
A notícia do voto de protesto, do Bloco de Esquerda, relativamente ao assassinato de três jornalistas, em Angola, registando apenas 16 votos a favor, oito do BE e outros tantos do PS, foi o toque de “despertar” para Paulino Ascenção, o atual líder do BE na Madeira, com formação superior em Economia. Sempre votou UDP ou BE, mas agora era diferente. “Esta gente merece respeito e quero ser um deles”, disse logo na altura. Daí até ser mesmo, foi um passo, tornou-se militante em 2013. As Autárquicas também ajudaram a reforçar a ideia que, afinal, “é possível mudar”. É esse objetivo que persegue, agora, como líder.
BE com lista própria às Regionais
Em entrevista ao Funchal Notícias, deixa em aberto a possibilidade de poder vir a integrar um projeto de poder na Região se as próximas eleições regionais derem votos suficientes para negociar. E se o cenário político for, como as sondagens indicam, de uma maioria relativa, o que obrigaria o vencedor a estabelecer plataformas de entendimento, de governo de coligação ou de acordo parlamentar. Para já, é ponto assente que o BE concorre sozinho, com lista própria. Depois, logo se verá aquilo que resultar da votação. O Bloco não faz dramas com isso, vai a votos como sempre, disponível para assumir outras responsabilidades. No Governo central já é assim.
A bipolarização está aí e de baixa política
O líder “bloquista” não tem dúvidas que “a bipolarização está aí, está visível e até se manifesta de forma um pouco estranha, como por exemplo um debate com dois chefes de gabinete, reduzindo o espaço das outras forças políticas que vão a eleições. Por isso, é preciso andar mais na rua, falar ainda mais com a população, encontrar outras formas que contrariem a tendência. Se ficarmos à espera da mediação, por parte da comunicação social, então aí haverá certamente menos espaço”. Mas também adianta, por outro lado, que essa bipolarização está centralizada em questões de baixa política, com base em aspetos pessoais de um ou de outro. O Bloco de Esquerda vai fazer campanha mas deixa de fora a discussão sobre o feitio dos candidatos, os gostos pessoais e as selfies. Não estamos aqui para tirar as fotografias mais bonitas, nisso os dois candidatos dessa bipolarização são muito iguais, é um baixar o nível.Vamos lutar pelas grandes causas, que preocupam as pessoas, apontando soluções”.
Paulino Ascenção mete tudo no mesmo “saco”, PSD, PS e CDS. E de certa forma, procura uma explicação para esse procedimento: “Como são muito iguais em termos da defesa das mesmas políticas, então discutem à volta da melhor foto e da melhor imagem de cada um”. Com uma situação que considera “insólita”, a de um candidato que “faz o PS-Madeira ter uma liderança externa, organicamente é assim. Mas apesar disso, não me parece que esse seja um factor que cause incómodo junto do eleitorado, pelo que não é por aí que os adversários irão tirar eventuais dividendos”.
Eleitorado cansado do PSD
É de opinião que o eleitorado está “cansado do PSD”, afirma que “há uma vontade de mudança”, predisposição que o Bloco pensa aproveitar dizendo às pessoas que “quanto maior força tiver o Bloco de Esquerda, mais significativa será a mudança. Se for só mudar o PSD pelo PS, a diferença será pouca, ambos os partidos não estão dispostos a enfrentar os interesses instalados, são adeptos da gestão privada, da concessão de setores estratégicos, que não devem ser objeto de negócios e constituem, até, matéria de direitos humanos, como a Saúde por exemplo. O Bloco dá a garantia da diferença”.
O Bloco vive este ano eleitoral, com as europeias em maio, as legislativas regionais em setembro e as legislativas nacionais em outubro, com um objetivo muito concreto, que Paulino Ascenção deixa claro. Acima de tudo, “afastar o PSD do poder”. O BE vai a eleições de forma independente, não quer coligações pré-eleitorais, nem isso sequer foi objeto de abordagem na Convenção do partido. Mas depois, vem a parte em que no pós consulta ao eleitorado, o cenário pode ser de certa forma equivalente ao que ocorre no Governo Central, uma ligação de partidos à volta do projeto de poder. Paulino Ascenção diz que “se tivermos força suficiente, vamos contribuir no sentido de haver uma maioria que introduza mudanças na Madeira, com nova sensibilidade social. E o que se passa na República pode muito bem um modelo aplicado na Madeira, até é um bom cartão de visita”.

E como é que concilia as críticas que o Bloco faz ao PS e PSD e depois estar disponível para integrar um projeto de governo? “A verdade é que PS, PSD e BE têm programas e prática diferentes. Por isso, é importante irmos a votos de forma isolada para que as pessoas façam as suas escolhas e marquem as diferenças nas opções oferecidas, sabendo antecipadamente que, nas eleições regionais, um voto no PS ou no Bloco de Esquerda conta exatamente o mesmo para derrotar o PSD e afastar esta política na Região”.
Contencioso com Lisboa é “manobra de diversão”
O que podemos chamar de contencioso das Autonomias, uma tensão que nos últimos tempos tem valido a crispação das relações com Lisboa, é uma situação que, para Paulino Ascensão, não passa de “uma manobra de diversão, como sempre foi. A diferença é que antes, os protagonistas conseguiam imprimir outro realismo a essa teatralização. Não há inimigos externos, esta ideia que há gente em Lisboa que não dorme a pensar nos prejuízos à Madeira, não faz sentido, temos a dimensão que temos. Agora, existem pessoas, em Lisboa, que têm uma visão centralista do País e essa visão prejudica a Madeira, como prejudica o Algarve e Trás os Montes. As teorias da conspiração são uma farsa para esconder os problemas da governação regional. Há inimigos, mas são internos, aqueles que beneficiaram com esta governação do PSD. O dr. Jardim assumiu que tinha como objetivo a criação de uma burguesia moderna, uma nova classe de ricos, e conseguiu. E para disfarçar isso, para camuflar a proteção aos interesses económicos locais, toca a inventar o inimigo externo e toca unidos a marchar contra Lisboa, fazendo crer que aqui, entre madeirenses, somos todos amigos, somos todos irmãos. É falso, o problema está cá dentro. E isso deve ser denunciado.”
Cafôfo diz que não há inimigos? É uma fantasia…
O líder do Bloco fala de Cafôfo, diz ser sintomático que Paulo Cafôfo diga que não há inimigos, nem externos nem internos. “É uma fantasia, seria uma sociedade de anjos onde não há conflitos de interesses. Como se os interesses do senhor Pestana fossem os mesmos dos trabalhadores da hotelaria. Quanto menores forem os salários dos trabalhadores, melhor é para o senhor Pestana, pior para os trabalhadores. Há esse conflito que deve ser assumido sem hipocrisias. E no caso da governação regional, aquilo que o PSD tem feito, ao longo dos anos, tem sido beneficiar sempre os mesmos, os empresários dominantes. Quando o PS diz não haver inimigos, diz que não está interessado em reequilibrar esta balança”.
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