O Cavaleiro monge

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Decidi, contra a minha natureza, seguir como o “Cavaleiro da Triste Figura”, que alguns dizem também ter sido inspirado no canto antigo de Camões: “A rústica contenda desusada”.

Uma primeira nota, a declaração prévia de intenções: fui, sou e serei franciscano. Para mim o último dos homens merece o respeito dado aos primeiros; a natureza não é uma coisa que se possa usar e descartar; a fraternidade universal é o mar da minha viagem.

Segunda, a Filosofia foi-se tornando ao longo do tempo um segundo amor.

Vamos então enfrentar os gigantes. Perguntaram-me em que me baseio para afirmar que os Exames de Filosofia em Portugal são ideologicamente orientados, o que será uma traição à educação, à filosofia e à criação de uma sociedade livre no pensamento e na ação. Basta olhar o último Exame de Filosofia, da segunda fase.

Olhemos, então, a questão 9 do Grupo I. É apresentado um texto de Nigel Warburton, em que pretensamente se critica a teoria da justiça de John Rawls. Rawls defendeu que, se formos racionais, vamos tentar, naturalmente, criar uma sociedade livre em que os que têm menos tenham o máximo possível. Porque, na lotaria social podem-nos calhar os últimos lugares. Ora, no referido texto, Walburton diz que há pessoas que estão dispostas a criar uma sociedade, em que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, e arriscam porque podem vir a ser um dos mais ricos.

Bem, em que é que isto põe em causa a Teoria da justiça de Rawls? Em nada! Rawls diria que esses são irracionais. Se a racionalidade for uma característica diferenciadora do humano, digo eu, então tiremos a conclusão que for necessária.

Perguntarão os leitores, mas onde está o pecado? Está em acordar nos mais jovens a ambição de participarem na criação de uma sociedade maximamente desigual, na expetativa de virem a ser premiados com os lugares superiores.  A húbris também faz parte de nós, os humanos, mas precisamos de controlar os próprios impulsos, a violência das paixões desenfreadas. Uma das funções dos exames também é educar e não alimentar os nossos vícios. Apontar horizontes que enobreçam os humanos e não o contrário!

Dirão os moinhos: isto são só palavras, retórica, um jogo, uma brincadeira. Sim, mas podiam brincar às casinhas, construindo as bases da liberdade, temperadas com a igualdade e a fraternidade e não as bases da tirania dos mais fortes, que usam a linguagem e o pensamento como instrumento de dominação dos ilustrados sobre os mais desatentos, dos humanos sobre os não humanos.

Esta melodia insidiosa, que a escola também ecoa, é compatível com os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio definidos pela ONU?

OBJECTIVO 1: Reduzir a pobreza extrema e a fome

OBJECTIVO 2: Alcançar o ensino primário universal

OBJECTIVO 3: Promover a igualdade de género e o empoderamento das mulheres

OBJECTIVO 4: Reduzir a mortalidade infantil

OBJECTIVO 5: Melhorar a saúde materna

OBJECTIVO 6: Combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças

OBJECTIVO 7: Garantir a sustentabilidade ambiental

OBJECTIVO 8: Criar uma parceria mundial para o desenvolvimento

Sinceramente, fico envergonhado de ser, como professor de Filosofia, associado a esta pandilha, tutelada por um Ministério da Educação que não se percebe, a este respeito, o que anda a fazer.