Os grandes pilares

A Arte significa , numa primeira abordagem, uma fala do coração, na medida em que este órgão será, no dizer de Maria Zambrano, a «víscera mais nobre», pelo poder que detém de determinar o vasto horizonte onde se projectam as grandes, inesperadas e incontroláveis emoções. Enquanto a ciência tecnológica não for capaz de provar a inutilidade dos mitos, a inexistência do inefável ou o conceito dualista de Descartes, é ao coração que se atribui a fonte do sentimento, a energia que move os criativos na produção das suas obras.

Rememoro dias passados, horas de irreprimíveis deslumbramentos diante dos grandes pilares que a história consagra como testemunha efectiva da arte dos povos. Numerosos são os ícones que se erguem nas cidades, lugares da nossa radicação enquanto seres sensíveis e pensantes, elaborando ao longo dos séculos o que eu gostaria de chamar a beleza do mundo: as formas que traduzem, além do pensamento, o sentimento profundo, os nossos estados emotivos; a nossa capacidade de deixar falar o coração.

Prossigo nesta crónica pelos caminhos do inefável e afirmo os abalos que se têm experimentado perante a grandeza das catedrais que marcam nos territórios o ponto geodésico da espiritualidade, à volta do qual se alargam as urbes sem descurarem o sentido das vias que directamente  lhe dão acesso. Em qualquer cidade estas significativas matrizes marcam o centro do diâmetro  urbano que determina o acesso à sua história mais remota. É toda a carga dum tempo de séculos que marca a vida intensa das catedrais, simultânea com a do próprio povo, coabitando com suas glórias, alegrias, dramas e tragédias. Diante delas poucos passarão indiferentes a esse toque inspirador que terá marcado os seus construtores na concepção das formas,no significado dos elementos arquitectónicos, no simbolismo da figuração. A monumentalidade que as ergue a grandes alturas e as dimensiona a notáveis volumetrias e conceitos ornamentais, coloca-as num lugar cimeiro da História da arte. Elas são a mais alta representação do inefável, no que as palavras não podem exprimir, no que o sentimento contém de transcendental, em procura de atributos de beleza e perfeição superiores aos níveis terrenos. Atributos que determinam a memória espiritual do divino, da existência duma realidade anterior ao pensamento, uma realidade inabarcável pela razão, só possível de captar através da «metáfora».

Santa Maria del Fiore, o Duomo de Forença, jóia de pedra tricolor, surpreendeu-me até às lágrimas quando me deparei com tal grandiosidade e beleza ao fim da estreita Via Panzani ; Chartres e o seu rendilhado gótico, Reims, Rouen, Amiens; até a Basílica de Saint-Sernin, a maior igreja  românica, que domina Toulouse, robusta, de paredes sóbrias e lavadas, todas elas deixam uma marca indelével na memória de quem um dia  as viu.

Notre Dame, simplesmente Notre Dame, é a de Paris e parece não haver outra. É aquela de origem celta que ao longo do tempo se ornamentou de diversas vestes, que viu nascer a França dos cruzados e dos mártires, da língua d´OC e dos romances provençais, que viu agir o povo contra opressores, jacobinos e girondinos pela disputa do poder; a dos pardais e do musette, dos bas-fonds e das Tulherias, da luz e da treva, da Europa e do mundo. Notre Dame de todos, dos crentes e dos incrédulos.  Um  símbolo do perdurável, que se sobrepõe às épocas e todos aproxima pelos subterfúgios da arte e pelos eflúvios do coração.

Que terá acontecido aos sinos de Notre Dame quando o fogo, agora, a invadiu ? De repente  Quasimodo ressurgiu do fundo dos séculos, sem que de nada valesse o amor e o zelo com que deles cuidava. Quasimodo, o corcunda coração-de-ouro, terá voltado a chorar, por uma vez mais, na utopia da história com foros de premonição. A sua catedral devorada pelo fogo, ao fim de seis séculos. Que espécie de mistério envolverá as primícias da arte e do coração para que se enleiem os dois, nos dramas inexplicáveis da humanidade?

Ainda lá estão, embora abalados, os seus pilares. «Ressurgir» é palavra de ordem. «Ressurreição» é a esperança que a Páscoa transporta no tempo que se vive, no momento, em todo o mundo cristão.  O mundo onde o divino toca o terreno de um modo inusitado e inexpugnável.