A formiga Thomas Cook

 

Um dos maiores operadores turísticos mundiais é o Grupo Thomas Cook, que ostenta o nome do fundador. Em 1841 Grupo Thomas Cook organizou a primeira excursão turística de que há memória na Inglaterra. Na década seguinte estava a organizar excursões pela Europa, e posteriormente aos Estados Unidos e Egito, beneficiando das extensas linhas de comboio e dos navios a vapor. Um século depois estava a operar as suas próprias aeronaves. Nos anos 90 incorporou várias companhias aéreas (Flying Colours, Airworld e British Caledonian) no que se tornou a JMC, iniciais do filho e sócio de Thomas Cook. Passou a ser um grupo de viagens integrado verticalmente, juntando o braço aéreo, retalho e operação.
Os efeitos do 11 de setembro foram drásticos, mas a empresa sobreviveu à quebra abruta do mercado do turismo
Em 2007 fundiu-se com o grupo competidor MyTravel, tornando-se um gigante capaz de ombrear com o Grupo TUI. Atualmente conta com 21 000 empregados.
No mês passado a chinesa Fosun, maior acionista do Millennium BCP e dona da seguradora Fidelidade, anunciou a compra de uma participação de 75% na Thomas Cook. A Fosun detém o famoso Club Med e não surpreende que esteja interessada na rede de retalho e clientes da Thomas Cook. Já há mais de um ano que se sentiam dificuldades neste grupo turístico e as ações vinham a cair a pique. Contudo, os 450 milhões de libras da Fosun representam apenas metade do capital necessário para suster o Grupo Thomas Cook até ao final do ano. Nem o prejuízo que o Grupo TUI tem sofrido com “grounding” do Boeing 737MAX lhe serve de alento. Um dos problemas estruturais é justamente o braço aéreo. Evidentemente, constitui uma força competitiva ímpar poder controlar o transporte até ao destino e obter a quase totalidade da receita de um pacote turístico, mas também implica um peso elevadíssimo em custos operacionais. Não admira que os chineses apenas tenham querido colher 25% da parte aérea.
A frota da Thomas Cook conta com as 34 aeronaves da Thomas Cook Airlines (Reino Unido), 42 da Condor Flugdienst (Alemanha), 13 da Thomas Cook Airlines Scandinavia (Dinamarca) e 6 da Thomas Cook Airlines Balearics (Espanha). A Thomas Cook Airlines Belgium fechou em 2017. A operação turística foi absorvida pela Brussels Airlines (Grupo Lufthansa), que não interrompeu a rota de Bruxelas para a Madeira.

Boeing 757-300 da Thomas Cook / Condor (Crédito: José Freitas)

Ao longo deste ano a Thomas Cook tem ativamente tentado alienar a parte aérea, sem sucesso. Pretendia a Thomas Cook que os eventuais novos acionistas dedicassem os meios aéreos ao negócio da anterior proprietária, uma oferta de rentabilidade dúbia. Apenas a Lufthansa mostrou um pouco entusiasmado interesse pela reaquisição da Condor, da qual foi fundadora há muitos anos.
Os próximos dias serão críticos para a sobrevivência da Thomas Cook. O Verão IATA está a acabar e a formiga luta – bravamente – para acumular provisões. No aeroporto da Madeira ouvir-se-á um ensurdecedor silêncio à quinta feira, se esta potência do turismo colapsar.