José Manuel Rodrigues diz que “o CDS não deve ser nem muleta do PSD nem bengala do PS, Albuquerque foi uma desilusão e Cafôfo é uma ilusão”

José Manuel Rodrigues
“Cafôfo representa a ilusão, a mesma ilusão que Albuquerque representou em 2015. E há uma situação engraçada, o Dr. Miguel Albuquerque diz que fez tudo e o Dr. Paulo Cafôfo diz que vai fazer tudo”. Foto Rui Marote

José Manuel Rodrigues fez e continua a fazer um percurso de oposição ao Governo Regional, sempre no CDS Madeira, onde foi líder, cabeça de lista nas eleições regionais entre 2000 e 2015. Homem de comunicação, jornalista, deu os primeiros passos na informação escrita, fez uma incursão pela rádio e ficou conhecido quando passou pela televisão, na RTP Madeira. Daí até à entrada na política, foi um passo, já sabia como comunicar, só faltava mesmo aplicar essa vantagem na dialética partidária. Foi o que fez e não se deu mal com a opção.

Hoje, lidera o conselho económico e social do partido, tem o peso de elaborar um programa de governo neste enquadramento de liderança de Rui Barreto, uma missão difícil, mais um desafio que tem uma palavra chave para o que pretende como meio para chegar a um fim, o sucesso pleno, que significaria a governação. Essa palavra chave é a sustentabilidade. Em todas as vertentes, desde a Económica à Saúde, passando pelo Ambiente.

Não dar nada por adquirido é (também) alerta ao PSD

Olha para o futuro próximo e aquilo que consegue garantir é empenho do CDS numa solução de futuro. Não dá nada por adquirido, o eleitorado manda, nem deixa que o “namoro” à direita seja, também ele, uma garantia de “casamento”, referindo-se ao que virá a seguir ao dia 22 de setembro, o dia das eleições regionais como se sabe. Não deixa de ser um alerta, ainda que indireto, ao PSD-M, lembrando a quem porventura esteja menos atento, que o CDS passou a vida a lutar contra o PSD e as suas políticas.

José Manuel Rodrigues assume a liderança do CDS/M, em 1997, depois de Ricardo Vieira. A luta era pela Autonomia mas contra a governação do PSD, que apesar de ter aspetos positivos, como seja a satisfação das condições básicas dos madeirenses, tinha outros negativos que correspondiam ao abandono dos setores produtivos e à excessiva dependência dos apoios nacionais e da dívida. “Viu-se, depois, que o modelo de desenvolvimento estava errado ao ponto de desembocar na dívida de quase 7 mil milhões de euros”, lembra.

CDS passou a segunda força política

O antigo líder centrista recorda tempos difíceis, apesar da vantagem que trazia, referindo, por um lado o facto de ser conhecido pela passagem na televisão, por outro a capacidade de comunicar. “Ajudou-me muito e em 2000 passámos de dois para três deputados e em 2004 perdemos um deputado. Depois, foi um percurso na tentativa de construção de um projeto alternativo ao PSD, mas também alternativo à esquerda. E foi aí que o CDS passou a segundo partido da Região, aumentando de dois para nove deputados, estatuto que manteve em 2015 mesmo com a chegada do Dr. Miguel Albuquerque ao poder no PSD”.

Albuquerque ficou a meio da ponte

Consciente do cenário político na época em que houve a transição na liderança social democrata, deixa presente uma realidade desse passado que assentava sobre as lideranças e as alternativas colocadas com a saída de Alberto João Jardim, sublinhando que “as pessoas viram no Dr. Miguel Albuquerque uma alternativa ao Dr. Jardim, o que a oposição não tinha”.

Vistas bem as coisas, recorda, “a maioria de 2015 foi um mau resultado para o PSD, foi uma maioria absoluta conseguida por 12 votos e um deputado. Mas pronto, foi uma maioria na mesma”. E tem dúvidas em afirmar, relativamente à então propalada renovação do PSD, que “o Dr. Miguel Albuquerque ficou a meio da ponte e não sabe se volta atrás ou se segue em frente. Mas o mais natural é que volte ao ponto de partida, uma vez que já estará consciente que se seguir em frente com a renovação corre o risco de perder as eleições”.

A máquina do jardinismo não podia ser desmontada em meses

Diz que essa “falha” na estratégia social democrata pós Jardim tem uma explicação com a “falta de coragem política de ir até ao fim com a renovação>” daquilo a que podemos classificar de jardinismo. “O Dr. Miguel Albuquerque devia ter percebido e não percebeu que o Dr. Jardim tinha a máquina montada de 40 anos de governação. A máquina do jardinismo não podia ser desmontada em meses e o Dr. Miguel Albuquerque quis acabar com o jardinismo rapidamente, mas ao fazê-lo provocou demasiados anticorpos dentro do próprio PSD. Houve mesmo eleitorado do PSD que votou noutros partidos, quer nas regionais, quer nas autárquicas, não é por acaso que o Dr. Paulo Cafôfo ganha as eleições para a Câmara do Funchal. Sem dúvida que a transição no PSD deveria ter sido mais gradual. E agora, chegámos a um ponto em que o Dr. Miguel Albuquerque viu que não é possível fazer qualquer renovação e vai voltar ao ponto de partida. Até em termos de modelo de desenvolvimento e da entrada do Dr. Pedro Calado para o Governo, nota-se que há um regresso do jardinismo ao poder na Madeira”.

Jardim responsável pela falta de alternativa

As razões que levam a esse olhar para o PSD como alternativa, colocou a oposição numa realidade pouco confortável ao longo dos anos, sempre à procura de ser alternativa mas sem alternativa para esse desempenho com sucesso. José Manuel Rodrigues diz que “o primeiro responsável do insucesso da oposição foi o Dr. Alberto João Jardim, dos méritos que teve ao longo destes 40 anos. Foram 28 mil milhões de euros espalhados por toda a ilha, em obras públicas, rede viária, água, eletricidade, saneamento básico, habitação, mas também alguma loucura com as sociedades de desenvolvimento, com a criação de piscinas em tudo quanto é sítio e uma data de asneiras que levaram à derrocada do Dr. Jardim. A outra razão é que o Partido Socialista nunca se impôs enquanto alternativa, tanto assim que o CDS, numa posição mais atrás, consegue ser segunda força em 2000 e 2015. O PS sempre teve uma estratégia errática e em momentos históricos de defesa da Autonomia, sempre esteve mais perto do Terreiro do Paço do que da Madeira”.

Há um eleitorado que vai premiar quem defende interesses regionais

Esse cenário aqui descrito também tem a ver com o PS da atualidade? “Também. Acho que esta excessiva colagem do PS Madeira à governação nacional não é positiva. O Dr. Paulo Cafôfo, enquanto candidato independente, se bem que intervindo diariamente na vida do PS, teria manobra suficiente de distância em relação ao Governo da República, que ficou longe de resolver um conjunto de problemas da Região, casos das taxas de juro, do subsídio de mobilidade, do “ferry”, do pagamento dos subsistemas de saúde. Não se distanciou na altura devida e o resultado viu-se, de certa forma, nas europeias. Há um eleitorado que defende a Autonomia, sabe o que era o antes e o depois dessa Autonomia e que vai premiar quem defende os interesses regionais, castigando por consequência quem descurou a defesa dessa Autonomia e o facto do primeiro ministro não ter resolvido as questões essenciais”.

Há certa influência das lideranças nacionais nas estruturas regionais dos partidos

José Manuel Rodrigues
“Até em termos de modelo de desenvolvimento e da entrada do Dr. Pedro Calado para o Governo, nota-se que há um regresso do jardinismo ao poder na Madeira”. Foto Rui Marote

Mas é aqui, nesta relação Madeira/Lisboa, que José Manuel Rodrigues deixa um alerta para todos os partidos. Não deixa de fora, também, o CDS, logo a crítica encaixa um pouco na globalidade. Afirma-se preocupado com o que vê, relativamente a “uma certa influência das lideranças nacionais nas estruturas partidárias regionais”. Suaviza a parte que lhe toca, do CDS, mas não o retira deste “barulho”, prefere olhar para os “vizinhos” em termos partidários, na tal influência sobre candidatos. “Não vejo como é que isso defende a nossa Autonomia. Se bem que esta nossa Autonomia ainda esteja sequestrada no Terreiro do Paço. E isso explica-se com a dívida que temos e que é impagável. Tudo parece estar nas mãos do Governo da República. Isto entronca numa questão que tenho vindo a defender e que considero como problema número um da Madeira, para além da Saúde, que é a sustentabilidade das finanças públicas regionais. Enquanto a Madeira não se pagar, não se manda. Ainda temos uma dívida de quase cinco mil milhões de euros e se não fossem os fundos europeus e do Estado, praticamente não tinhamos dinheiro para investir”.

Dívida deve ter uma solução política

Defende que a dívida da Madeira deve ter uma solução política. Diz que “houve muitas asneiras da Região, dinheiro gasto indevidamente”, mas também aponta o dedo à República pela existência “ de uma dívida histórica do Estado Português à Região”, lembrando que “é a Madeira quem paga os vigilantes da natureza nas Selvagens e nas Desertas quando estão numa missão de defesa da soberania, a Região está a substituir-se ao Estado e isso deveria ter compensação. Quando a Região paga um helicóptero para defender em caso de incêndios, está a substituir-se ao Estado”.

PSD representa desilusão, Cafôfo a ilusão

Neste enquadramento, para o futuro, tanto Albuquerque como Cafôfo têm tarefas difíceis pela frente. A bipolarização pode resultar numa menor representatividade de outros partidos, havendo já posicionamentos no sentido de eventuais negociações de futuro visando coligação ou entendimento de âmbito parlamentar. Para José Manuel Rodrigues, “o PSD representa, de alguma forma, uma desilusão, mexeu em tudo e não resolveu nada, é um partido que sabe a pouco. E vai perder votos e deputados em relação às últimas eleições. Do outro lado, o PS vai registar uma subida natural, não por via do trabalho que tem feito nem pela influência do Governo da República, mas sim na base de uma pessoa que, a bem ou mal, os madeirenses gostam também pelo desempenho que teve enquanto presidente da Câmara. Mas devo dizer claramente que Cafôfo representa a ilusão, a mesma ilusão que Albuquerque representou em 2015. E há uma situação engraçada, o Dr. Miguel Albuquerque diz que fez tudo e o Dr. Paulo Cafôfo diz que vai fazer tudo. Curioso. Venha o eleitorado e escolha”.

CDS deve apresentar-se como alternativa, PS é partido de um homem só

E qual o papel do CDS no meio dessa nova realidade? “Acho que o CDS deve posicionar-se como alternativa, quer ao PSD quer ao PS. Tem um projeto distinto, um programa distinto e um modelo económico diferente ao modelo defendido pelo PSD, que assenta de novo nas obras públicas e não conseguiu dar a volta no ciclo económico. O próprio setor do turismo atravessa algumas dificuldades por incapacidade do Governo em negociar mais transporte aéreo para a Madeira, temos um défice entre o número de camas e o número de lugares nos aviões.

Regionais 2019

Mas o CDS também tem pouco a ver com o PS, que neste momento vive apenas de uma pessoa. O PS é um partido de um homem só, não vejo um programa exequível, vejo-o prometer muita coisa a muita gente sabendo que não há dinheiro para aplicar. Promete o céu na terra”.

CDS será a chave da mudança nestas eleições regionais

Tanto o CDS, por Rui Barreto, como o JPP por Élvio Sousa, já vieram publicamente dizer ao que vinham nas próximas eleições, com posicionamentos assumidos, respetivamente ao PSD e ao PS, o que em termos ideológicos nem é de estranhar. Essa posição de “fiel da balança” encaixa no CDS? “Acho que o CDS será a chave da mudança nas eleições regionais. E isto quer aconteça uma vitória do PSD, quer do PS ou quer ainda do próprio CDS, as vitórias dependem dos madeirenses e estamos a assistir a alterações em toda a Europa. Aquilo que o CDS deve fazer na segunda feira a seguir às eleições é o que o povo decidir no domingo. Deve posicionar-se como partido capaz de ser governo, tem quadros, tem projeto, tem uma liderança incontestada de Rui Barreto, uma pessoa bem preparada. A pergunta para um milhão de euros é se será com o PSD ou com o PS. E a resposta será dos madeirenses. O CDS identifica-se mais com o PSD, do ponto de vista ideológico, mas é preciso não esquecer que andamos há 43 anos a fazer oposição ao PSD e neste momento até somos a segunda força política regional. O que eu digo é que o CDS deve fazer tudo para que, ganhe quem ganhar, não se estenda a geringonça de esquerda à Região. Devemos ser capazes de dialogar com o PSD e com o PS e deixar de fora o PCP, o Bloco de Esquerda e outras forças radicais”.

O CDS não deve ser nem muleta do PSD nem bengala do PS

Acompanha as críticas do antigo presidente do CDS, Ricardo Vieira, quando este afirmou que o partido, neste momento, não se assume como alternativa e contenta-se em ser “bengala” nas eleições de setembro? “Acho que o CDS não deve ser nem muleta do PSD nem bengala do CDS. E deve ir a eleições com projeto próprio e é isso que fará. Os madeirenses dirão o que querem. Acho que o Dr. Rui Barreto tem feito trabalho nesse sentido. Eu percebo que as pessoas avaliem o cenário das regionais à luz dos resultados das europeias e, nesse caso, o CDS seria o “fiel da balança”. Mas acho que para as regionais, o CDS deve ir com o seu programa e não estar antecipadamente a escolher parceiros”.

É preciso equilibrar as finanças públicas

Na preparação do programa de governo do CDS, a aplicar caso o partido vença as eleições, José Manuel Rodrigues aponta uma palavra que sintetiza a intervenção centrista em todas as áreas de uma eventual governação: a sustentabilidade. Em todos os setores. É preciso equilibrar as finanças públicas regionais, contendo a despesa e fazer crescer a receita, através da introdução de um novo regime fiscal, de baixa tributação para atrair investimento, acho que isso é possível negociar com a União Europeia. Também sustentabilidade no Turismo, não se faça crescer o número de camas para além do número de lugares disponíveis nas ligações aéreas, como aconteceu de forma desenfreada nos últimos tempos, não só através do aumento do número de camas através da construção de grandes hotéis, na vertente tradicional, quer no alojamento local que teve um crescimento exponencial. É preciso equilibrar esta realidade e viabilizar a entrada de uma terceira companhia aéreas”.

É preciso despolitizar o Serviço Regional de Saúde

Outro setor, de grande relevância e que tem vindo a suscitar aceso debate nos últimos tempos, é a Saúde. E aqui, José Manuel Rodrigues não está com “meias medidas”, vai mesmo pelo caminho de “uma completa reestruturação”. Considera que “as pessoas, hoje, não confiam no Serviço Regional de Saúde, os números são assustadores, termos 100 mil atos médicos por praticar, sendo que 22 mil são cirurgias, num universo de 255 mil habitantes, é inimaginável. Atingimos um ponto de colapso e rutura no Serviço Regional de Saúde. E será preciso investir mais, não só no novo Hospital, mas nos serviços”.

Considera que “temos grandes quadros, médicos, enfermeiros e assistentes operacionais, mas há um esgotamento absoluto. Será necessário recrutar recursos humanos fora, técnicos. Mas acima de tudo, é preciso despolitizar o Serviço Regional de Saúde e torná-lo mais transparente aos olhos das populações. As pessoas devem ter a perspetiva clara, em casos mais graves, que veem o seu problema resolvido mesmo que o setor público não esteja a dar resposta. No espaço de seis meses, se o setor público não conseguir resolver, mesmo em caso de cirurgias não urgentes, deve recorrer-se ao setor privado, através de acordos com os grupos de saúde a operar no mercado. Não é preciso comprar hospitais”.

José Manuel Rodrigues
“Acho que o CDS será a chave da mudança nas eleições regionais. E isto quer aconteça uma vitória do PSD, quer do PS”. Foto Rui Marote

A sustentabilidade ambiental é outro setor que José Manuel Rodrigues defende enquanto atenção particular num programa de governo. Aponta a importância de haver “uma preocupação pelo ordenamento do território, que não tem havido”, salientanto, já na componente da formação, uma aposta na “qualificação dos nossos recursos humanos. Continuamos a ter elevadas taxas de abandono escolar e devemos atuar contra isso. Temos a Educação regionalizada, mas está praticamente igual ao modelo em vigor no continente. Pessoalmente, sou defensor do sistema dual que hoje é praticado na Alemanha e na Áustria, onde a partir de um determinado momento e face aos resultados do aluno, nas provas e nos exames, é canalizado para o ensino técnico profissional”.

Diz não ser preciso “que toda a gente seja formada. Repare que neste momento temos falta de recursos humanos em determinadas funções, casos da hotelaria por exemplo. Há uma disfunção entre o ensino superior e aquele que é o mercado de trabalho. A Universidade da Madeira deve ter uma interação muito maior com a sociedade civil e com as empresas. Não é possível que uma Universidade, que já tem décadas, só agora tenha um curso de turismo”.

Bónus ao residente para procurar a passagem mais barata

Finalmente, um assunto que também estará reservado para o próximo Governo Regional, o modelo de mobilidade, aérea e marítima. “A proposta que está na Assembleia da República é a ideal, o residente paga 86 euros e o estudante paga 65 euros. Mas acho que vamos ter que encontrar uma solução mais concertada, com esses pagamentos apenas, mas com a introdução de mais concorrência em termos de operadoras tendo em vista preços mais baixos. Houve um erro crasso ao colocar na resolução o pagamento do subsídio até 400 euros, o que foi um convite a que as companhias puxassem os preços para os 400 euros. Além disso, também julgo necessário ter em conta, para o futuro, a aplicação de um incentivo, um bónus ao residente, para motivar a procura por viagens mais baratas. Se não for assim, caro ou barato paga sempre 86 euros. E com isto, pode haver o risco do modelo, um dia, ser posto em causa”.

Quanto à mobilidade marítima, José Manuel Rodrigues acha que “o processo deve ser articulado com as necessidades do mercado, nos passageiros e na carga. Também gostava de ter um ferry todo o ano, mas é preciso avaliar bem do ponto de vista político e económico e até com intervenção da União Europeia. Nas atuais circunstâncias, dificilmente poderemos ter ferry além dos meses de verão”.