“A evolução da Europa foi uma desilusão, aumentou o fosso entre os que têm mais e os que têm menos”, convicção de Virgílio Pereira, o primeiro eurodeputado madeirense

“O fosso entre os que têm mais e os que têm menos aumentou na atual União Europeia. E quem é que se meteu a meio disto? O neoliberalismo, o capitalismo selvagem, muitos homens do dinheiro sem consciência.” Foto Rui Marote

Virgílio Pereira é uma figura incontornável da vida política madeirense. Essa vida que passou por ele como ele passou por essa vida, de forma simples, fiel aos princípios, um homem de convicções, de lutas, um social democrata de primeira hora, com um percurso que fala por si e com a certeza de dever cumprido nas diferentes missões, muitas missões, para as quais foi chamado. Disse sim, mas também disse não, mesmo quando o não representava aquilo a que popularmente podemos chamar de “carga de trabalhos”. Hoje, com 78 anos de idade, a memória não lhe falha na “viagem” pelo tempo. É um homem de presente e de futuro, mas diz que nada vale se não houver passado. Um testemunho, do homem presente e do político passado, olhando o futuro com a firmeza de sempre. Um lutador, todos os dias.

Não sou verdadeiramente político”

Assume-se “cristão, católico, apostólico, romano”. Preza muito “a liberdade e a democracia”, um homem que olhou o povo de frente, fumava um cigarro ou bebia um café com trabalhadores, dava-lhes a mão, valendo-lhe algumas críticas, de quem se sente num outro patamar, dizendo que iria perder autoridade com isso. Não perdeu tempo com essas críticas, fez o que sempre fazia. “Nunca me faltaram ao respeito”. Diz que não é “verdadeiramente político”, confessa que não se adapta “à rigidez de pensamento que um político é obrigado a ter quando é responsável por um partido, a obedecer à doutrina partidária”. Esteve e está noutra. “Estava habituado a ser professor e a ajudar os mais pequeninos a irem para a frente”.

Tenho a minha casa, um carro velho, não tenho contas na Suiça”

Sente-se “um homem feliz”. E justifica porquê: “Entrei e saí quase pela mesma porta. Tenho a minha casa, um carro velho. Não tenho contas na Suiça”. Nas “contas” da trajetória que fez, é outra coisa, há muito por contar. O professor, como era conhecido, foi docente na Escola Gonçalves Zarco, de 1968 a 1974. Esteve na Junta de Planeamento, em 75, na Junta Autónoma dos Portos entre 75 e 78, presidiu à comissão administrativa da Câmara do Funchal entre 74 e 76, foi presidente da Câmara entre 76 e 83 e mais tarde entre janeiro e setembro de 94. Foi deputado europeu entre 1986 e 1994, vice presidente do PSD-Madeira entre 99 e 2004. E muito mais. Cumpriu aquilo que dizem que se pede a um homem, fazer um filho, tem três, plantar uma árvore, plantou muitas, escrever um livro, escreveu três, o último dos quais apresentou recentemente versando “histórias como se estivesse numa conversa de amigos”. O que fez é “obra”. E por isso, orgulha-se da “obra” que fez. Mas “gostava de ter feito mais”.

Cheguei a Bruxelas, estava um frio danado, fui para a Igreja”

A Europa e as eleições agendadas para 26 de maio, são pontos de ordem para uma conversa com a dimensão do homem que temos à nossa frente, o que é, o que representa. Foi o primeiro eurodeputado madeirense, o Tratado de adesão de Portugal à CEE foi assinado em 12 de junho 1985 e o país integrou oficialmente a comunidade em 1 de janeiro de 1986. Virgílio foi para Bruxelas logo nos primeiros dias de janeiro, lembra-se bem da “aventura”. Foi indicado pelo PSD nacional, às eleições europeias já tinham ocorrido dois anos antes, por isso a escolha foi feita com base nas últimas eleições em Portugal. Essa escolha teve em conta lugares elegíveis para as ilhas.

Diz que foi para lá “à francesa”, como se fala na Madeira para expressar aquele comportamento sem grandes preocupações do que iria encontrar. “Saio do hotel, apanho um frio danado e dou comigo a correr para uma igreja, que na altura não sabia o nome, mas que hoje sei, é a Igreja de São Nicolau. Nunca assisti a tantas missas na minha vida, tinha ali um aquecedor e ali fiquei”.

No dia seguinte, conta que foi “ao gabinete dos administradores que tratam dos negócios dos grupos parlamentares e encontrei-me com o Vasco Garcia, co-fundador da Universidade dos Açores, passámos a andar juntos, fomos visitar o Parlamento, em Bruxelas, que na altura não tinha tantas reuniões como tem hoje, isto porque não existiam salas suficientes. Depois da construção, que começou eu ainda estava lá, regressei mais tarde para matar saudades”.

Não é este o projeto europeu que pensava

Naquela Europa que tinha tudo de novo para um país como Portugal, que acabava de entrar, não era propriamente uma missão fácil para a primeira representação nacional. Olha para trás, não gosta do que vê, não é este projeto europeu que tinha, em mente, há 33 anos. “Havia um senhor, que por acaso era socialista, o Jacques Delors, era um europeísta convicto, que impulsionou o contrato entre os países, na altura eram 12. Tiveram a sorte de colocar em prática o ato único europeu, que criou a livre circulação, de pessoas e bens, a introdução do Mercado Interno. Esta livre circulação trouxe uma maior dinâmica à Europa, fomentou até a criação de empresas, até na ciência teve implicações”.

Uns são mais produtivos, mas também há os que são mais ladrões

Virgílio Pereira recorda aquela que foi a matriz de pensamento dos “fundadores da Europa”: a coesão económica e social, que “ia acabar com as assimetrias grosseiras e injustas entre os países”. Uma forma de reduzir o fosso entre mais fortes e mais fracos. Hoje, estou em final de vida e por aquilo que vivi e vi, digo-lhe que haverá sempre quem tenha mais e quem tenha menos, uns são mais produtivos do que outros, mas também é verdade que uns são mais ladrões do que outros”.

“Não deixem a Europa perder na competitividade, com os outros blocos mundiais, mas também não percam de vista um dos objetivos subjacentes à construção da Europa, o de criar um bem estar social”. Foto Rui Marote

Aumentou o fosso entre os que têm mais e os que têm menos

Mais de três décadas depois, na tranquilidade da sua casa, conhecedor do mundo que viu e daquele que continua a ver, não tem dúvidas na leitura que faz sobre a Europa, hoje. “O fosso entre os que têm mais e os que têm menos aumentou na atual União Europeia. E quem é que se meteu a meio disto?, questiona e responde: “O neoliberalismo, o capitalismo selvagem, muitos homens do dinheiro sem consciência. Claro que há homens com dinheiro e conscientes, em todo o mundo, conheci alguns quando fui presidente da Câmara, que apoiaram em projetos que visavam ajudar pessoas e instituições. Mas há muita gente com dinheiro e inconsciente. O princípio de que os que têm mais devem ajudar os que têm menos, nem sempre é uma realidade, há os que têm mais e querem mais, querem só o mercado a regular. E o Estado? Para que serve o Estado? Para receber reis e rainhas? Para colocar medalhas ao peito”.

Para Virgílio Pereira “a evolução da Europa foi uma desilusão”, vê que “o poder económico suplantou o poder político” e faz a ligação deste cenário com a saída de Jacques Delors. Aponta o Tratado de Maastricht como um fator divisionista dos europeus, começou a criar dúvidas e fez a Europa transformar-se naquilo que é hoje”.

É preciso eleger políticos com consciência a favor da Europa do futuro

Olha para o futuro e, apesar de tudo, acredita que “o projeto elaborado pelos fundadores da Europa comunitária pode dar os seus frutos, desde que sejam eleitos, agora para o Parlamento Europeu, mas também nos governos dos respetivos estados-membros, políticos que tenham a consciência diferente daquela que tem vigorado nos últimos 25, 30 anos. Não deixem a Europa perder na competitividade, com os outros blocos mundiais, mas também não percam de vista um dos objetivos subjacentes à construção da Europa, o de criar um bem estar social que reduza o fosso entre a classe mais frágil e as mais favorecidas. É preciso perseguir o objetivo de acabar com a pobreza”.


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