Mulher, socialista, deputada, fisioterapeuta recomenda “correção postural” ao presidente do Governo

Marta Freitas foi eleita deputada pelo Círculo da Madeira para a Assembleia da República. Em entrevista ao Funchal Notícias, a nova deputada, fisioterapeuta de formação, recomenda ao presidente do Governo Regional “uma “correção postural”, para que adote uma verdadeira postura de diálogo”.

FUNCHAL NOTÍCIAS: Como tem sido a sua primeira experiência na Assembleia da República?

MARTA FREITAS: Ainda é muito cedo para fazer avaliações, no entanto será a partir de agora, quando estão definidas as comissões parlamentares e sua composição, que os grandes desafios terão lugar e estou motivada para enfrentá-los, dando o meu melhor contributo, na proposta de soluções para os problemas que o país enfrenta, dando uma especial atenção à Região Autónoma da Madeira, pela qual fui eleita.

FN: Para si é mais importante a disciplina partidária ou a consciência individual? 

MF: Sem margem para dúvida, a minha consciência individual está em primeiro lugar. No entanto é do conhecimento geral que muitas vezes não é o sentido de voto que à partida irá determinar ou condicionar, o encontrar das melhores soluções para os problemas. A resolução desses mesmos problemas passa por um processo dinâmico, de persistentes e por vezes muito difíceis negociações, com avanços e recuos. Teremos de nos focar essencialmente no objetivo final, que é o de concretizar a melhor solução possível, para as várias questões que em cada momento se colocam. Sabemos que ir de encontro a uma porta que, por momentos e por várias razões, se encontra encerrada não é a melhor solução, a minha consciência dita que é preciso ter calma e aguardar pela chegada da chave certa.

FN: Pertencer, como membro efectivo da Comissão de Trabalho e Segurança Social e suplente na Comissão de Saúde da Assembleia da República foi uma escolha ou uma imposição?

MF: Não houve qualquer imposição, tratou-se de opções expostas no seio do Grupo Parlamentar do Partido Socialista, em coordenação com os deputados eleitos pelo círculo eleitoral da Madeira pelo PS, e tendo por base as minhas qualificações, experiência profissional e interesses. Considerámos assim que estas seriam as comissões onde eu deveria estar integrada, indo ao encontro da minha vontade.

FN: De que forma pertencer as essas comissões pode ajudar a Madeira?

MF: Por estas comissões passa muito do que se poderá fazer para melhorar as condições de trabalho e de vida de todos nós, o combate à pobreza e exclusão social, o apoio aos mais carenciados, os cuidados e valorização da população mais idosa, entre outras tantas matérias. Tudo aquilo que no país se fizer neste âmbito, também irá beneficiar os madeirenses e porto santenses.

FN: Tenciona ficar toda a Legislatura em São Bento ou, em algum momento, pode ceder o lugar a Karina Pestana, n.º 4 do PS pelo Círculo da Madeira? 

MF: À partida levarei o mandato até o fim da legislatura. Se em determinado momento, por circunstâncias que venham a ocorrer de carácter pessoal ou de outra natureza, que me condicionem na continuidade deste mandato na Assembleia da República, não terei qualquer problema em ceder o lugar. Tenho a certeza e a plena confiança de que a Karina Pestana, ou qualquer outro membro da lista de candidatos à Assembleia da República, pelo PS-Madeira, têm reconhecidas capacidades para darem um excelente contributo em prol da Madeira, e da Nação.

FN: Um dos principais compromissos do PS-M durante a campanha foi a defesa da Autonomia. De que forma isso terá tradução na práxis parlamentar? 

MF: Passa sobretudo por levar ao debate parlamentar os interesses da Madeira, naquelas que são as competências da Assembleia da República.

A meu ver as propostas deverão ser o resultado de um trabalho elaborado em conjunto com quem tem assento na bancada da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, no meu caso, em especial os deputados do PS-Madeira. Contudo acrescento ainda, a importância de haver também um diálogo com todos os interessados nesta matéria, nomeadamente deputados de outras frentes partidárias, para que antes de se levar à discussão na República, encontremos uma convergência de ideias e interesses, de forma a obtermos uma defesa ou argumentação mais sólida e fortalecida, contribuindo verdadeiramente com propostas que valorizem essa mesma autonomia.

FN: Como fisioterapeuta, que exercício recomenda ao presidente do Governo Regional?

MF: Recomendo uma “correção postural”, para que adote uma verdadeira postura de diálogo.

FN: E que exercício recomenda para colocar o subsídio de mobilidade em marcha?

MF: Sobretudo o de muita atenção e prudência. Sou a favor de que os madeirenses e porto santenses tenham que pagar até um determinado valor fixo, neste caso até os 86€, quando têm de se deslocar ao continente. No entanto, como se sabe falta regulamentar a forma como será efetuado o pagamento às companhias aéreas da parte da tarifa remanescente e que ficará a cargo do Estado, de modo a que os madeirenses não tenham que adiantar no ato da compra do bilhete de viagem. Já ouvimos declarações de uma das companhias aéreas, que mostra muitas reservas e pouca abertura à implementação deste sistema, e não desejamos correr o risco de assistir à sua saída de rota. Os pormenores dessa regulamentação têm de ser devidamente ponderados de forma a não criarmos outros problemas, a exemplo do modelo presentemente em vigor.

Foto Rui Marote.

FN: Dá mais gozo ser deputado na Assembleia Municipal do Funchal, como o foi desde 2017, ou ser deputado da Nação?

M.F: São situações totalmente distintas, e tenho gosto em participar em ambas.

Na Assembleia Municipal debatemos as questões do município, e como funchalense foco-me na minha cidade e nas medidas relacionadas com a mesma, com vista a obtenção de qualidade de vida e de desenvolvimento dentro do concelho do Funchal. Na Assembleia da República, assumimos uma maior responsabilidade atendendo à abrangência nacional dos conteúdos, obrigando-nos a uma dedicação exclusiva, para preparação e acompanhamento dos vários dossiers.

FN: Faz sentido o PS ter um Departamento de Mulheres Socialistas, a cujo secretariado pertence? Porquê?

MF: O Departamento das Mulheres Socialistas procura integrar mais mulheres no debate político, que em tempos, ainda recentes, se viram excluídas de participar e isso culturalmente e politicamente teve as suas consequências. É preciso trazer mais mulheres para a participação política e criar canais para as integrar nessa mesma participação. Haverá um tempo, que expectamos, em que esta questão esterá normalizada, e que as Mulheres Socialistas poderão dedicar-se mais a outros projetos, como temos feito até agora paralelamente. São exemplo as iniciativas para a igualdade de direitos; as sessões de esclarecimento e de debate com a sociedade civil. Recentemente concretizámos a formação direcionada aos cuidadores, mas também organizámos debates com várias temáticas, desde a violência; aos cuidados; à pobreza e à cultura. Também nos preocupa as matérias que dizem respeito ao ambiente, à educação, saúde e economia que são transversais, e nas quais desejamos trabalhar e debater ideias. Enfim, considero que o Departamento Mulheres Socialistas permite dar voz às questões que são preocupação das mulheres, maioritariamente. As mulheres, como é natural, e por estarem inseridas num contexto social, têm uma visão, por vezes, diferente das situações, e as suas propostas podem enriquecer o debate político e daí sair uma solução mais bem estruturada, equilibrada e completa.