Travessia no deserto

A festa da reintegração da Paróquia da Ribeira Seca na Diocese do Funchal no passado domingo, 14 de Julho de 2019, fica marcada nos anais da história da Madeira e da Diocese do Funchal, como um marco muito importante na vida da Igreja do Funchal.

Tudo convergiu no sentido do bem que se pretendia. Uma festa em grande como mereciam os protagonistas, o Povo da Ribeira Seca, o Pe Martins Júnior e o Bispo do Funchal Nuno Brás. Tudo numa enorme alegria reconciliadora, como devem ser todos os momentos de reconciliação e de perdão.

Cheguei a verter lágrimas. A emoção era forte. Pois, um sonho que alimentava há muitos anos e que os meus olhos meios embaciados de lágrimas puderam ver. Ainda mais se pensava todas as vezes que lá fui visitar o povo, celebrar o pão do encontro fraterno na Eucaristia, me sentia um clandestino, um desalinhado que violava uma situação, mesmo que a achasse absurda e anti-evangélica. O peso do ambiente e dos contextos tem sempre uma força psicológica sobre nós que nos domina, por mais que pensemos que estamos no caminho certo. As circunstâncias sempre empatam ou aceleram a vida. Não deve ser por acaso que para esta referência, vale aqui salientar o que diziam algumas vozes populares no meio da festa: «pensavam que nós éramos índios»; «pensavam que nós não tínhamos o divino»; «somos gente como toda a gente»… Nunca pensei isto, felizmente.

Mas, adiante, a festa está feita. Agora, tempos e modos novos são esperados no pensar e no agir de todos.

Agradeço muito o acolhimento e amizade das pessoas da Ribeira Seca, que sempre me entusiasmaram e nunca faltaram com a sua simpatia e gratidão para comigo. Foi um bálsamo de coragem e persistência. E são, para quem tem olhos de ver, uma inspiração e uma luz evangélica viva neste tempo que é o nosso.

Não queria também deixar de salientar dois bons propósitos em dois pensamentos dos dois principais intervenientes, que expressam excelentes sentimentos, e é o espelho da boa vontade e da reconciliação.

Primeiro, o Pe Martins Júnior falou de uma « travessia no deserto» que esta paróquia fez. Mas, acrescentou: «nunca nos sentimos deserto». Depois, fica o desejo seguro para toda a Igreja diocesana: «Vamos continuar a aprofundar o papel do cristão dentro da Igreja e com a nossa boa vontade de redescobrir a face de Cristo, a face da Igreja e caminhar para as fontes do Evangelho, para as origens, nós queremos imitar o Papa Francisco que quer realmente entrar nos caminhos do autêntico Evangelho».

Segundo, por seu lado, retenho do bispo Nuno Brás, o que revelou de essencial ao confessar a vontade que tinha de «celebrar a Eucaristia» na Ribeira Seca. Disse, «Desde que cheguei à Madeira, pedia a Deus esta graça». Na homilia, o bispo afirmou que ainda o seguinte como sinal do tempo novo e o modo novo que se inaugurava: «não faz sentido não nos aproximarmos uns dos outros e de todos aqueles que precisam de Jesus».

Este é o retrato principal deste acontecimento que guardarei para sempre no pensamento e no coração. Muitos não perceberam ainda o real sentido e significado deste encontro. Não mal. O bem não é para muitos e quando ele acontece só faz falta quem se abraçou a ele com convicção e autenticidade.