No início de mais um ano lectivo, o Funchal Notícias dá-lhe a conhecer a experiência de uma professora madeirense que lecciona na Universidade de Évora. Noémi Marujo, licenciou-se na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e foi para Évora em 1997. Leia o relato na primeira pessoa:
“Vim para Évora em 1997, mas procuro manter sempre as minhas raízes culturais. Tal facto, está de certa forma visível nos meus discursos (aulas, conversas, debates, etc.) onde não deixo esconder o meu sotaque madeirense. Está presente nas fotos da cultura madeirense que coloco nas redes sociais, nas minhas viagens à ilha da madeira onde juntamente com familiares e vizinhos procuro recordar vivências culturais. Recordando a bela frase do Antropólogo José Cutileiro: Ser Culto é ser de um Sítio! Ou seja, é reconhecer os hábitos ou costumes da comunidade à qual se pertence ou pertencemos. Por isso, sou uma madeirense que valorizo o lugar onde eu nasci e cresci, que aprecio a minha cultura.
Na minha juventude as minhas viagens turísticas eram realizadas através dos livros. Era uma leitora turista que viajava sem sair do lugar. Não havia televisão para ver programas como o da Teresa Conceição “ir é o melhor remédio”, não havia dinheiro para viajar. Tinha 14 anos quando a luz chegou à minha aldeia e, por isso, eu viajava através dos livros que ia conseguindo, especialmente, através de bibliotecas. Em cada leitura um sonho, em cada leitura a construção de imaginários sobre os lugares que os autores descreviam. O poder das palavras fascinava-me e a minha mente via nelas um bilhete de partida para lugares mágicos.
Com a “Aparição” de Vergílio Ferreira fiquei a conhecer Évora logo no Capítulo I onde passo a citar o autor: “Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. Nos meus membros espessos, no crâneo embrutecido, trago ainda o peso de uma noite de viagem. Um moço de fretes abeirou-se de mim, ergue a pala do boné: É preciso alguma coisa, senhor engenheiro? Dou-lhe as malas, digo-lhe que há ainda um caixote de livros a desembarcar”.
Mal sabia eu que um dia, também, vinha parar à bela cidade de Évora carregada de malas e com caixotes de livros para ler e ensinar. Hoje, talvez tenha uma “costela” alentejana, mas o meu sotaque madeirense ninguém o tira. Esse faz parte do meu ser, da minha identidade cultural. “Estepilha”…como eu adoro ser uma madeirense com sotaque na Universidade de Évora. Que venha mais um ano lectivo”.
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