O que é isto?

Sou antiga, de cinquenta décadas de escrita e vivo o enigma dos dias com a curiosidade dos inquiridores, dos que, a todo o momento dão graças à vida e perguntam.  Perguntam sempre: O que é isto? Que nome é este que se evola no espaço como uma emanação dos deuses, uma bolha de espanto, um soluço de vento? Que «música calada» ou «solidão sonora» é esta que  brotou do Cântico espiritual  de S. João da Cruz; que fórmula ou chave faz abrir a memória do «espaço vital do sagrado», palavra de ordem da criação? Que «edificação» é esta que materializa o imaginário e se propõe agitar e transformar o mundo ?

Deram-lhe vários nomes, mas o que responde genericamente a esta interrogação é: Poesia. Ninguém sabe o que (ou quem)  ela é; será uma espécie de entidade assexuada cuja beleza arrebata quem dela se aproxima. Andam à sua volta os espíritos ansiosos, abalados por ondas de sensações indescritíveis, querem-na ao alcance dos seus impulsos, absorvem-na, massacram-na, amantizam-na, na mais incontrolável pulsão dos seus intensos amores. Que nome para os poetas – pergunta Maria Zambrano ? «Perdidos na luz, errantes na beleza, pobres por excesso, loucos por demasiada razão, pecadores sob a graça». São assim os poetas, seres permanentemente apaixonados, capazes de actos heroicos e incontornáveis entregas ao móbil desta paixão. No turbilhão dos seus largos amplexos, abarcam o mundo, envolvem todos os domínios e fronteiras, bichos e gentes, benefícios e maldades, até às regiões alcantiladas do mito e da transcendência. E tudo isto é legítimo, porque os poetas são seres que aspiram aos territórios sem demarcação. Daí advém o serem rebeldes, inquietos e resistentes, por mais serenos e flébeis que pareçam. Todos sabem que os poetas enganam, «fingem que é dor a dor que deveras sentem». Eu diria «tantas vezes fingem que é mansidão a rebeldia que deveras sentem». Porque a Poesia exprime-se por uma condição do absurdo e do assombro, não está visível nas palavras, mas no que se vislumbra entre elas, no que se esconde na sua sombra, nas vibrações que se pressentem nas entrelinhas dos versos.

É por tudo isto que a Poesia habita num lugar de silêncio. É por tudo isto que os vendedores de livros os relegam muitas vezes para os lugares mais esconsos das livrarias, ou expõem-nos a medo. Poucos os elevam à luz da vontade de os dar a conhecer. Por serem pouco visíveis, são menos procurados, menos lidos, menos desejados e amados. Sorte adversa !

Há uma confusão instalada sobre a forma de como se veste a Poesia ou se habilita a narrativa. Sobre isto alguns autores pronunciam-se, afirmando a componente poética e rítmica das suas obras de ficção. Mia Couto declara: « levo poesia às pessoas através das histórias, dos romances». Hélia Correia refere Sólon, que escreveu em verso a primeira constituição política do mundo, «porque tudo então se chamava poesia. Em qualquer destas formas de escrita se alcançam mundos que a física e o tempo nos proíbem». Há, no entanto, na escrita de ficção, uma larga corrente, enquanto a poesia se concentra numa pequena gota, redonda e irisada. Hélia Correia usa uma imagem curiosa do arado, que dá uma volta para a linha seguinte e torna a voltar.

Vários motivos convergem para a indiferença generalizada dos leitores pela poesia. Uma afirmação drástica revela a aura crítica de Mário Cláudio, que o leva a expressar-se a este respeito com alguma acutilância: A falta de interesse pela poesia, diz o escritor, poderá também dever-se a haver poetas a imitarem-se uns aos outros, escreverem segundo uma receita, como os helderzinhos.*

Ainda que possamos não estar de acordo com algumas asserções, precisamos de estar atentos aos mais experientes e aos seus arremessos e não esquecer o que disse Almada Negreiros:  «os olhos da nossa memória vêm melhor do que os nossos olhos», um necessário apelo ao conhecimento histórico que determina a clarividência com que é necessário compreender e discernir as várias incidências do tempo sobre as obras dos criadores.

A Poesia supera sempre as rupturas, porque se afirma intemporal e é, como a água,  transfigurável na sua continuidade. Da gota à torrente, à neve, à nuvem, tudo é água transfigurada.

 

*Jornal de Letras, 10 a 23 Abril, 2019