Bloco de Esquerda analisou em debate causas e consequências da violência no namoro

O Bloco de Esquerda realizou hoje no “Espaço Paulo Martins”, na Rua dos Tanoeiros, um debate sobre a violência no namoro, moderado pela psicóloga Luísa Santos, no qual participaram o actor Hugo Castro Andrade e o professor Rui Ferrão.
A moderadora procedeu ao enquadramento desta temática, referindo que mais de 50% dos jovens reportam terem vivido situações de violência no namoro nas suas várias características: física mas também psicológica, através de controlo a chantagem. Estas são situações que, configurando violência, nem são reconhecidas como tal pelos adolescentes e até são aceites como naturais. A violência no namoro é precursora da violência doméstica, um flagelo que este ano já matou doze mulheres em Portugal, recordou.
Teatro é a arte mais completa para o desenvolvimento humano, referiu por seu turno Hugo Castro Andrade, e pode ser utilizado como ferramenta para combater a violência no namoro, que, considerou, é um fenómeno assustador. Os jovens ficam reféns das novas tecnologias de comunicação, observou, cujo lado negativo é a desumanização da comunicação das emoções e impedir as pessoas de ler e de interpretar as expressões e as emoções dos seus interlocutores.
Perante essa dificuldade de comunicar e ler emoções, afirmou, os jovens refugiam-se mais no mundo virtual, evitam o frente a frente. Quando têm problemas em casa, esse é mais um factor que os empurra para o mundo virtual. Para os pais, esta é a solução fácil: entregar-lhes um telemóvel ou um tablet e eles já não chateiam. Mas tornam-se alheados da realidade e depois na escola mantêm o alheamento.
Falta capacidade de diálogo aos pais que estão sempre muito ocupados com o trabalho, os afazeres domésticos e os seus problemas pessoais, mas também aos professores, ocupados com o cumprimento dos programas e dos objectivos pelos quais vão ser avaliados, apontou. O namoro, por outro lado, torna-se um jogo – ver quantos/as consigo conquistar. A dificuldade em lidar com as próprias emoções leva à violência. “Falta capacidade de diálogo dos pais, temos de reinventar-nos para entrar na cabeça deles, é preciso saber ouvir e tentar compreender”, apelou.
Por seu turno, Rui Ferrão, professor de História e candidato do Bloco de Esquerda às eleições europeias, considerou que a escola dá a instrução, não a educação, isso compete às famílias. Mas estas estão pressionadas pelos horários de trabalho cada vez mais exigentes, pela invasão do espaço doméstico, pelas tarefas que levam para casa, pelos e-mails do trabalho que chegam ao telemóvel a toda a hora. Pressionadas pela insegurança no emprego e pelos baixos salários, o que as obriga a desdobrarem-se em várias ocupações.
A instrução, por sua vez, é mercantilista, utilitária, muito virada para a competitividade e para o proveito imediato que dela se possa retirar. Esquece o lado humano dos alunos. A formação, defendeu, deverá ser mais humanista, e promover a inteligência emocional dos jovens. A violência decorre da dificuldade em lidar com as emoções – um professor às vezes está zangado e os alunos não conseguem reconhecer que ele está zangado – e se os jovens não reconhecem as emoções de um professor, também não reconhecerão as dos namorados.
Temos uma tendência de ocultar as nossas emoções dos outros, há situações em que isso é um problema e os pais devem estar atentos, disse este orador. A tendência para proteger os filhos remete-os para uma redoma que em vez de os proteger, isola-os. Os jovens estão demasiados isolados, precisam de mais comunicação, de saber exprimir o que sentem, sem recorrem à violência, sustentou.

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