tempos muito civilizados que mente ao dizer que a escravatura pertence ao passado. Volto a dizer: é mentira. Há uma escravatura moderna que sacrifica médicos, enfermeiros, juízes, advogados, professores, jornalistas e tantos outros profissionais sob a égide de uma crise sistémica de valores que varre tudo quanto é dignidade e boa fé. O que importa são números, as estatísticas para encher páginas de relatórios e jornais.

Poderia simplesmente ignorar o desabafo e juntar-lhe os meus tantos desabafos e de tantos outros portugueses sem trabalho ou a receber o ordenado mínimo. Mas não posso calar aquele grito: “A minha juventude está a ser consumida no hospital…”