D. Nuno Brás mostra-se aberto ao diálogo com o padre Martins; mas afirma que não se esforçará por “ser diferente”

Fotos: Rui Marote

“Por que é que hei-de ser diferente? (…) não vou precisar de fazer o pino para ser diferente”. Palavras do bispo eleito do Funchal, D. Nuno Brás, ao ser interpelado pelos jornalistas, à chegada ao Aeroporto da Madeira, por comparação com os seus antecessores, que o ladeavam. O seu estilo, assegurou, “é o de Nosso Senhor, é o de Jesus Cristo, como pastor. Os homens passam, a igreja fica e a fé permanece”.

O Funchal Notícias dirigiu-se-lhe na conferência de imprensa na sala VIP do Aeroporto, questionando-o sobre qual o seu posicionamento relativamente à sempiterna questão do padre Martins, há anos suspenso “a divinis” mas que continua a oficiar na paróquia da Ribeira Seca. D. Nuno respondeu procurando, desde o início, esclarecer que “os casos particulares e pessoais serão tratados particularmente e pessoalmente”.

“Aquilo que posso dizer é que estou muito aberto ao diálogo e ao encontro com o sr. Padre Martins, como estarei aberto ao diálogo com todo e qualquer cristão, com toda e qualquer pessoa da Madeira. A minha primeira atitude é de abertura ao diálogo e ao encontro (…)”.

Nuno Brás afirmou que chega à Madeira “sem nenhum preconceito” e mostrou-se convicto de que não terá qualquer dificuldade de comunicação com a comunidade cristã da Madeira. Pelas suas experiências anteriores de visitas à Madeira, a sua percepção é a de que os madeirenses são um povo “muito acolhedor” e que sabe bem receber.

Por outro lado, e perante uma pergunta sobre como vê os alegados abusos sexuais no seio da Igreja Católica, escândalo internacional ao qual nem Portugal nem a Madeira estão imunes, como ainda recentemente abordou o jornal digital “Observador”, que aponta para uma evidência de encobrimento e de laxismos da Igreja no tratamento de tais assuntos, D. Nuno Brás respondeu de forma oficial. “Existe um protocolo, um modo oficial de proceder” sobre tais assuntos, disse. “Desde 2012 que há um modo que a Conferência Episcopal Portuguesa adoptou”, referiu, “e esse é o modo de proceder que eu adoptarei”.

O novo bispo foi recebido com cânticos por crianças madeirenses.

O prelado dirigiu uma mensagem de saudação a todos os madeirenses e poO rtosantenses, da parte de quem “chega para servir e quer estar sempre disponível para escutar e agir para o bem de todos os que habitam estas ilhas”. Também prometeu prestar uma atenção especial aos lusodescendentes e aos venezuelanos.

Comentando ter visitado várias vezes a Madeira, considerou numa declaração lida na ocasião “ser bem diferente passar e passear, de estar a tempo inteiro para serviço (…) ser Bispo, sucessor dos Apóstolos, presença de Cristo”.

“Não sou político, nem gestor. Sou Bispo. Tenho a missão de evangelizar, celebrar os sacramentos, conduzir o povo de Deus como Bom Pastor”.

O prelado ajoelhou-se para beijar o solo madeirense, num gesto simbólico.

Relembrando que há pelo menos 600 anos que o Cristianismo existe nestas ilhas, considerou-o parte integrante do modo de ser do seu povo, da sua cultura e valores.

“Na Carta de nomeação que me enviou, e que será lida no próximo domingo, o Papa Francisco convida os cristãos da Madeira a duas coisas: a viver cada vez mais diligentemente os divinos preceitos (quer dizer: o mandamento de amor a Deus e ao próximo) e a manifestar a viva presença de Cristo no mundo. Podemos, portanto, dizer que o Papa nos aponta uma dupla tarefa: construir comunidade cristã e evangelizar”. Esta missão, disse, é de toda a Igreja diocesana, envolvendo leigos, sacerdotes, religiosos. “Conto, por isso, com todos”, destacou.

“Serei o pastor que, como diz o Papa Francisco, umas vezes irá à frente a abrir caminho, outras vezes irá atrás, cuidado que ninguém fique fora, outras vezes irá no meio do rebanho, animando a todos. Espero poder fazê-lo com humildade e ousadia”.

Nuno Brás considerou essencial, para o bom desempenho do seu cargo, o diálogo com todas as instituições da sociedade da Madeira e Porto Santo, numa perspectiva de respeito mútuo.

“Não posso, ainda, deixar de agradecer publicamente as muitas saudações que me têm chegado de cristãos a título pessoal, de movimentos de apostolado e de instituições da Região. Tal como não posso deixar de agradecer o acolhimento, serenidade e transparência com que fui recebido pelo Senhor D. António Carrilho”, bispo cessante.

Deixou ainda uma palavra à comunicação social, mostrando-se disponível para colaborar com a mesma.

Num comentário às potencialidades da RAM para o turismo religioso, disse que “sendo a Madeira uma terra de turismo (…) creio que é importante percebermos que as marcas da fé, tal como ela é vivida hoje (…), não apenas o património religioso, é importante para que tanta gente possa contactar com elas. Muito mais importante do que os monumentos, a talha dourada, enfim, tudo isso, é a fé viva das pessoas. Isso é o grande monumento, o grande lugar do encontro com Jesus Cristo”.