Abril, artes mil

Durante o ano de 1974 (tendo o seu ponto alto a 25 de abril) e estendendo-se pelos anos seguintes, diversos acontecimentos marcaram a vida da sociedade portuguesa, em variadíssimas áreas, diria mesmo, em todas. Influenciando largamente diversos campos do conhecimento. Por isso, é que hoje vivemos, felizmente, num país com liberdade de expressão artística. Mas nem sempre foi assim.

Na verdade as artes aproveitaram – e bem –, a revolução dos cravos, criando e apresentando diversos produtos artísticos, o que contribuiu para mudar, para melhor, a mentalidade dos portugueses nos tempos que se seguiram ao 25 de abril.

Pois “a arte saiu à rua ainda ia a meio o dia 25 de abril de 1974 e nos meses que se seguiram quem cantava, escrevia, pintava, representava, filmava, grafitava ou desenhava, aproveitou a liberdade como nunca. “ Fonte: https://www.dn.pt/artes/interior/a-arte-na-revolucao-de-abril-e-fizeram-isto-tudo-em-dois-dias-9254725.html.

Digamos que,  de certa forma, o 25 de abril, foi também uma revolução feita à medida dos criadores artísticos, dando-lhes asas para voarem à sua maneira, com mais criatividade e expressão artística, para a elaboração e apresentação pública dos seus trabalhos.

Hoje, admiramo-nos, ou não, com foi possível que através do simples gesto popular de colocar um cravo no cano de uma espingarda, mudou-se democraticamente um país. Provavelmente, esse primeiro gesto, dê-nos a coragem e o direito de revindicarmos cada vez mais, outras situações que nos apoquentam nos dias de hoje.

Na época, apesar da terrível censura sobre as artes em geral, o cinema, o teatro, a música, a literatura, deram a conhecer às pessoas o que estava a acontecer no país. Nomeadamente, no teatro, a censura teve uma mão férrea, ao cortar cenas inteiras, com o famoso lápis azul, ou mesmo a proibir a estreia de espetáculos, depois de avultados investimentos feitos pelas companhias teatrais.

Sabemos lá, ao certo, o número de edições que foram proibidas pelo regime de então, entre elas estava a “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia.

Há uma questão que podemos colocar: será que atualmente, o trabalho artístico, também é condicionado por um certo grau de liberdade de expressão? Muitos, dirão que não! Mas julgo que em parte, sim. Pois, quase tudo está politizado no nosso país e a área da criação artística não é uma exceção à regra.

Nas belas palavras de Sophia de Melllo Breyner “a arte deve ser livre, por um ato de criação é em si, um ato de liberdade. Mas não é só liberdade individual do artista que importa. Sabemos que quando a arte não é livre, o povo também não é livre.”

Não há dúvidas que a revolução impulsionou o aparecimento de uma nova dinâmica no âmbito da arte portuguesa nos finais do século XX, particularmente artistas como Paula Rego, Luís Pinto Coelho, Júlio Pomar e Julião Sarmento.

E por cá na Madeira, neste mês de abril a arte está também em foco um pouco por toda a região, com diversas intervenções artísticas, como o espetáculo de teatro “ O Avarento” a partir de Molière pela OFITE a 5,6 e 7 no Centro Cívico do Estreito; O Festival de Teatro de Rua do Funchal entre 11 e 13; a Mostra de Artes de Palco, entre 26 e 28, organizado pela Casa do Povo do Estreito. Mas há outras tantas propostas nas mais diferentes vertentes artísticas, é só estarmos atentos e disfrutarmos das mesmas.

Os artistas portugueses devem também surpreender cada vez mais com as suas propostas de arte e de  liberdade artística, de forma a proporcionar espaço ao espetador para procurar ou refletir a sua criatividade.

Há que deixar de implementar a arte do fingimento – que nada tem a ver com a arte dramática – e apostar nas verdadeiras artes que ajudam a mudar mentalidades e a cultivar o pensamento crítico e criativo.

Que abril seja um mês cultor de valores, um momento de artes mil e acima de tudo, tempo de uma maior democracia artística e cultural para todos.

Felizmente vivemos numa comunidade artística que cada vez mais promove o debate em torno das artes. E quando aceitamos o diálogo vivo de saberes dos poetas, dos pintores, dos dramaturgos, dos atores, dos músicos, dos artesãos, dos escultores, ganha a democracia de pessoas.

 


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